Segunda-feira, Agosto 8, 2022
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Cemitério de Hotéis: Uma ameaça para o destino? Ou uma oportunidade de negócio?

Numa viagem recente, descobri um cemitério de hotéis. Alguns de vós, em vez de olhar para este facto como uma tragédia ou um acontecimento infeliz, estarão a imaginar um manancial de oportunidades. Os investidores, identificam uma oportunidade de negócio, os marketers, uma vantagem competitiva na promoção do destino, e os técnicos de turismo, uma oportunidade para dinamizar o Dark Tourism. Todas as possibilidades são viáveis e complementares nesta história que vou contar. O país que vos falo é o Chipre e o cemitério de hotéis está localizado em Famagusta (a norte da ilha), atualmente ocupada pelos cipriotas-turcos. Os cipriotas gregos habitam a restante ilha.

O Chipre detém uma cultura rica e diversa, fruto das influências dos vários povos que foram passando pela ilha. Entre eles, os gregos, os romanos, os ingleses e os turcos, e a principal razão destas passagens, prender-se-á com a sua apetecida localização estratégica, entre a Europa e o Médio Oriente. Enquanto destino turístico, sofre dos mesmos problemas de outros destinos insulares: a grande dependência dos operadores turísticos; a falta de aviões diretos e o tempo que os turistas demoram a chegar ao destino (número de escalas), e a sensação permanente de isolamento. Nalguns casos, desenvolve-se um sentimento de nostalgia e evasão, apelidado de insularidade. Trata-se, no entanto, de um país culturalmente rico, repleto de ruínas com potencial arqueológico, temperaturas amenas e praias a perder de vista.

Em 1974, a Turquia ocupou o norte do Chipre, situação que se mantém até aos dias de hoje. O que faz de Nicósia, a segunda cidade do mundo, dividida por uma fronteira, em que os turistas que se passeiam na cidade precisam, a determinada altura, de mostrar o passaporte para continuar o percurso. Antes da década de 70, Famagusta era um famoso destino turístico, apelidado de balneário na costa Oeste da ilha. Hoje, é denominada a cidade-fantasma. Ninguém habita naquelas casas e, até há um ano atrás, a sua frequência estava interdita, sendo agora possível, visitar algumas partes da cidade. Varosha é o distrito onde se encontra o complexo turístico abandonado, trata-se de uma zona de acesso condicionado com mais de 30 hotéis abandonados. Impressionante! A NATO presente no território, procura o entendimento entre as partes.

Numa tentativa de potenciar o turismo em Famagusta, sugere-se a transformação digital do destino, revestido num plano de ação. O primeiro passo assentaria no levantamento dos recursos da região abandonada. O segundo passo seria a identificação e digitalização deste património para memória futura e um terceiro passo, quiçá, a sua reconstrução, nomeadamente, a revitalização da mesquita Lala Mustafa Pasha que (se nada for feito) continuará a degradar-se, até que um dia, o vento levará as últimas poeiras. A digitalização da zona abandonada, permitiria aos turistas ter acesso prévio à zona, através da realidade virtual. A utilização de uns óculos próprios e tecnologia GPS permitiria aos turistas estar dentro do monumento e literalmente imergir naquilo que a mesquita foi outrora. Seria potenciar o turismo de fronteira e explorar aquilo que os turistas poderão ver, situação já observada no Castelo de Pafos (um projeto da Universidade Tecnológica e da UNESCO). A Realidade Aumentada permite ver in loco a cidade reconstruída e visualizar as suas dinâmicas antigas, através da transposição do mundo virtual no mundo real. Outra ação, no âmbito deste plano de transformação digital seria a utilização da gamificação que usa os elementos típicos dos jogos para envolver os utilizadores com o momento ou com o destino. Esta é uma das várias formas possíveis de potenciar a interação digital dos turistas com o destino.

A viabilidade de um plano de transformação tecnológico desta natureza é possível, uma vez que o Chipre beneficia do poder e da influência da UNESCO, do conhecimento das Universidade Tecnológica em Nicósia e da West University em Famagusta e da presença da ONU no território. Tenho consciência de que isto é tudo mais complicado do que aqui se apresenta. Mas tendo a tecnologia, o know-how, o destino turístico e os turistas, precisamos de boa vontade política e fé na humanidade, para reconstruir o paraíso perdido de Famagusta e recuperar o seu património, ainda que de forma digital.

Porque se nada for feito, daqui a uns anos não restará nada mais, do que um grande cemitério de hotéis…

Por Sofia Almeida

É professora auxiliar na Universidade Europeia e investigadora no CEG/Territur, Universidade de Lisboa.

salmeida@universidadeeuropeia.pt

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