Segunda-feira, Março 4, 2024
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A retoma do Turismo em Portugal é um facto ou um conto-de-fadas?

Será que não está na altura de devolvermos o protagonismo ao Turismo, em vez de o retirarmos?

A pandemia instalada gerou uma enorme crise humanitária, mas também propiciou algumas oportunidades, nomeadamente, mudanças comportamentais, adaptações das várias áreas de negócio à presente realidade e alterações na composição do mercado. Durante dois anos não houve (quase) turismo e o país estagnou, à honrosa exceção do turismo doméstico. Esta realidade aconteceu em Portugal e em vários pontos do mundo, nomeadamente na China e nos EUA. Foram desenvolvidas várias atividades para potenciar a procura interna, a título de exemplo, o governo chinês autorizou o “duty-free” nalgumas regiões do país para impulsionar o turismo interno. De acordo o World Trade and Tourism Council (WTTC), os EUA lançaram um conjunto de iniciativas que originaram o aumento do turismo interno, em que os turistas locais passaram a representar 95% da receita do turismo em 2020.

Volvidos 2 anos, tudo parecia voltar à normalidade (a expectativa seria ainda maior do que o normal, pois as pessoas ansiavam viajar), mas aparentemente o Turismo enfrenta alguns problemas graves que estão a prejudicar a retoma do sector, nomeadamente: (i) a capacidade de carga dos aeroportos, em concreto, o aeroporto de Lisboa; (ii) a falta de recursos humanos no Turismo e na Hotelaria (a pandemia gerou elevados índices de abandono dos postos de trabalho); (iii) o impacto a prazo da transformação tecnológica nas telecomunicações.

O primeiro problema, a falta de capacidade de carga dos aeroportos é comum a vários países no mundo e não é uma catástrofe nacional isolada, como alguns fazem pensar. Claro que o facto do problema não ser só nosso, não o atenua, mas fará parte de um problema maior e global, como o aumento do número de pessoas a viajar pelo mundo e falta de elasticidade dos aeroportos. As imagens que têm sido transmitidas nos noticiários estrangeiros (filas e horas de espera no aeroporto) comprometem a escolha do destino Portugal. O caos que vemos nas notícias prende-se com a assunção de que este aeroporto não tem capacidade para o turismo que recebe atualmente e muito menos para aquele que receberá no futuro. À falta de capacidade e de infraestruturas, juntam-se outros relacionados a falta de tripulação, o fim do SEF e o resultado é um mau estar geral entre turistas, empresas, governo e até residentes. Não obstante a esta situação crítica, devemos estar cientes que o aeroporto de Lisboa funciona como um cartão de visita. É nesta casa que os turistas são acolhidos no destino e é o primeiro momento da verdade quando se fala da hospitalidade portuguesa. Em marketing dizemos que não existe uma segunda oportunidade para criar uma primeira boa impressão. Outro ponto importante a refletir na cadeia de valor do Turismo é a relação dos aeroportos e dos operadores turísticos (OTs). Estes profissionais programam os destinos com antecedência para negociar atempadamente os recursos disponíveis. Ora bem, as situações relatadas causam insegurança e indecisão e, em muitos casos, levam os OTs à procura de outros destinos concorrentes que garantam maior margem de segurança.

O segundo problema aqui identificado é a falta de mão de obra. O problema central na recuperação do turismo são os recursos humanos ou a falta deles. Durante os consecutivos confinamentos, houve 30 a 40 mil postos de trabalho abandonados (só) no Turismo. Tratando-se de um sector com elevada sazonalidade, é na época alta que se ressente mais este problema, pois existe falta de pessoas para trabalhar. Esta situação acentuou-se com a pandemia e, portanto, vemos decisores e gestores com excelentes produtos, mas sem recursos qualificados para prestar um bom serviço. O Turismo é uma indústria de pessoas para pessoas e, portanto, sem pessoas, o Turismo simplesmente não acontece.

O terceiro problema tem a ver com os impactos das tecnologias nas Telecomunicações. A crise instalada, levou a que adquiríssemos novos hábitos, nomeadamente a facilidade com que substituímos reuniões presenciais por reuniões online através das plataformas digitais. Questões que se colocam: estas reuniões vieram para ficar? Ou com o fim da crise, voltaremos a preterir os encontros presenciais em detrimento dos virtuais? Até ao momento, os sinais mostram que comunicar à distância é algo rotineiro nas nossas vidas. Passámos a gerir as nossas agendas com várias reuniões e vários eventos online. Mas este fenómeno abarca, no imediato, duas situações que devem ser pensadas. A quantidade de reuniões que podemos fazer online é superior às presenciais, pois poupamos tempo no caminho, no trânsito, à procura de lugar para estacionar e gastamos menos combustível consequentemente contribuímos para um mundo melhor; o que nos leva à segunda situação, muitos profissionais da saúde, sobretudo mental, veem esta tendência com preocupação, pois em caso de deficiente gestão pessoal, este aumento de reuniões online pode levar a situações de desgaste extremo e até burnouts. O aumento do número de reuniões online poderá motivar a diminuição do número de reuniões. Ao que se colocam as seguintes questões: Será que as pessoas mudaram as suas perceções sobre as viagens? Será que a diminuição de viagens de trabalho impactará no Turismo MICE? E como vai o sector contornar estas tendências?

Gostaria de terminar partilhando algo que acredito ser incontornável. Portugal não é um país apenas de serviços, mas tem condições de excelência para o Turismo, sendo esta uma atividade estruturante da economia, eu diria mesmo que é uma atividade económica robusta. Será que não está na altura de devolvermos o protagonismo ao Turismo, em vez de o retirarmos? Segundo a Conta Satélite do Turismo, o Turismo representava em 2019, 15% do PIB nacional e o sector empregava no mesmo ano mais de 55 mil funcionários. Será que os números não falam por si?

É importante dignificar o turismo e criar condições para que continuemos a fazer bem aquilo que sabemos fazer: Saber receber e de sorriso largo, não fosse o Turismo, a indústria do sorriso.

Por Sofia Almeida

É professora auxiliar na Universidade Europeia e investigadora no CEG/Territur, Universidade de Lisboa.

salmeida@universidadeeuropeia.pt

2 COMENTÁRIOS

  1. Falta referir que a “falta de mao de obra” no turismo se deve as baixas remunerações no setor. A pandemia “empurrou” os profissionais do setor para outras áreas onde são mais bem pagos e têm horários mais adequados à vida familiar.

  2. Sempre houve falta de trabalhadores no turismo e hotelaria, pelo menos nos anos do auge da actividade-2012/2019. Acontece que esta lacuna foi, até ao final de 2020 colmatada pela emigração e foi esta mão-de-obra, fácil de contratar e com baixo custo que marcou o turismo, até à pandemia. O Covid19 fez a emigração regressar aos seus paise de origem e ainda não voltaram, o que provoca a escassez de mão de obra e o aumento dos custos de contratação. Na verdade, os empresários têm presentemente um novo desafio : prestar o serviço com a qualidade desejada, controlando o custos operacionais, numa situação de novas dificuldades, causadas agora pela guerra na Europa e pelo aumento da inflação, situações que podem não ser tão transitórias como a pandemia demonstrou ser. Por outro lado, os novos hábitos de interação focados no artigo, determinam a contracção do Turismo de Negócios, em que cidades como Lisboa eram reconhecidas como destino privilegiado, em particular fora da época de Verão. Sendo o Turismo a alavanca da nossa economia, porque directa e indirectamente move uma enorme cadeia de actividades económicas, evidentemente que merecia outro protagonismo que, infelizmente, os nossos actuais governante, não têm capacidade política, nem elasticidade ideológica, para entender e catalisar. Na verdade, o caos no aeroporto é apenas a ponta do icebergue e a falta de protagonismo do turismo, é a nossa triste sina…

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