Quando Francisco Calheiros entrar, no próximo dia 28 de setembro, no Salão Nobre do Ritz Four Seasons, para abrir a Cimeira do Turismo, estará também a iniciar a reta final dos seus 15 anos à frente da Confederação do Turismo de Portugal (CTP). O mandato termina em março de 2027 e já são conhecidas duas candidaturas à sucessão.
A Cimeira reúne, uma vez mais, um leque alargado de governantes, ex-governantes e especialistas em geopolítica para debater “Portugal e Turismo: uma Relação de Crescimento”, num momento em que a geoestratégia mundial é talvez o que mais preocupa o presidente da CTP. Francisco Calheiros não deixará também de aproveitar a Cimeira para deixar alguns recados sobre temas da Concertação Social, como a legislação laboral, cuja negociação falhada foi, nas suas palavras, “uma desilusão”. Em entrevista ao TNews, Francisco Calheiros garante que vai continuar a defender, até ao final do mandato, uma solução intermédia para o aeroporto de Lisboa, enquanto não avança Alcochete. “O Montijo não é a minha guerra. A minha guerra é uma alternativa intermédia”, afirma.
A Cimeira do Turismo acontece num momento em que o setor português continua a crescer, mas também enfrenta novos desafios. A Cimeira é uma plataforma privilegiada para discutir com os governantes as questões que mais preocupam o turismo. Que questões são essas atualmente?
Ainda não tenho o discurso preparado, mas já tenho algumas ideias. Em primeiro lugar, temos de ter a noção de que não podemos continuar a crescer, por exemplo, como crescemos de 2009 para 2019, em que dobrámos o número do turismo. Isso não existe. Em 2020 e 2021, tivemos a Covid, não vale a pena falar, todos sabemos o que é que aconteceu. Em 2022, fomos o primeiro país da Europa a recuperar o movimento de 2019. Em 2023, fomos melhores do que em 2022, em 2024 também. Este ano continuamos a crescer. Os últimos dados que temos são de 1,8% de crescimento.
Há dois anos que digo isto, e direi para o ano que vem, com certeza: se o ano que vem for igual a este, já é ótimo, porque são movimentos já muito acentuados. Temos estado a crescer mais em valor do que em dormidas, portanto, aquela questão da criação de valor é extremamente importante.
Relativamente a situações que nos preocupam, a nível de concertação social, devo dizer que a negociação da legislação laboral foi uma desilusão para mim. Trabalhei bastante com os meus colegas nisso. Foram dezenas de reuniões. É uma lei que é fundamental para o país. Há coisas que só nós, dentro da Europa, é que temos. Estamos completamente ultrapassados. Do lado dos sindicatos, não houve qualquer intenção de poder modificar aquilo. É um tema que espero que o Governo venha a revisitar no ano que vem.
Depois, talvez a questão que, hoje em dia, mais me preocupa seja a geoestratégia mundial, porque não só não vejo fechar nenhum dossier, como só vejo abrir dossiers. Dou sempre um exemplo: a invasão da Rússia na Ucrânia duraria duas, três semanas, já lá vão mais de quatro anos. Depois temos o conflito entre Israelo-Árabe, eram dois meses, já lá vai mais de um ano. Agora abriu-se outro conflito entre os EUA e o Irão. A questão do Irão e do Estreito de Ormuz tem levado ao aumento do preço do combustível e do cabaz alimentar e, portanto, vamos ter menos dinheiro disponível. E, quando temos menos dinheiro disponível, por um lado, e pouca segurança ou insegurança, por outro, as pessoas pensam duas vezes antes de viajar. A geoestratégia é talvez uma das minhas maiores preocupações. Ao dia de hoje, estou extremamente preocupado com esta questão porque não só não a vejo diminuir, como a vejo escalar.
“A negociação da legislação laboral foi uma desilusão para mim. É um tema que espero que o Governo venha a revisitar no ano que vem”
Estamos a chegar ao último trimestre do ano. Foi um ano à altura das expectativas com estes problemas geopolíticos?
Sim. Eu já tinha dito no final do ano passado que, se o ano de 2026 fosse igual ao ano de 2025, já seria ótimo. Mas a realidade é que, a julho, estamos com mais 1,5% de dormidas e mais 4,2% em receita. Ou seja, tudo o que se pretendia. Por um lado, queremos crescer um bocadinho, estamos a crescer 1,5%. Por outro, estamos a crescer mais em valor do que em número de dormidas. E, outro fator, em julho, o 1,5% divide-se em 3% de nacionais e 0,8% de internacionais. Ou seja, dizer que Portugal e o Algarve não são para os portugueses é um erro. Os números já o provaram em 2025 e estão outra vez a provar em 2026. Em termos de expectativas, estamos de facto no bom caminho.
Depois de vários anos em que se falou sobretudo de crescimento, sente que a discussão do turismo está finalmente a passar para uma questão diferente: quanto queremos crescer e, sobretudo, como queremos crescer?
Já há algum tempo que essa discussão tem existido. Estamos agora à espera do Plano Estratégico 2035, que está a ser preparado. Deve estar, penso eu, a sair a qualquer momento. Temos de ter um plano estratégico a médio e longo prazo para nos orientarmos. Reconheço que, com o que se está a passar no mundo, é muito difícil fazer um plano estratégico.
Temos feito, nos últimos anos, uma inversão, não no número de turistas, mas sim no valor criado pelos turistas. Se reparar, por exemplo, quem é que são os países que mais crescem este ano? Polónia, Estados Unidos e Brasil. É o turista que toda a gente quer. É o turista que fica mais pernoitas, que gasta mais, e é tudo o que nos interessa.
Também é de salientar o crescimento este ano dos alemães. Os alemães são o principal mercado da Europa e nós, historicamente, não temos uma boa penetração na Alemanha. Aliás, pelo contrário, temos uma fraca penetração. Quer dizer que, se tivermos engenho e arte para fazer as coisas bem feitas, é um mercado que pode crescer muito para Portugal. Está a crescer quase 4% este ano.
Todos estes mercados — americanos, canadianos, polacos, brasileiros, coreanos — vão no sentido de criar valor em vez de aumentar muito o número de turistas e dormidas.
Espera que a Estratégia Turismo 2035 seja apresentada ainda durante o seu mandato?
O meu mandato acaba daqui a seis meses. Estou completamente convencido de que sim. Ainda há pouco tempo falei com o secretário de Estado do Turismo sobre o tema. Ele disse-me que está pronta a sair. Eu diria que este ano, antes do Natal, ainda vamos ter a estratégia para analisar.
Fiscalidade e habitação
As confederações empresariais estão a pedir uma redução da carga fiscal sobre as empresas no OE2027. Sendo o turismo um setor particularmente pressionado pelos custos, que medidas fiscais considera prioritárias para as empresas turísticas no próximo Orçamento?
O Governo tem estado a fazer um esforço, quer para baixar o IRC, quer para baixar o IRS, e gostaria de saber se essa questão vai continuar a ser uma realidade no ano de 2027, porque é importante para as empresas, quer a nível do IRC, quer a nível das tributações autónomas, que haja uma baixa importante e, para os particulares, o IRS. Isso significa menos impostos, mais rendimento disponível, mais consumo. É extremamente importante. Uma segunda nota relativamente às nossas preocupações tem a ver, por exemplo, com a habitação. De uma vez por todas, temos de desmistificar este mito urbano de que a falta de habitação tem a ver com o turismo.
Os estrangeiros são responsáveis por cerca de 2% das compras dos imóveis em Portugal. Quanto ao Alojamento Local, não é um quarto de 20 ou 25 metros quadrados que vai substituir uma casa para uma família com dois filhos. São realidades completamente diferentes. Os diagnósticos estão feitos e já sabemos todos onde estão os problemas. É preciso é passar do diagnóstico à execução. Um caso concreto é o da habitação. Nos últimos 10 anos, construíram-se 120 mil casas em 10 anos. Nos 10 anos anteriores, construíram-se 70 mil por ano. Qual é o problema? Não há casas. E, portanto, a lei mais antiga da oferta e da procura é que, quando a procura é muito maior que a oferta, os preços sobem e não há oferta. O que temos é de construir. É preciso construir mais, quer através de incentivos à construção, quer através do aumento do parque público, quer através de incentivos aos jovens para poderem comprar habitação. O diagnóstico está feito, agora é preciso executar.

Aeroporto: “A minha guerra é uma alternativa intermédia”
O novo aeroporto continua a ser uma das grandes questões estruturais para o turismo português. O projeto de Alcochete está definido, mas é uma solução que demora anos. A CTP continua a defender uma solução intermédia no Montijo. Estará o país preparado ou com vontade de voltar a ter essa discussão?
Gosto de falar do aeroporto não como o Aeroporto de Lisboa. É uma infraestrutura nacional, importante para toda a atividade económica, não só para o turismo. Além disso, o aeroporto não é para Lisboa, é através de Lisboa que nós dispersamos turistas para a região Centro e para o Alentejo. Está decidido que é Alcochete, mas, a correr tudo bem, Alcochete vai estar pronto daqui a 10, 12 anos. E a pergunta que tenho feito é ao contrário: está o país preparado para estar 12 anos sem um aeroporto? Ou melhor, para estar 12 anos sem capacidade de crescer no aeroporto de Lisboa? Vamos continuar durante 12 anos a recusar slots das várias companhias aéreas que nos têm pedido? Na minha opinião, acho que não. Já não vou só falar do Montijo, aliás, porque não é o Montijo que é a minha guerra. A minha guerra é uma alternativa intermédia. Não discuto Alcochete, mas, nestes 12 anos, vamos arranjar uma solução intermédia que permita podermos ter maior capacidade.
Sente abertura do Governo para ter esta discussão de uma solução intermédia para Alcochete?
Independentemente de ter sentido abertura ou não, é uma luta que eu não vou deixar de ter. Honestamente, não tenho sentido grande abertura. Mas, quando temos razão, não podemos desistir. É importantíssimo termos uma solução intermédia. Caberá ao meu sucessor aferir da importância desta guerra. Enquanto aqui estiver, até março-abril, não largo esta guerra.
Os problemas no verão sobre o controlo de passageiros acabaram por ser resolvidos. Mas é suficiente resolver quando a crise acontece ou é preciso garantir que não se repete no próximo verão?
Este verão foi um pouco peculiar, porque tivemos a questão dos dados biométricos. Houve uma alteração. O que aconteceu em Portugal aconteceu na Europa. Mas o Governo deixou ir longe demais as filas do aeroporto. Deveria ter atuado antes. Temos que dar uma palavra de elogio ao ministro Luís Neves, claramente, foi de um empenho brutal no que diz respeito a acabar com as filas do aeroporto e foi determinante para que isso acontecesse. Estive várias vezes com ele, fomos ao aeroporto juntos, tivemos reuniões com a ANA, tivemos a visitar as instituições. Aquilo que espero, durante este ano, é que todos os problemas que tínhamos com as máquinas possam ser resolvidos e que não venha a acontecer. Resumindo, considero, pela negativa, que se esperou demais, deixou-se ir longe demais, tivemos que “berrar” muito. Pela positiva, o ministro Luís Neves entrou a fundo, a coisa resolveu-se. Dou, de facto, uma nota muito positiva à atuação do ministro Luís Neves enquanto responsável da Administração Interna nos problemas dos aeroportos.
“Temos que dar uma palavra de elogio ao ministro Luís Neves, claramente, foi de um empenho brutal no que diz respeito a acabar com as filas do aeroporto e foi determinante para que isso acontecesse”
A privatização da TAP entrou numa fase decisiva, com o Governo a negociar agora com a Air France-KLM e a Lufthansa. As duas propostas foram consideradas globalmente muito próximas. O Governo diz que o preço será importante, mas não será o único critério. Que critérios a CTP considera essenciais?
Primeira nota, tenho pena que o grupo IAG tenha desistido, mas temos dois concorrentes de peso. Não é como determinadas situações do passado que poderiam oferecer algumas dúvidas. Caso a TAP venha a ser comprada pela Air France-KLM ou venha a ser comprada pela Lufthansa, eu diria que estamos em plataformas à prova de bala. Segunda questão, eu estou de acordo com o Governo: o preço é um elemento e há outros que são extremamente importantes. Para mim, o mais importante de todos é a manutenção do hub. Vamos ser claros: a quantidade de brasileiros e americanos que nós temos deve-se exclusivamente ao hub da TAP. Acredito que, quer um, quer outro, queiram manter o hub que a TAP tem. O Governo tem que se garantir dessa situação. Defendi a privatização da TAP a 100%. Porquê? Porque, para o grupo que compra a companhia, para poder captar a totalidade das sinergias, tem que ter os 100% da companhia, para que não lhe aconteçam coisas irreversíveis. Imaginemos que o vencedor, de repente, quer mudar toda a nossa manutenção para Portugal. Não pode, porque não é dono da empresa. Isto só pode ser feito quando se tem 100% do capital. E, portanto, a proposta de aquisição devia ser de 100%. Estamos perante duas ótimas forças. A manutenção do hub é muito importante, as ligações à diáspora também são muito importantes. Acho que o Governo sabe isso e estou completamente convencido de que está a salvaguardar isso no caderno de encargos.
Também defende que a SATA deveria ter sido englobada?
Isto é uma ideia muito minha. Nunca discuti isto com ninguém. É uma ideia que para mim fazia sentido. Se calhar, é tão difícil ou mais vender a SATA do que a TAP. Por que não ter aproveitado a privatização da TAP para, no pacote, vir a SATA e vir a TAP? Na minha opinião, teria feito todo o sentido ter associado as duas companhias.
“Seria positivo manter esta administração da TAP”
O setor de outgoing em Portugal elogia bastante a relação que tem atualmente com a administração da TAP e a expectativa é que se mantenha depois da privatização. Qual é a sua opinião?
O Dr. Luís Rodrigues, pessoa com quem me dou muitíssimo bem, está na direção da CTP em representação da TAP. Aliás, era mais uma razão pela qual fazia todo o sentido privatizar também a SATA neste pacote, porque o Dr. Luís Rodrigues vem da SATA. É uma pessoa extremamente capaz, muito competente, e estranharia muito que o futuro comprador da TAP não mantivesse esta equipa. Irão estar pessoas da confiança do acionista, como é óbvio, porque comprou, mas, sim, claramente, seria positivo manter esta administração. É um ativo e nós normalmente não devemos largar os nossos ativos.
Não revela a sua preferência entre a Air France-KLM e a Lufthansa?
Não, porque, para ter uma preferência, teria de saber, e não sei, quais são os planos estratégicos, quer da Air France-KLM, quer da Lufthansa, para a TAP. Aí poderia dizer: revejo-me mais nesta ou naquela. Já falei com ambos. Aliás, já tinha falado também com o grupo IAG. Todos vieram cá falar connosco, mas, basicamente, vieram dizer: somos compradores, gostávamos muito de dinamizar o turismo. Não sei qual é o plano estratégico que têm para a TAP. Precisava de saber isso para poder ter uma simpatia melhor ou pior por um ou outro.
Air France-KLM, ou Lufthansa? “São dois concorrentes de peso. Para ter uma preferência, teria de saber, e não sei, quais são os planos estratégicos para a TAP”
A falta de trabalhadores continua a ser um dos problemas estruturais do turismo. Portugal tem mão de obra suficiente para o turismo que quer ter?
O grande problema que tivemos foi em 2022. Esse foi um problema dramático. Em 2020 e 2021, a economia fechou. Muitos trabalhadores que estavam deslocados regressaram às suas bases. Ao regressar às suas bases, muitos deles arranjaram empregos nessas áreas. Quando recomeçámos em 2022, e com grande força, a falta de trabalhadores era uma loucura. Estamos a falar de dezenas de milhares de trabalhadores. A partir de 2022, a situação foi sendo menos complicada. Temos que perceber que vivemos em pleno emprego. Não é só o turismo, todas as atividades que estão a crescer têm o problema da falta de trabalhadores. O turismo, como continua a crescer, também tem esse problema.
Temos feito agora o programa Integrar o Turismo, que é um belíssimo exemplo. Disseram-me, não posso garantir se isto é verdade ou não, que o Governo está a pensar em replicar ou integrar o Turismo para outras atividades. Esta associação entre a AIMA, o Turismo de Portugal e a Confederação permitiu identificar milhares de imigrantes. Esses imigrantes foram formados nas escolas do Turismo de Portugal, através do protocolo com a Confederação, e foram estagiar nas empresas. Só no último Integrar, foram mais de mil migrantes que estiveram a ser formados e estagiaram nas nossas empresas. Já vamos a caminho do terceiro programa. Resumindo, todas as atividades económicas que estão a crescer precisam de trabalhadores, num país em que se vive em pleno emprego. Não é o drama que tivemos em 2022, mas há essa falta.
“Não nos podemos cansar de explicar que não é por causa do turismo que existe a falta de habitação”
A habitação e a relação entre turismo e residentes continuam também no centro do debate. Considera que o setor conseguiu explicar suficientemente o seu contributo para o país ou continua demasiado na defensiva?
Há duas questões. Primeiro, não tenho dúvidas de que a opinião pública, em geral, considera que o turismo tem sido o motor da economia. Essa perceção existe. No que diz respeito à habitação, acho que a perceção não é igual a esta. Independentemente de, como eu já expliquei, o problema da habitação não ser por causa do turismo, acho que temos que continuar a explicar isto, desmistificar este mito urbano. Não é por causa do turismo. O problema de não haver habitação é justamente por aquilo que disse: constrói-se um quinto do que se construía há 20 anos. E, portanto, não havendo casas, a população continua a crescer, somos mais. E, portanto, há um problema, por um lado, de falta de habitação e, por outro, da loucura que os preços têm vindo a aumentar. Mas esta é a lei mais antiga da oferta e da procura: não há, sobe o preço. Portanto, não tem de facto a ver com o turismo. Esta ideia carece de ser melhor explicada. Não nos podemos cansar de explicar que não é por causa do turismo que existe a falta de habitação.
Um estudo recente mostra que as mulheres são mais de metade da força de trabalho no turismo, mas apenas 7% chegam à gestão de topo. A CTP deve ter uma posição mais ativa sobre igualdade salarial e progressão das mulheres nas carreiras turísticas ou considera que esta é uma responsabilidade de cada empresa?
É uma responsabilidade de todos e de cada um. É uma responsabilidade das empresas, é uma responsabilidade das famílias, é uma responsabilidade do Governo e de todos. A começar nas próprias famílias, em que há um que hipoteca um bocadinho a carreira do outro porque tem melhores oportunidades. Que seja o que está mais bem preparado, independentemente de ser homem ou mulher. Quanto à diferença salarial, não consigo entender que uma mulher e um homem que façam a mesma coisa tenham uma diferença salarial. Não consigo perceber.
No próximo ano termina o seu mandato à frente da CTP. Quando olha para estes anos, qual considera ter sido a sua principal conquista enquanto presidente?
A Confederação tem duas áreas completamente distintas. Por um lado, é o órgão de cúpula do turismo — isso foi a minha praia toda a vida, discutir os problemas do aeroporto, a TAP, a promoção, etc. Isso era a minha praia, lidava com isso muito facilmente, tinha experiência associativa, fui presidente da ECTAA, estive na APAVT. Depois, faz parte do Conselho Económico e Social (CES), mais concretamente da Comissão Permanente de Concertação Social (CPCS). Essa atividade é uma atividade política pura. Não tinha tido qualquer espécie de atividade política. Portanto, houve uma aprendizagem grande nos primeiros anos da parte política. Quando entrei, há praticamente 15 anos, a CTP não era muito representativa, ou seja, tinha muito poucos associados, não tinha uma situação financeira invejável. A CTP falava pouco, tinha pouca awareness. Essa foi uma conquista importante: por um lado, tornar extremamente robusta a CTP do ponto de vista financeiro, para ser independente, e ser muito representativa. Todas as grandes forças estão cá hoje em dia, mais que duplicámos o número de associados e temos alguma awareness. Depois ultrapassámos um período complicado, que foi a Troika, e diria que o período mais difícil que passámos foi claramente o da Covid. O maior drama do Covid era não se saber o timing: duraria uma semana, um mês, um ano ou dez anos? Estou sempre a elogiar a parceria público-privada, e este foi um bom exemplo. Era um outro Governo, um Governo socialista, e esteve muito bem. Todo o diálogo permanente com o Governo, a questão dos lay-offs simplificados, os apoios ao turismo, foram períodos difíceis que nós ultrapassámos extremamente bem.
“A CTP falava pouco, tinha pouca awareness. Essa foi uma conquista importante”
Qual foi a batalha que gostaria de ter conseguido ganhar e não conseguiu?
Posso referir uma mais pública e uma menos pública. A mais pública, eu gostava de sair da Confederação com uma alternativa viável ao aeroporto da Portela, que não vou vê-la. Na questão menos pública, trabalhei bastante com os meus colegas das outras confederações. Havia uma ideia que germinava há muito tempo, que era poder ter uma confederação empresarial única.
Isso não foi possível, por variadíssimas razões, mas, se pensarmos que a vizinha Espanha, cinco vezes maior do que nós, tem uma confederação patronal, por que é que nós em Portugal não conseguimos? Não foi possível.




