“Na Cimeira discutiu-se a nossa actividade, o nosso sector, que todos reconhecemos como decisivo para a economia e sociedade portuguesas. Mas no programa não havia mulheres a falar de geoestratégia, economia, banca, empresas, aviação ou infraestruturas. Quem é chamado a interpretar o setor, fixar prioridades e participar nas decisões que o moldam?”
Quem me conhece sabe que sou uma pessoa de convicções fortes, conhecida por dizer o que penso e falar a direito. Não sou fácil (nem para mim!), mas como dizia um saudoso amigo “é todo o pacote, querida” (coisa que curiosamente, sem o sotaque, jeitinho e doce balanço do Brasil, ainda há pouco ouvi de outra apreciada companhia) .
Por isso e a benefício do que direi, manifesto aqui a minha simpatia, estima e consideração pelo Francisco Calheiros, pelo trabalho, pela pessoa, pelo prestígio que deixa na CTP. A avaliação e história ficam para outra oportunidade.
No passado dia 28 de Setembro entrou um elefante no Salão Nobre do Ritz. Se nenhum elefante deve ser ignorado, ficar-me-ia particularmente mal a mim ignorar especialmente este. É que a VIII Cimeira do Turismo Português, organizada pela Confederação do Turismo de Portugal (CTP), deixou um retrato difícil: 16 oradores, todos homens e 3 moderadores, dos quais 2 homens e 1 mulher. Filipa Lowndes Vicente, no Público, escreveu depois um artigo sob a forma de carta dirigida a 35 homens: os oradores e os membros dos órgãos sociais da CTP. A fotografia que acompanhava o texto tornou a realidade constrangedora: 35 homens, uma moderadora. E não foi um problema de fotografia, foi mesmo a fotografia do problema: além dos oradores serem todos homens, são também exclusivamente homens os que compõem os órgãos sociais da CTP.
Na Cimeira discutiu-se a nossa actividade, o nosso sector, que todos reconhecemos como decisivo para a economia e sociedade portuguesas. Mas no programa não havia mulheres a falar de geoestratégia, economia, banca, empresas, aviação ou infraestruturas. Quem é chamado a interpretar o setor, fixar prioridades e participar nas decisões que o moldam?
Já escrevi muito sobre o funil que afasta mulheres dos lugares de decisão; as redes informais; os critérios pouco visíveis; a desigualdade salarial e o trabalho de cuidado. Escrevi também sobre o recuo das políticas de diversidade, equidade e inclusão (DEI). Regresso ao tema porque esta imagem obriga a olhar de novo para números conhecidos.
Lamento, mas o que aconteceu em 2026 não foi um episódio isolado. Em 2024, houve só homens nos debates e mulheres na moderação; em 2022, duas oradoras, uma era titular de uma pasta no Governo de Portugal e a outra DG da agência pública de turismo de França.
Ora, ninguém precisa de decidir excluir mulheres para que fiquem de fora. E juro que essa não foi a intenção! Basta que os nomes lembrados sejam sempre os mesmos, e as redes profissionais reproduzem a lista “natural” existente. Acresce um efeito de que se fala menos. As organizações tendem a indicar o seu presidente porque quem indica não quer ver a sua casa representada por alguém de estatuto “inferior” ao dos pares que se sentam ao lado. É uma inferência minha, este “peer pressure”, não um dado (mas explica, talvez, porque falham os pedidos voluntários de que trato abaixo). Ora os presidentes dessas organizações são, na esmagadora maioria, homens…
Porém as mulheres estão no sector, e em grande número. A UN Tourism estima que sejam 54% da força de trabalho turística; em 2018 ocupavam menos de 40% dos cargos de gestão e menos de 8% dos conselhos de administração. A Equality in Tourism registou em 2025 uma subida de 16% para 33% nos conselhos de organizações turísticas de vários países, mas apenas nas públicas e nas grandes empresas. Ainda assim, longe da paridade. Em Portugal, a Randstad Research indica que, em 2024, as mulheres eram 59,1% dos empregados com ensino superior, mas apenas 15,7% dos CEO e executivos das maiores cotadas. Não existe taxa comparável para as empresas turísticas portuguesas, e estes universos distintos não autorizam a concluir que o Turismo nacional seja pior do que outros sectores (nem pensar). Medem, sim, a distância entre quem trabalha e quem decide.
Essa distância tem custos. Quem decide influencia prioridades, investimento, recrutamento e a forma como se entende o cliente; restringir quem decide empobrece o conhecimento disponível. A McKinsey encontrou em 2018 uma associação entre diversidade de género nas equipas executivas e rentabilidade acima da média: as empresas no quartil superior tinham mais 21% de probabilidade de a alcançar. É uma correlação, claro, não uma causalidade, mas contraria a ideia de que incluir mulheres é um custo sem retorno.
O estudo Women in the Workplace 2025, baseado em empresas norte-americanas, concluiu que apenas 54% das inquiridas consideravam prioritário o progresso profissional das mulheres; 1 em cada 6 reduzira recursos para diversidade e inclusão. Não é um retrato de Portugal. É um aviso sobre o que se perde quando se abandonam mentoria, patrocínio, transparência nas promoções e responsabilização das lideranças.
O exemplo tem de vir de cima, e a Comissão Europeia é um caso interessante, até pelos seus limites. Em 2004, Durão Barroso fixou um número: 8 comissárias em 25 membros, e alcançou-o; em 2009, por pressão junto dos chefes de Estado e de Governo, a Comissão ficou com 9 em 27. A seguir, Juncker prometeu pastas relevantes a quem propusesse mulheres, e fontes diplomáticas relataram em 2024 que quem recusasse arriscava mesmo ficar com pastas menos importantes. Ursula von der Leyen foi mais longe: em 2019 pediu a cada governo dois nomes, um de cada sexo, e formou um colégio com 12 mulheres em 27 (44%). Em 2024 repetiu o pedido sem grande resultado. Depois de segunda pressão, e 2 países trocarem então candidatos masculinos por mulheres, o colégio fechou com 11 em 27. Aplauso para Portugal, que quer em 2019 quer em 2024 apontou mulheres para cargos de comissárias.
Os limites são o que são. A Presidente não escolhe os comissários: quem propõe são os governos, e ela dispunha dos poderes de persuasão e da atribuição das pastas, mas sem sanção jurídica. Quase todos ignoraram o pedido, e o resultado de 2024 ficou abaixo do de 2019. Onde é que acontece diferentemente? Onde há regras com consequências. Aí o resultado deixa de depender da boa vontade de cada nomeante. Exemplo: a Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa não aprecia listas de candidatos a juiz do Tribunal Europeu dos Direitos Humanos sem pessoas dos dois sexos, salvo excepções previstas.
A CTP, todas as Confederações, não precisam de — nem devem — esperar por uma lei com sanções para rever práticas. Humildemente, cá vão uns conselhos: podem autovincular-se a ter mulheres em todos os painéis; publicar os critérios de escolha de oradores; procurar mulheres com experiência nas matérias em debate. E, simultaneamente, acompanhar a presença feminina nos cargos de direcção das suas associadas e olhar para a composição dos seus órgãos, não para ficar melhor na dita fotografia, mas para verificar se o acesso à decisão está a mudar. E dar o exemplo. É que a Cimeira de 2026 não criou a desigualdade, tornou-a foi tremendamente visível.
Entretanto, em 2025, o Papa Francisco nomeou uma freira como a primeira mulher prefeita de um dicastério; em junho de 2026, Leão XIV nomeou uma leiga para dirigir o Dicastério para a Comunicação. O Vatican News destacou que seria a primeira mulher não religiosa a chefiar um dicastério. O boletim da nomeação resumiu também o seu percurso profissional. E menos de um mês depois, o Papa voltou a nomear mais uma mulher para a cúpula da igreja: uma freira, economista de formação, preside agora ao Dicastério para o Desenvolvimento Humano. Ser mulher foi assinalado não como motivo formal declarado da escolha, mas como marco. Haja esperança, ou em linguagem própria Sperandum est.
Boa 6ª feira e bom fim de semana!
Por Cristina Siza Vieira
É vice-presidente executiva da Associação da Hotelaria de Portugal e uma das vozes mais influentes no setor turístico nacional. Na sua coluna mensal Casual Friday, publicada sempre na primeira sexta-feira de cada mês, escreve sobre tudo o que merece reflexão: desde o turismo e a hotelaria até às questões que nos tocam no dia a dia e aos temas que agitam o mundo.




