As chegadas de turistas internacionais à Europa aumentaram 3% no verão de 2026, face ao período homólogo, com 80% dos destinos europeus a registarem um crescimento das visitas estrangeiras. Portugal está entre os países onde a despesa turística cresceu mais do que as chegadas, segundo o mais recente relatório da European Travel Commission (ETC), que alerta para os efeitos do aumento dos custos e da instabilidade internacional na procura turística durante o inverno e em 2027.
As conclusões constam do relatório European Tourism: Trends & Prospects (Q3/2026), divulgado esta quinta-feira, 5 de novembro, que aponta para a manutenção da procura turística europeia durante o verão, apesar da incerteza internacional. A ETC alerta, contudo, que as perspetivas para o setor estão cada vez mais condicionadas por “fatores fora do seu controlo”, nomeadamente a instabilidade geopolítica e climática, que está a contribuir para o aumento dos preços e a diminuição da confiança dos viajantes.
O norte da Europa liderou o crescimento regional, seguido da Europa Central e de Leste, que continuaram a atrair turistas à procura de destinos com uma melhor relação qualidade-preço. No norte da Europa, as dormidas aumentaram 7,2%, enquanto as chegadas cresceram 6,2%. Segundo a ETC, os destinos mais pequenos e aqueles que oferecem uma melhor relação qualidade-preço registaram crescimentos superiores aos destinos mais consolidados, “embora partindo de uma base mais baixa”.
Entre os destinos com maiores crescimentos destacam-se Malta (+18%), Eslováquia (+15%), Irlanda (+13%) e Polónia (+11%), seguindo-se a Roménia e Montenegro, ambos com aumentos de 10%. Já nos principais mercados turísticos europeus, a evolução foi mais moderada, com Espanha a registar um crescimento de 5% nas chegadas, França de 3% e Itália de 1%.
Portugal entre os países onde despesa turística cresce mais do que as chegadas
O relatório indica que a despesa dos turistas internacionais aumentou na maioria dos destinos europeus, “refletindo, em parte, preços mais elevados”. Portugal integra o grupo de países onde o crescimento da despesa turística superou o aumento das chegadas, juntamente com Grécia, Bélgica, Espanha, França, Alemanha e Itália.
A Hungria apresentou a maior diferença entre os dois indicadores, com um crescimento de 20,1% na despesa turística, face a um aumento de 2,5% nas chegadas, evolução também influenciada pela valorização do forint.
Apesar destes resultados, a ETC antecipa um agravamento da pressão sobre os orçamentos familiares nos próximos meses. Segundo a entidade, “a pressão sobre as finanças das famílias deverá aumentar”, uma vez que a subida dos preços do gás poderá limitar os orçamentos disponíveis para viagens, ao mesmo tempo que aumentam os custos operacionais e as tarifas aéreas.
A organização acrescenta que o crescimento salarial na zona euro deverá ficar ligeiramente abaixo da inflação durante o inverno, pelo que os efeitos sobre o consumo poderão tornar-se mais visíveis no último trimestre de 2026 e no primeiro trimestre de 2027.
Neste contexto, a ETC prevê que os destinos possam registar “uma maior sensibilidade aos preços e reservas mais tardias neste inverno e em 2027”, considerando que aqueles que oferecem uma boa relação qualidade-preço e facilidade de acesso estarão “mais bem posicionados para manter a procura”.
O aumento dos custos constitui já a principal preocupação dos profissionais do turismo, sendo referido por 50% dos inquiridos. As preocupações financeiras, no seu conjunto, foram identificadas por 83% dos participantes, abaixo dos 87% registados no inquérito do segundo trimestre.
A ETC alerta ainda para os riscos associados às restrições do espaço aéreo no Médio Oriente, que poderão provocar tempos de voo mais longos, custos operacionais superiores e novas perturbações nas ligações entre a Europa e a Ásia. Segundo a entidade, uma interrupção prolongada do abastecimento de petróleo e gás poderá “manter os preços da energia elevados”, aumentando os custos das viagens e a pressão sobre os rendimentos das famílias e as empresas turísticas.
Sazonalidade deverá diminuir até 2027
O relatório identifica ainda uma tendência de distribuição mais equilibrada das visitas internacionais ao longo do ano, uma evolução que, segundo a ETC, poderá ser acelerada pelos “preços elevados e pela concentração de turistas no verão”.
A diferença entre o peso das visitas no primeiro trimestre, tradicionalmente o período de menor procura, e no terceiro trimestre, correspondente à época alta, deverá diminuir de uma média de 22,5 pontos percentuais, registada entre 2010 e 2015, para 20,4 pontos percentuais em 2027.
Esta evolução deverá ser particularmente expressiva na Europa Central e de Leste, onde a diferença poderá recuar de 19 para 13,6 pontos percentuais. Já os destinos mediterrânicos estão a registar os maiores crescimentos da procura de inverno, “embora partindo de uma base mais baixa do que outras regiões”, à medida que aumenta o interesse por viagens para destinos com temperaturas amenas nesta época do ano.
Para Miguel Sanz, presidente da ETC, o turismo europeu “continuou a demonstrar resiliência este verão, apesar de um contexto global mais volátil”. O responsável reconhece que o aumento dos custos levará os viajantes a serem “mais seletivos na escolha dos destinos e na forma como gastam em viagens”, mas considera “particularmente encorajador ver os destinos mais pequenos a crescer e as visitas a distribuírem-se de forma mais equilibrada ao longo do ano”.
“Uma época turística mais longa pode proporcionar benefícios mais equilibrados em toda a Europa, apoiando as economias e comunidades locais para além do pico do verão”, acrescenta Miguel Sanz.
A divulgação do relatório coincide com a apresentação, a 4 de novembro, da nova Estratégia da União Europeia para o Turismo Sustentável, que pretende reforçar a competitividade e a resiliência do setor, bem como promover uma distribuição mais equilibrada dos fluxos turísticos ao longo do ano.
A ETC saudou a estratégia, considerando-a “um primeiro passo positivo” para reforçar a governação a vários níveis e aprofundar a cooperação entre as instituições europeias e os intervenientes do setor turístico.




