“Quem vive no Douro adapta-se. Um visitante não. Confia em nós. Confia que alguém pensou no percurso que ele vai fazer. E essa confiança merece ser cuidada, com uma indicação mais clara (…)”
Esta semana senti-me turista no Douro. Não porque não conheça a região. Mas naquele dia não estava a olhar para o Douro com os olhos de quem trabalha no turismo, estava apenas a viver um dia numa Quinta, como tantos dos visitantes que recebemos todos os dias.
E, no regresso, senti-me perdida.
Não pelas curvas. Não pela distância. Não pela exigência das estradas de montanha. Quem escolhe o Douro sabe que isso faz parte da identidade do território e, para muitos, até do seu encanto.
Senti-me perdida porque deixei de perceber qual era o caminho certo.
Ao longo do percurso encontrei semáforos, circulação alternada, troços condicionados e, mais tarde, uma estrada que de manhã estava aberta e que, entretanto, tinha sido encerrada. A única indicação era uma placa onde se lia “Desvio”. Mais nada.
As obras na EN 222 são necessárias. Ninguém discute isso. Melhorar os acessos e reforçar a segurança é essencial para o futuro da região. Mas num destino turístico, uma obra nunca é apenas uma obra. Também precisa de ser pensada do ponto de vista de quem continua a viver, a trabalhar e a visitar o território enquanto ela decorre.
O que mais me inquieta é que esta intervenção acontece numa das principais portas de entrada do Douro. Dentro de poucas semanas começam as vindimas. À circulação habitual juntar-se-ão carrinhas carregadas de uvas, tratores, fornecedores, trabalhadores, residentes e milhares de visitantes.
E é precisamente por isso que me pergunto: estamos a comunicar este constrangimento da melhor forma possível? Continuamos, muitas vezes, a desenhar a informação para quem já conhece o território, quando deveríamos comunicá-la também para quem o está a descobrir pela primeira vez.
Quem vive no Douro adapta-se. Um visitante não. Confia em nós. Confia que alguém pensou no percurso que ele vai fazer. E essa confiança merece ser cuidada, com uma indicação mais clara, com um mapa simples dos percursos alternativos, uma informação atualizada antes da partida, uma mensagem que diga: “A estrada habitual está encerrada. Este é o melhor percurso alternativo.”
Ou até uma frase tão simples como: “Lamentamos o incómodo. Continua no caminho certo.”
Parece um detalhe, mas os destinos constroem-se precisamente através dos detalhes. Num território conhecido pela sua hospitalidade, até a sinalética pode acolher. Promover um destino é convencer alguém a visitá-lo. Gerir um destino é garantir que nada estrague essa decisão.
As vindimas serão, provavelmente, o momento mais exigente do ano para a mobilidade no Douro. E talvez seja precisamente por isso que esta seja uma oportunidade para mostrar aquilo que distingue um destino maduro. Não é a ausência de problemas. É a forma como comunica, coordena e acompanha as pessoas enquanto os resolve.
Há uma ideia que continuo a ouvir muitas vezes no turismo: a experiência termina quando o visitante faz o check-out. Eu não acredito nisso.
A experiência termina quando chega a casa e faz o balanço da viagem. É aí que recorda a paisagem, o vinho, a refeição, o quarto onde dormiu. Mas também a estrada que encontrou encerrada. O tempo que perdeu. A ansiedade de não saber se estava no caminho certo. No turismo, tudo comunica. Até uma placa de desvio.
Quando um visitante sai de uma quinta, deixa de ser cliente daquela quinta, mas não deixa de ser visitante do Douro. Continua a construir a opinião que levará do destino.
É por isso que acredito que a hospitalidade não pode terminar à porta das empresas. Tem de fazer parte do território.
Porque um turista aceita uma estrada difícil. O que dificilmente aceita é sentir que ninguém pensou no caminho que ele tinha de fazer.
Por Ana Clara Silva
É diretora-geral da Pipadouro, empresa de turismo fluvial de luxo no Douro. Assina mensalmente a coluna de opinião Contrafluxo, um espaço para pensar o Douro, o vinho e o turismo com autenticidade, elegância e sentido crítico.




