Segunda-feira, Maio 27, 2024
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A Oeste…, o Paraíso

Apreciar o Oeste é uma tradição com séculos que tende a aumentar. Seja pela paisagem, pelas praias, serras e vales, seja pelos recursos agrícolas e outros, esta zona de Portugal tem adeptos por todo o mundo. Nestas linhas, e porque o espaço é justo, partilharei convosco algumas das sensações que o Oeste me provoca, sendo este um texto para, mais do que lido, ser sentido.

Corria o ano de 1864 e era na Praia do Sul, na Vila da Ericeira que a rainha D. Maria Pia ia a banhos. Reza a história que no ano de 1931, “a vila histórica tinha já hotel, clube e teatro, a vila tem 700 fogos. As casas alugam-se com mobília e roupa de cama. Alojamento em hotel por 800 reis por pessoa com serviço regular e cozinha sofrível”. A Ericeira acaba por ser palco de um outro episódio da história de Portugal. A praia dos Pescadores ficaria perpetuada nos anais portugueses, pois é desta praia que em Outubro de 1910, D. Manuel II e a família real portuguesa embarcam, após o regicídio.

A Ericeira tornou-se, entretanto, a primeira reserva mundial de Surf na Europa e a segunda no mundo (a primeira foi criada em Malibu, na Califórnia). A par com os supertubos de Peniche, Santa Cruz e as ondas da Nazaré, a região é uma referência para o surf mundial. McNamara imortalizou as ondas da Nazaré que hoje são o palco de uma etapa do campeonato mundial de ondas gigantes, o Nazaré Tow Surfing Challenge.  

Os moinhos de vento, os gigantes de D. Quixote, proliferam na região e são um dos seus símbolos mais representativos. Outrora, aproveitavam o vento, a força motriz do Oeste para moer o trigo e fazer pão. Hoje embelezam as paisagens, e fazem parte das rotas entretanto criadas. Não obstante, o negócio do vento não se perdeu, nem foi levado por nenhuma rajada. Rapidamente, alguns empresários percebendo o seu potencial, dispuseram as ventoinhas estrategicamente na região e aproveitam o vento para o transformar em energia.

A estrada nacional nº 9, no troço que liga Torres Vedras a Alenquer está repleta de vinhas. Não fora a falta de socalcos e as diferentes latitudes e longitudes e haveria confusão com outras regiões vinhateiras. Extensões enormes de vinha que têm vindo paulatinamente a encher a região de verde. As vinhas que se estendem pelos terrenos do Oeste são peças de arte incrivelmente desenhadas e com uma simetria quase perfeita. A sua estrutura inabalável, resiste imperturbável aos ventos que a assolam de todas as orientações e diferentes pontos cardeais. A cultura das vinhas no Oeste existe desde o século XII. Responsabilidade de diversas ordens religiosas, nomeadamente, a ordem de S. Bernardo em Alcobaça que se instalou no mosteiro erigido pela Ordem de Cister. Os concelhos de Torres Vedras e Alenquer são dois dos concelhos portugueses com maior tradição e produção vitivinícola de vinhos tintos, brancos e rosés e com a maior produção nacional, o que se verificou em 2016. Voltando atrás no tempo, o nosso Eça de Queiróz atesta a reputação do vinho de Torres, quando em 1901, na passagem do Livro, As Cidades e as Serras, afirma: “Paguei (em Paris) por grossos preços garrafas do nosso adstringente e rústico vinho de Torres, enobrecido com o título de Château isto, Château aquilo, e pó postiço no gargalo”. Os especialistas em vinho teriam aqui matéria para provavelmente enriquecer as Farpas, do sagaz autor, por quem nutro grande admiração.

A região oferece ainda o icónico Carnaval de Torres; a cidade literária de Óbidos e o seu castelo; os dinossauros da Lourinhã, a Mata Municipal do Bombarral acolhe o Festival do Vinho Português e a Feira Nacional da Pêra Rocha; as Caldas da Rainha e o seu mercado (único) diário hortofrutícola do país, que entre outras iguarias mostra as maças de Alcobaça; as Linhas de Torres e o papel estratégico de Sobral de Monte Agraço no decorrer das invasões francesas, ficarão para outras escritas oportunas. Na diversidade de todos estes ícones, símbolos, episódios e paisagens, o Oeste ficará para sempre associado a uma imagem de infância, os episódios em que o Lucky Luke (o cowboy que dispara mais rápido do que a sua própria sombra) cavalga em direção ao pôr do Sol…

Feita que está esta singela e injusta, por escassa, viagem por terras do Oeste, despeço-me com a certeza do tanto que ficou para ser descoberto, permanecendo o sentimento de que o Oeste continuará a conquistar outros, como me conquistou a mim.

Boas férias, se for o caso.

Por Sofia Almeida

É professora na Universidade Europeia e investigadora no CEG/Territur, Universidade de Lisboa.

salmeida@universidadeeuropeia.pt 

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