O Palácio do Grilo, no Beato, em Lisboa, vai ser convertido num hotel com cerca de 30 quartos, podendo chegar aos 40, num investimento previsto de 4,5 milhões de euros. Em entrevista ao TNews, Julien Labrousse, proprietário do imóvel e responsável pelo projeto, revela que as obras deverão arrancar em janeiro de 2027 e prolongar-se por aproximadamente dois anos, apontando para uma abertura em 2029. O empreendimento contará ainda com um restaurante-bar, um museu e espaços dedicados a eventos e programação cultural.
O empresário francês adquiriu o Palácio do Grilo no final de 2019, já com a intenção de o transformar numa unidade hoteleira. O projeto é desenvolvido em parceria com Leonard Degoy, aristocrata e investidor francês, que integra a sociedade promotora do empreendimento. No entanto, o prolongamento do processo de licenciamento levou Julien Labrousse a desenvolver uma primeira fase de utilização do espaço como restaurante e centro cultural, que acolheu concertos, performances artísticas, visitas e eventos.
“Comprei o palácio no final de 2019 e o processo de licenciamento demorou muito tempo. Só obtivemos a licença de construção em abril deste ano”, explica Julien Labrousse, acrescentando que a abertura temporária permitiu testar a adesão do público a um conceito que pretende agora desenvolver numa escala mais alargada.
“Não é um hotel clássico, é um pouco alternativo, com uma abordagem fora do comum”, afirma o promotor, que descreve o conceito como “uma espécie de museu onde as pessoas podem dormir”.
Apresentado no site oficial como “o projeto de hotel mais singular de Lisboa”, o empreendimento pretende diferenciar-se da oferta hoteleira convencional através da integração de instalações artísticas nos quartos e da continuidade da programação cultural. Julien Labrousse considera que muitos hotéis carecem de uma identidade própria e de uma ligação efetiva à cidade, defendendo uma experiência que combine alojamento, património e criação artística.
“Numa situação normal, a obra seria à volta de 10 a 12 milhões de euros, mas vamos fazê-la por cerca de 4,5 milhões”, afirma. A redução dos custos será possível através da execução direta de grande parte dos trabalhos, recorrendo a uma equipa própria e a uma antiga fábrica em Rio Maior, adquirida pelo empresário para produzir mobiliário e elementos arquitetónicos e decorativos.
“Não é um hotel clássico, é um pouco alternativo, com uma abordagem fora do comum”


“Estamos a fabricar 100% dos móveis e das caixilharias. Temos a nossa própria equipa e conseguimos reduzir os custos deste tipo de projeto para metade ou um terço dos preços de mercado”, explica.
A produção incluirá também esculturas e outros elementos cenográficos, recorrendo a técnicas como impressão 3D e fundição de metais. Para preparar esta intervenção, uma equipa de cinco profissionais está a desenvolver a modelação tridimensional de cerca de 100 espaços, incluindo o desenho individual do mobiliário e dos elementos decorativos.
Segundo o promotor, este modelo de produção permite controlar os custos de uma intervenção particularmente exigente, tendo em conta a dimensão do imóvel e a necessidade de preservar as suas características arquitetónicas.
Embora o site oficial do Palácio do Grilo continue a apontar novembro de 2026 como data de início dos trabalhos, Julien Labrousse prevê agora avançar em janeiro de 2027, adiantando que o financiamento bancário já foi aprovado.
“Estamos a fabricar 100% dos móveis e das caixilharias. Temos a nossa própria equipa e conseguimos reduzir os custos deste tipo de projeto para metade ou um terço dos preços de mercado”
Quartos entre 100 e 300 euros por noite
O projeto atualmente divulgado prevê cerca de 30 quartos, mas Julien Labrousse admite aumentar a capacidade. “Teoricamente, serão 30 quartos, mas, se tudo correr bem, vamos abrir com 40”, afirma.
A oferta será composta por quartos de diferentes dimensões, incluindo unidades mais pequenas e cinco a sete quartos familiares ou suites. Os preços indicativos deverão variar entre 100 e 300 euros por noite, consoante a tipologia.
“Não é um projeto de luxo”, sublinha o responsável, que pretende desenvolver uma oferta capaz de atrair públicos com diferentes capacidades económicas, desde visitantes ligados ao meio artístico até hóspedes com maior poder de compra.
Esta diversidade de públicos é um dos princípios que Julien Labrousse pretende preservar da experiência do antigo restaurante. “A ideia era misturar artistas, pessoas com maior poder de compra e públicos de diferentes meios sociais, sem criar barreiras”, explica. Na sua perspetiva, o aumento dos custos imobiliários e de construção em cidades como Lisboa e Paris tem levado muitos empreendimentos a apostar no segmento de luxo, uma tendência que procura contrariar através da produção própria e da contenção do investimento.
O empresário pretende também encontrar um equilíbrio entre a rentabilidade da hotelaria e a atividade cultural. “O setor cultural é muito difícil economicamente. Estou a tentar encontrar uma forma de integrar uma componente mais rentável num projeto artístico”, afirma, defendendo um modelo que permita assegurar a sustentabilidade do empreendimento sem comprometer a sua identidade cultural.
Um hotel inspirado no “Palácio dos Sonhos” do século XVIII
Classificado como Monumento de Interesse Público, o Palácio do Grilo foi edificado nos anos que se seguiram ao terramoto de 1755, integrando estruturas anteriores à construção setecentista. O imóvel conserva elementos decorativos dos séculos XVIII e XIX, incluindo pinturas murais de Cirilo Volkmar Machado, azulejaria histórica e uma capela com retábulo de talha dourada.
O conceito do futuro hotel terá como principal referência o chamado “Caderno Mágico” de D. Pedro de Bragança, primeiro duque de Lafões, que idealizou o Palácio do Grilo. Redigido entre 1745 e 1761, o caderno descreve um projeto arquitetónico pouco convencional para a época: um conjunto de salas e divisões dedicadas a diferentes ideias, sensações e reflexões, cruzando a arquitetura com as artes, as ciências e o imaginário.
Mais do que uma residência aristocrática, D. Pedro pretendia criar um universo próprio, onde cada espaço tivesse uma identidade e uma função particulares. “No Grilo quero que todos os quartos, tanto na decoração como na função, sejam montados para nós, para ficarmos lânguidos e sonharmos melhor do que em qualquer outro lugar no mundo”, escreveu o duque, numa passagem reproduzida no site oficial do palácio.
A sua morte, em 1761, deixou por concretizar parte deste projeto, conhecido como “Palácio dos Sonhos”. Quase três séculos depois, Julien Labrousse pretende recuperar as intenções originais e reinterpretá-las através de instalações artísticas contemporâneas.
“A ideia é continuar este projeto que nunca foi acabado”, explica o empresário. A abordagem está documentada em O Livro do Palácio do Grilo, publicação desenvolvida por uma equipa de artistas, arquitetos e investigadores. A obra reúne elementos do caderno original e apresenta interpretações contemporâneas das ideias atribuídas ao duque, procurando reconstituir o universo conceptual que esteve na origem do palácio.



Entre os exemplos apresentados encontram-se o “Quarto do Horizonte”, o “Quarto Antigravitacional” e o “Quarto Monocromático”, que exploram, respetivamente, a relação com o horizonte, a suspensão simbólica da gravidade e a perceção de uma única cor.
Estas propostas ilustram o universo criativo que deverá orientar a conceção dos interiores do hotel, não correspondendo necessariamente à configuração definitiva dos quartos. O mobiliário, a iluminação, os materiais e as instalações artísticas serão pensados em função do conceito de cada divisão.
“Cada sala do palácio vai dar vida a uma página desse caderno”, explica Julien Labrousse. O resultado pretendido é um empreendimento em que a experiência artística não se limite à decoração, fazendo parte da própria estadia e da forma como os hóspedes utilizam e descobrem os diferentes espaços.
Museu, restaurante e programação cultural abertos ao público
Além da componente hoteleira, o Palácio do Grilo continuará a integrar um restaurante-bar, um museu e espaços para eventos e programação artística, que deverão permanecer acessíveis também a visitantes que não estejam alojados no empreendimento.
“O objetivo é abrir tudo ao público”, afirma Julien Labrousse, que pretende transformar o palácio num espaço de visita cultural em Lisboa, capaz de atrair visitantes interessados na sua história e nas instalações artísticas.
A componente museológica deverá incluir um percurso por diferentes salas históricas e instalações contemporâneas, com experiências de aproximadamente 15 a 20 minutos. A programação terá como ponto de partida o universo imaginado pelo primeiro duque de Lafões, sendo complementada por intervenções de artistas convidados, que poderão ser renovadas ao longo do tempo.
O futuro restaurante poderá recuperar elementos do chamado “teatro vivo”, conceito que marcou a anterior utilização do palácio e que integrava performances artísticas na própria experiência gastronómica. Em vez de espetáculos apresentados num palco convencional, atores e intérpretes circulavam pelos salões e interagiam com os visitantes, cruzando teatro, música e restauração.
Julien Labrousse admite recuperar alguns elementos dessa experiência, embora o modelo definitivo ainda não esteja estabelecido. “Não sei se vamos manter exatamente o sistema dos artistas, mas será alguma coisa desse género”, explica, admitindo que a própria equipa do hotel possa participar em algumas experiências artísticas.
O responsável faz um balanço positivo da anterior utilização do imóvel, considerando que a experiência permitiu demonstrar a viabilidade de uma proposta cultural pouco convencional.
“Globalmente, foi um sucesso. Foi muito interessante perceber a reação do público a uma ideia tão particular”, afirma, acrescentando que os resultados contribuíram também para reforçar a confiança das entidades financiadoras no futuro empreendimento.
A localização no Beato representa, contudo, um desafio. “O Beato não está a crescer como estava previsto”, considera Julien Labrousse, que entende que o Hub Criativo do Beato ainda não teve o impacto esperado na dinamização da zona.
Por estar afastado dos principais circuitos turísticos da capital, o promotor pretende que o Palácio do Grilo se afirme como um destino cultural por mérito próprio, capaz de integrar os percursos de visitantes que procuram alternativas a equipamentos como o MAAT ou a Fundação Calouste Gulbenkian.


Julien Labrousse está também ligado a projetos culturais e hoteleiros em Paris
A reconversão do Palácio do Grilo insere-se no percurso profissional de Julien Labrousse, que combina arquitetura, recuperação de edifícios históricos, hotelaria e gestão de espaços culturais.
Em Paris, o empresário está associado à recuperação e exploração de duas salas de espetáculos históricas, Le Trianon e Élysée Montmartre, situadas na zona de Montmartre. Participou também no desenvolvimento do Élysée Montmartre Hôtel, uma unidade de 16 quartos, inaugurada em 2025, em parceria com o produtor Abel Nahmias.
O empreendimento parisiense foi desenvolvido num edifício anteriormente abandonado, situado entre as duas salas de espetáculos, e recorreu à produção própria de mobiliário, iluminação e outros elementos decorativos, incluindo peças fabricadas em Portugal. Trata-se de uma abordagem semelhante à que será agora aplicada no Palácio do Grilo.
A gestão da futura unidade lisboeta ficará diretamente a cargo dos promotores, sem recurso a uma empresa de gestão hoteleira externa. “Em todos os projetos que desenvolvo, faço a gestão diretamente”, afirma Julien Labrousse, que destaca a experiência acumulada na organização de eventos na capital francesa, onde assegura realizar cerca de 600 concertos por ano.
Em Portugal, Julien Labrousse está também associado ao Etosoto, um projeto de eco-hotel no Cabo Espichel, em Sesimbra, que prevê 56 cabanas e espaços dedicados a atividades culturais e agrícolas. O empreendimento, inspirado na arquitetura japonesa em madeira, foi anteriormente alvo de contestação ambiental e obteve uma Declaração de Impacte Ambiental favorável condicionada em 2020.
Em entrevista ao TNews, o empresário afirmou que o projeto está atualmente travado por questões relacionadas com o Ministério Público, sem adiantar uma previsão para a sua concretização.










