“Organizações que cuidam verdadeiramente das suas pessoas têm menos rotatividade, maior motivação e equipas mais resilientes, especialmente num setor tão exigente como o turismo”
Durante os meses de verão, o setor do turismo move-se numa intensidade que poucos conseguem descrever – e menos ainda sustentar. Época alta. Casas cheias. Filas, pressa, expectativas, pressão. Tudo tem de correr bem, todos os dias. E quem garante que isso aconteça? São as pessoas que estão nos bastidores da experiência: rececionistas, guias, equipas de limpeza, cozinheiros, motoristas, técnicos, comerciais, chefias intermédias. São estas pessoas que recebem, acolhem, ouvem, resolvem, sorriem.
Nos meses de maior afluência, o foco esteve, como é habitual, no cliente. Na resposta rápida, no improviso constante, no “não temos tempo” que virou uma rotina. E, ainda assim, as equipas fizeram acontecer. Não por obrigação, mas porque sabem o impacto que têm na experiência de quem escolhe Portugal para descansar, descobrir ou regressar.
Mas está a chegar aquele momento em que as malas voltaram aos porões, os sorrisos dos turistas desvanecem-se em fotografias e as ruas antes vibrantes com passos apressados agora respiram mais devagar. Para muitos, é o fim de mais uma temporada. Para quem esteve nos bastidores do encantamento é o “pós-pico”.
É agora que, muitas vezes em silêncio, se faz o verdadeiro balanço. É tempo de respirar, mas também é tempo de perguntar: Quem cuida de quem cuidou? Porque nenhuma excelência no serviço se sustenta sem gente inteira. Nenhum sorriso é genuíno se vier sempre de um lugar de exaustão. Nenhum trabalho em equipa se fortalece sem espaço para escuta, formação, desenvolvimento humano e bem-estar.
Investir na equipa depois da pressão não é um “prémio”. É uma estratégia de continuidade. É um ato de respeito e uma aposta inteligente: quanto mais cuidada é a pessoa, melhor é a experiência que ela entrega. E mais sustentável é a organização que lidera com humanidade. Mas não basta oferecer um dia de descanso ou um jantar de equipa (embora possam ser gestos válidos). Cuidar de quem cuidou é criar tempo, espaço e processos para o desenvolvimento humano dentro da empresa. É investir em competências emocionais e relacionais e trabalhar a coesão, o reconhecimento e a saúde mental.
Também não é apenas uma questão ética. É uma estratégia inteligente de retenção e valorização de talento. Organizações que cuidam verdadeiramente das suas pessoas têm menos rotatividade, maior motivação e equipas mais resilientes, especialmente num setor tão exigente como o turismo.
O investimento pós-pico não é um luxo. É um compromisso inteligente com a sustentabilidade do negócio. É neste momento que se pode recuperar energia, reforçar competências, escutar o que ficou por dizer e reconhecer com verdade – não só com palavras, mas com ações – o esforço humano que sustentou a operação.
Fazê-lo não é só justo, mas estratégico. Porque equipas que se sentem vistas, cuidadas e valorizadas têm mais capacidade de crescer, inovar e permanecer. Porque o próximo pico felizmente voltará. E só as empresas que investem nas pessoas entre estes momentos é que conseguem manter a qualidade e a alma com que servem.
O futuro do turismo passa por quem o faz possível. E cuidar depois é tão importante quanto preparar antes. Agora que o som abrandou e o relógio volta ao seu ritmo, fica a pergunta: O que vai fazer por si e pela sua equipa para preparar o futuro?
A temporada acaba, mas o ser humano fica. E é esse ser humano que pode transformar a próxima temporada, se for cuidado hoje.
Por Susana Garrett Pinto*
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