O futuro aeroporto de Alcochete voltou esta quarta-feira ao centro do debate, no segundo dia do 50.º Congresso da APAVT, em Macau. O secretário de Estado das Infraestruturas garantiu que “nada impede” a ANA – Aeroportos de Portugal de abrir a infraestrutura em 2035, insistindo na necessidade de “acabar com a falácia do Montijo”. Do lado da concessionária, José Luís Arnaut recusou comprometer-se com prazos e defendeu que, “se a história tivesse sido outra, o aeroporto de Montijo estava a funcionar”.
As declarações surgiram esta quarta-feira, 3 de dezembro, em entrevistas individuais conduzidas pelo presidente da APAVT – Associação Portuguesa das Agências de Viagens e Turismo, Pedro Costa Ferreiro, no segundo dia do 50.º Congresso da associação, em Macau.
Hugo Espírito Santo sublinhou que é preciso “acabar com a falácia do Montijo”. Para o governante, o Aeroporto Humberto Delgado é “um erro do ponto de vista daquilo que é a indústria hoje”, onde “cada aeronave atravessa 400 mil habitantes”, algo que descreve como “um risco”.
Ter um “segundo aeroporto complementar que ia voar sobre outros 200 mil habitantes era por um erro sobre um erro”, defendeu o secretário de Estado, reforçando ainda que a construção do Montijo “não ia demorar três anos, ia demorar cinco, seis, sete anos”.
Já José Luís Arnaut, chairman da ANA Aeroportos de Portugal – VINCI Airports, considera que, “se a história tivesse sido outra, neste momento o aeroporto de Montijo estava a funcionar e Lisboa estava a crescer”, reiterando que a concessionária recusa “anualmente centenas de slots”.
“A vontade e determinação de Pedro Nuno Santos não foi cumprida, o que está a prejudicar amplamente a economia nacional. Hoje estaríamos com muitos mais milhões de passageiros”, afirmou Arnaut, classificando o travão à solução de Montijo como “um erro estratégico”.
Na mesma linha, também Francisco Calheiros, presidente da Confederação do Turismo de Portugal (CTP), afirmava esta terça-feira, 2 de dezembro, na sessão de abertura do congresso, que “já todos sabem a minha opinião: o Montijo é uma opção intermédia rápida, eficaz e mais barata”.

Governo: “2037 é da exclusiva responsabilidade” da ANA. “O nosso timing é 2034-2035”
O chairman da ANA reconheceu que, com o Governo “amarrado ao relatório da comissão técnica dita independente, mas que era a comissão técnica a favor de Alcochete”, não há caminho alternativo. “A solução que estamos a trabalhar é Alcochete. Está decidido. Vamos antecipar, vamos acelerar e vamos ter Alcochete a funcionar o mais depressa possível”.
No entanto, não quis comprometer-se com datas. “2037 é o prazo que está na nossa proposta por uma razão simples: era preciso ter algumas válvulas de segurança”. Apesar de assegurar que “a nossa vontade é que seja antes”, descreveu a meta de 2035 como um “cenário idílico”.
“O nosso interesse é igual ao do Governo e do setor do turismo: tentar encurtar o mais possível os prazos que podem ser encurtados”, garantiu José Luís Arnaut.
Ainda assim, alerta que a escala da obra levanta exigências. “Estamos a falar de um aeroporto que é 5 vezes o aeroporto de Humberto Delgado, com duas pistas. E também tem que ter acessos porque vamos ter um aeroporto a 41 km do centro de cidade. É preciso termos a noção de que sem acessibilidade não há aeroporto. Há aqui um conjunto de tramitação legal, que é intransponível e que nos cria estes constrangimentos”, disse.
Minutos depois, a resposta do secretário de Estado das Infraestruturas foi clara: “2037 é da exclusiva responsabilidade de José Luís [Arnaut]. O nosso timing é 2034-2035”.
“Se a ANA adiantar os prazos, ficaríamos profundamente reconhecidos e seria um sinal que está comprometida nesta nossa parceria com o Estado português. Do nosso lado faremos tudo o que possamos”, acrescentou.
Hugo Espírito Santo lembrou ainda que “gerir infraestruturas é gerir algo que vai estar no mesmo ciclo para 50 anos” e que, por isso, “estamos a falar de timings razoáveis”.
Concordou, contudo, que “há muita coisa que tem de ser feita [em termos] das acessibilidades”, a começar pela terceira travessia sobre o Tejo, que “é parte de uma visão mais ampla do Governo de criar uma nova centralidade a sul do Tejo”. O Parque Cidades do Tejo, disse, será “um movimento socioeconómico importantíssimo para conseguirmos reequilibrar outra vez toda a área metropolitana de Lisboa”.
O Governo está “a pensar lançar [o concurso público] em 2027-2028, o que significa que a ponte estará pronta em 2032-2033”, pelo que “não é a terceira travessia do Tejo que irá criar um obstáculo a este tema”.
“Do ponto de vista das rodovias e das estradas, estamos a negociar com a Brisa o prolongamento da A33. Devemos ter logo no início de 2026 a decisão e a Brisa começará a construir a autoestrada”, indicou.
No plano ferroviário, assegura que haverá “um troço de alta velocidade que sairá do Barreiro para o aeroporto direto”, garantindo que “vamos ter a solução ferroviária ainda antes do aeroporto”.
“O investimento de infraestruturas para os próximos 10 anos é de 60 mil milhões de euros, incluindo aeroportos, estradas, ferrovia, portos e metropolitano”, com “financiamento largamente privado”.
*Viajou para Macau a convite da APAVT



