A inteligência artificial está a alterar a forma como os viajantes pesquisam e escolhem destinos, obrigando organismos de turismo e empresas a repensarem a forma como chegam aos consumidores. A tendência esteve em destaque em diferentes sessões do Arabian Travel Market (ATM), que decorre até 17 de setembro no Dubai, com especialistas a apontarem também para mudanças no perfil da procura, maior procura por valor e crescimento de destinos secundários.
Os potenciais visitantes do Médio Oriente estão entre os viajantes que mais recorrem à inteligência artificial para planear viagens, segundo o ATM Travel Trends Report 2026, desenvolvido pela Tourism Economics, empresa do grupo Oxford Economics. “Os viajantes estão a utilizar chatbots de IA, a planear as suas viagens através de IA, muito mais do que para qualquer outra região do mundo”, afirmou Dave Goodger, Managing Director, EMEA da Tourism Economics, durante a apresentação do estudo esta terça-feira, 15 de setembro.
Os dados apresentados mostram que os potenciais visitantes do Médio Oriente recorrem acima da média a diferentes canais de planeamento. A utilização de redes sociais apresenta uma diferença de 20 pontos percentuais face aos viajantes interessados noutros destinos, enquanto nos chatbots de IA a diferença é de 16 pontos. Os agentes de viagens também surgem acima da média, com uma diferença de seis pontos percentuais.
A mudança foi igualmente abordada no primeiro dia do ATM por Marwan Alzarouni, CEO de IA do Dubai Department of Economy and Tourism (DET), durante a sessão AI’s True Role in Rewriting the Travel Landscape. O responsável apontou para uma transição das pesquisas tradicionais, assentes em motores de busca e listas de ligações, para respostas diretas e personalizadas fornecidas por assistentes de IA.
“Já não estamos a competir por uma posição nos motores de busca. Estamos cada vez mais a competir para estar representados, para estar corretamente representados e para aparecer com destaque na própria resposta”, afirmou. “Temos de ser uma referência de autoridade nos motores de pesquisa de IA, caso contrário, basicamente desaparecemos.”
O Turismo do Dubai está já a testar perguntas reais de viajantes em diferentes modelos e plataformas de IA para avaliar de que forma o destino e o seu ecossistema turístico são representados e citados. Para Alzarouni, a mudança exige informação “precisa, atempada e contextual”, proveniente de fontes como destinos, companhias aéreas, hotéis, atrações, media e plataformas de avaliações. “Se o conteúdo de um destino não puder ser devidamente compreendido e processado pela IA e pelas máquinas, tornar-se-á cada vez mais difícil para os viajantes descobri-lo através de jornadas lideradas pela IA”, alertou.
A tecnologia deverá também ganhar peso na gestão dos destinos. Alzarouni apontou aplicações na previsão da procura, otimização da capacidade e gestão de fluxos de passageiros, equipas e recursos. “A IA vai dar-nos não apenas insights, mas insights em tempo real. Isso significa que poderemos reagir agora, em vez de reagirmos depois do acontecimento, um trimestre ou dois trimestres mais tarde”, afirmou.
No Dubai, está em desenvolvimento um planeador de itinerários baseado em IA, que deverá criar recomendações personalizadas a partir de plataformas turísticas interligadas. O emirado tem ainda vindo a implementar soluções como portas biométricas nos aeroportos e check-in digital nos hotéis. Alzarouni defendeu, contudo, que a transformação depende de “uma infraestrutura digital forte, governação responsável” e colaboração entre os setores público e privado.

Viajante interessado no Médio Oriente é mais jovem e “AI-forward”
A utilização de tecnologia cruza-se com um perfil de procura diferente. Segundo o ATM Travel Trends Report 2026, 46% dos viajantes interessados em visitar o Médio Oriente têm menos de 35 anos, contra 26% entre os interessados noutros destinos. Há também uma maior proporção de consumidores com rendimentos médio-altos ou altos, pessoas com possibilidade de trabalhar remotamente e viajantes em família.
Goodger classificou este segmento como um público “premium, que valoriza o luxo e a ligação cultural” e como “o grupo mais avançado na utilização de IA”. Quase 80% dos viajantes interessados na região dão prioridade ao luxo, embora o preço continue a pesar nas decisões: 47% afirmam que influencia o tipo de alojamento escolhido. “Podem poupar no alojamento, mas depois colocar esse dinheiro nas compras e nas atividades”, explicou.
A procura asiática está também a ganhar peso. Fadil Tarik, Vice President da Agoda International, revelou que as pesquisas pelo Médio Oriente na plataforma aumentaram 20% em 2025 face ao ano anterior. Coreia do Sul, Indonésia e Malásia estão entre os mercados que têm vindo a crescer.
Para Tarik, a adaptação da oferta aos diferentes mercados é determinante. “A palavra-chave depois de resiliência é localização”, afirmou, apontando para a disponibilidade de métodos de pagamento, alimentação e tipos de alojamento adaptados aos diferentes visitantes. “Historicamente, existia a perceção de que o Médio Oriente era luxo e gama alta. Agora temos luxo, midscale e low-scale.”
A evolução da procura está também a obrigar a hotelaria a ajustar estratégias. Eddy Tannous, Chief Operating Officer da Rotana Hotel Management Corporation, destacou o peso crescente das experiências e do valor na decisão do consumidor. “Os clientes querem coisas diferentes, todos procuram experiências. Valor é uma palavra enorme”, afirmou. “Se tivesse de basear uma estratégia numa palavra, seria valor.”
A diversificação dos mercados emissores torna-se particularmente relevante em períodos de instabilidade. “Diversificação é a chave para o sucesso num período de baixa procura”, defendeu Tannous, referindo que, durante a disrupção registada em março e abril, os hotéis com uma base de clientes mais diversificada demonstraram “muito mais resiliência”, por não dependerem de um único mercado.
Tarik acrescentou que preço e valor não devem ser confundidos. Apesar de reconhecer que o preço continua a ser um dos principais elementos da reserva, defendeu que os hotéis devem competir “naquilo que é único”, como a experiência, em vez de dependerem apenas do desconto.

IA pode dar visibilidade a destinos secundários
A transformação da pesquisa poderá também favorecer destinos menos consolidados. Mais de metade dos viajantes inquiridos pela Tourism Economics afirma estar atualmente mais interessada em explorar novos destinos do que há dois anos.
Na Agoda, a tendência já é visível no Golfo. Segundo Tarik, as pesquisas por destinos como Ras Al Khaimah, Ajman e Fujairah aumentaram cerca de 40% em 2025. O responsável relacionou esta evolução também com a IA, que permite substituir pesquisas rígidas, como “hotel de cinco estrelas no Dubai”, por pedidos assentes na experiência pretendida.
“Um dos fatores que leva os consumidores a procurar novos destinos é a IA”, afirmou Tarik. Segundo o responsável, em mercados asiáticos, “mais de 60% dos consumidores declaram que utilizam IA quando pensam numa viagem”, uma mudança que considera capaz de colocar organicamente destinos secundários no processo de escolha.
Para Tannous, existe ainda uma oportunidade para promover os países do Conselho de Cooperação do Golfo como uma proposta multidestino, permitindo que viajantes de longo curso combinem numa mesma viagem destinos como Dubai, Omã, Qatar e Arábia Saudita. “Ainda não desenvolvemos o marketing do destino dessa forma”, afirmou, considerando existir “uma enorme oportunidade” para aumentar a colaboração regional.




