Segunda-feira, Fevereiro 16, 2026
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Casual Friday | A.C./D.C. (Álbum 1)

“Da forma como trabalhamos ao que valorizamos no dia a dia, o que parece ter ficado do, se bem se lembram, “novo normal”? O que mudou mesmo e para ficar?”

Não, não se trata de um artigo sobre a famosa banda de hard rock que hoje me pergunto, confesso – e perdoem-me os ainda e sempre amantes da dita – como é que alguma vez consegui ouvir (e mais “abanei o capacete” ao som do Highway to Hell…).

Algo muito menos intenso em som, mas não menos ruidoso em efeitos: A.C. – Antes da Covid/D.C. – Depois da Covid.

Volvidos cerca de 5 anos desde o início da pandemia, 3 desde o seu fim em Portugal, 2 declarados pela OMS, seguem algumas reflexões, que parto em 2 artigos/álbuns. 

Este primeiro, virado para o que mudou no nosso dia a dia e no mundo do trabalho. O segundo álbum, na óptica do que mudou/emergiu na política e nas colectividades, que movimentos ganharam expressão na polis.

Isto porque, depois do confinamento global, muito do que foi transformado com muita urgência e porque não havia alternativas, parece ter-se tornado regra. Da forma como trabalhamos ao que valorizamos no dia a dia, o que parece ter ficado do, se bem se lembram, “novo normal”? O que mudou mesmo e para ficar? 

Bem entendido, com 3 ressalvas. Primeira: esta é, obviamente, uma selecção pessoal desta observadora, e quis limitar-me a encher os dedos de uma mão e não mais. Outros observadores destacariam mais e /ou outros tópicos. Segunda: dizer-se “o que veio para ficar” é arriscado. Num mundo em tão permanente e rápida mudança… Terceira: qualquer destes tópicos dava um mundo de cogitações, e um artigo/álbum só por si. Fez-se o possível!

1) A.C.: saúde mental era um tema secundário/ D.C.: bem-estar holístico tornou-se prioridade

Se há algo que se tornou evidente durante a pandemia foi a fragilidade da nossa saúde mental. E essa consciência não desapareceu. Por um lado, a procura por apoio psicológico e práticas de autocuidado continua em alta. Para lá de tudo o mais (apps de ginástica; explosão de suplementos; terapias convencionais, etc), algo que me espanta: o mercado das apps de saúde mental, segundo dados da Global Markets Insights, foi avaliado em 6 biliões de dólares em 2023 e estima-se que cresça, entre 2024 e 2032, 17,9% ao ano até 2032, vindo a atingir o astronómico valor de 26,5 biliões de dólares. Por outro lado, para as empresas, o burnout deixou de ser tabu, e perceberam e investem no cuidado físico e mental da equipa. Sendo que isso é bem mais do que oferecer fruta à segunda-feira.

2) A.C.: íamos à loja, ao banco, ao cinema/ D.C.: fazemos tudo num clique

Fazemos mais com o polegar do que com as pernas. Compras, transferências, consultas… tudo acontece no ecrã. Segundo alguns estudos, os canais digitais são preferência crescente dos consumidores, quanto a compras ou quanto a interações com prestadores de serviços e apoios ao cliente (pessoalmente detesto estes últimos). E o smartphone é agora o balcão de atendimento principal e extensão do corpo (e da carteira).

3) A.C.: entrega ao domicílio era residual/ D.C.: parte significativa do negócio (nos restaurantes)

Nem carece de demonstração. Não que os restaurantes tradicionais tenham perdido terreno, longe disso, mas somos mais selectivos (a inflacção e o aumento dos preços também ajudam). Durante o confinamento, fomos milhões a encomendar refeições às, até aí tímidas, Uber Eats e afins. Hoje esse hábito manteve-se, especialmente em dias de semana. Oportunidades para os pequenos restaurantes e para novos negócios (take-aways mais sofisticados; dark kitchens) e facilidade, rapidez e variedade para o consumidor.

4) A.C.: trabalho presencial/ D.C.: modelo híbrido 

Conquanto não de forma uniforme e em todos os sectores, o trabalho híbrido veio para ficar. Mas estão a surgir novas respostas a novos desafios. De um lado, responder ao facto incontornável de que os colaboradores valorizam – e muito – o trabalho remoto. Do outro, atender às necessidades sentidas pelas empresas de cimentar as relações entre as equipas, criar cultura e propósitos comuns. Como bem resume a “ComunicaRH”: “As empresas que conseguirem desenhar experiências consistentes, cuidar da cultura interna e manter a proximidade, independentemente do formato, vão liderar o futuro do trabalho”.

5) A.C.: trabalhar era sobretudo salário/ D.C: propósito e valores contam

Outro efeito pós-COVID: os trabalhadores procuram bem mais do que um salário. Valorizam empresas com valores, códigos de ética, propósito (bem mais do que lucro), que defendem causas e se posicionam publicamente. E francamente empenhadas no bem-estar dos seus trabalhadores. Um dado importante: o Relatório Talent Trends 2024 (Michael Page) revela que 60% dos profissionais em Portugal rejeitaria uma promoção no trabalho se tal significasse sacrificar o equilíbrio entre a vida pessoal e a profissional, sendo ainda maior essa rejeição na Holanda, RU e Suíça. Donde a flexibilidade e adaptação, sob vários formatos, é o segredo para o sucesso das empresas. Também na relação com cada um dos trabalhadores. Difícil, pois.

Em suma:

A pandemia foi, em muitos aspectos, um acelerador. Forçou mudanças que talvez levassem décadas a acontecer — ou quiçá nunca acontecessem. Mas mais do que isso, obrigou-nos a pensar “fora do quadrado”. E algumas lições, ao que tudo indica, não foram esquecidas.

Ainda assim, nem tudo está resolvido. Como sublinhou Camilla Cavendish num artigo no Financial Times em 26/4/2025, muitas dessas transformações permanecem em evolução. Há sinais de cansaço em relação ao teletrabalho, tensões entre a flexibilidade desejada pelos trabalhadores e as exigências de controlo por parte das empresas, e uma nova luta por equilíbrio entre produtividade e bem-estar. A pergunta, portanto, talvez não seja apenas o que ficou — mas o que ainda está a ser negociado. E acrescento: sem esquecer que ainda temos que incorporar e responder ao maior desafio do séc. XXI:  a “revolução industrial cognitiva” (gosto muito desta expressão) trazida pela GenAI, cujo potencial cresce à velocidade da luz. E sim, esta veio mesmo para ficar no D.C. e mais além.

(Já em estúdio o próximo álbum).

Por Cristina Siza Vieira

É Vice-Presidente Executiva da Associação da Hotelaria de Portugal e uma das vozes mais influentes no setor turístico nacional. Todas as primeiras sextas-feiras de cada mês, Cristina Siza Vieira assina a coluna de opinião ‘Casual Friday’, trazendo a sua visão sobre os principais temas do setor do turismo e da hotelaria.

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