Dorisol aposta na Europa de Leste e quer crescer em Portugal Continental

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O Grupo Dorisol acredita que 2026 terminará com crescimento face ao ano anterior, embora antecipe um exercício mais desafiante em termos de execução e rentabilidade. Com operações concentradas na Madeira, o grupo destaca a crescente importância dos mercados da Europa Central e de Leste, o reforço da venda direta e a aposta na experiência do hóspede como pilares da sua estratégia.

Em entrevista ao TNews, Tiago Quintas, administrador do Grupo Dorisol, faz um balanço positivo do primeiro semestre e sublinha que o principal tema do ano não tem sido o volume da procura, mas sim a alteração do perfil dos mercados emissores.

“O balanço dos primeiros seis meses é positivo. A procura pela Madeira, onde temos as nossas operações, continua sólida e conseguimos manter muito bons níveis de ocupação, num contexto que, apesar de favorável ao destino, se tornou mais exigente ao nível dos pick-up das reservas e do consumo dentro das unidades”, refere.

Apesar do crescimento dos custos acima do previsto, os resultados mantêm-se alinhados com o orçamento definido para 2026. “Os resultados estão, globalmente, em linha com o nosso budget para 2026, sem deixar de notar um crescimento dos custos acima do previsto, no entanto, compensado em parte com as receitas, fruto da nossa capacidade de adaptação e flexibilidade às novas dinâmicas do mercado.”

A grande mudança dos últimos anos tem sido o crescimento da procura proveniente da Europa de Leste. Segundo Tiago Quintas, a Polónia é atualmente o segundo maior mercado do grupo, ultrapassando destinos tradicionais como França e Reino Unido. “A principal alteração estrutural, já verificada nos anos transatos, tem sido o crescimento da procura proveniente da Europa de Leste, com destaque para a Polónia, República Checa e Hungria. No seu conjunto, estes países já assumem um peso muito significativo, sendo a Polónia, neste momento, o nosso segundo maior mercado, ultrapassando mercados mais tradicionais como o francês ou inglês”, adianta. Sobre estes mercados, o administrador destaca que são “mercados com procura crescente, boas ligações aéreas à Madeira e uma adequação muito interessante ao nosso posicionamento, assente numa boa relação entre qualidade, localização e preço”.

“O balanço dos primeiros seis meses é positivo. A procura pela Madeira, onde temos as nossas operações, continua sólida e conseguimos manter muito bons níveis de ocupação, num contexto que, apesar de favorável ao destino, se tornou mais exigente ao nível dos pick-up das reservas e do consumo dentro das unidades”

No primeiro semestre, os hóspedes internacionais representaram cerca de 80% da ocupação das unidades do grupo, um indicador que, na opinião do responsável, reforça a importância do turismo para a economia nacional. “Este dado reforça também a importância, por vezes esquecida, do turismo para a balança comercial, ao trazer as exportações para dentro do país e gerar um relevante efeito multiplicador na economia.” Ainda assim, Portugal continua a ser o principal mercado individual, especialmente durante os meses de verão. Em contrapartida, o administrado adianta que se verificou alguma redução relativa dos mercados francês, britânico, alemão e nórdico. “Estes mercados continuam a ser estratégicos, não apenas pelo volume, mas também porque apresentam tradicionalmente um consumo superior em F&B e outros serviços”, defende.

Verão robusto e receitas extra crescem 15,5%

A época alta está a decorrer dentro da normalidade, com níveis de procura semelhantes aos registados em 2025. “A época de verão está a decorrer dentro da normalidade, com níveis de procura e ocupação bastante robustos, à semelhança do ano anterior”, avança o administrador da Dorisol.

Portugal e França continuam a ter um peso importante, acompanhados pelo Reino Unido, Espanha, Alemanha, Países Baixos e, cada vez mais, pela Polónia e outros países da Europa Central e de Leste.

Apesar da evolução favorável do ADR, Tiago Quintas admite uma crescente sensibilidade ao preço e uma tendência para reservas realizadas cada vez mais perto da data da viagem. “Isto obriga-nos a gerir cuidadosamente o equilíbrio entre ocupação e preço, sem cair na tentação de maximizar a ocupação a qualquer custo”, explica

Mais do que o RevPAR, o grupo está focado na receita total por hóspede. “O nosso principal foco não está apenas no RevPAR, mas na receita total por hóspede”, reconhece. Nesse sentido, a estratégia tem passado por aumentar o consumo de serviços complementares, como restauração e experiências. “Temos tido razoável sucesso, tendo, por exemplo, a nossa receita extra por cliente aumentado 15,5% em abril de 2026, face a 2025″, adianta.

Venda direta cresce 42%

Nos próximos meses, a Dorisol pretende continuar a reforçar a sua presença na Polónia, República Checa, Hungria, países bálticos e restantes mercados da Europa Central e de Leste.

“Vemos nestes países um potencial de crescimento enormíssimo, com um forte crescimento da classe média e rendimento disponível das famílias, permitindo-nos simultaneamente ter um mix verdadeiramente diversificado e uma redução de risco associado a grandes concentrações geográficas. Não queremos depender excessivamente de nenhuma geografia.”

Ao mesmo tempo, o grupo continuará a trabalhar os mercados tradicionais, nomeadamente Portugal, França, Reino Unido, Alemanha e países escandinavos, reconhecendo a sua importância para a rentabilidade da operação. “Alguns destes mercados têm maior propensão para consumir serviços adicionais durante a estadia e são fundamentais para melhorar a rentabilidade global por hóspede.”

A aposta na venda direta tem sido outra das prioridades da empresa. “Em maio de 2026, por exemplo, as reservas diretas cresceram 42% face a 2025.”

Talento, agilidade e regulação são os grandes desafios

Questionado sobre os principais desafios da hotelaria, Tiago Quintas identifica três: a atração e retenção de talento, a velocidade da mudança e a necessidade de uma regulação equilibrada da oferta turística. Quanto ao primeiro, aponta o papel “essencial” da tecnologia para “eliminar tarefas repetitivas e libertar as equipas para aquilo que realmente acrescenta valor e necessita de ‘humanidade’ — receber bem, servir bem e criar experiências e momentos de singularidade.”

O responsável considera ainda que a hotelaria precisa de ganhar flexibilidade para responder à rapidez com que mudam os mercados e os hábitos dos consumidores. “Hoje, desenhar um conceito hoteleiro exige quase antecipar o futuro, identificar tendências verdadeiramente estruturais e criar espaços e operações suficientemente flexíveis para se adaptarem à evolução dos hábitos e das necessidades dos clientes”, defende, dando um exemplo concreto: “Dou um exemplo muito prático para se entender: a criação de novos projetos hoteleiros ou em renovações profundas. Entre a idealização de um conceito e a sua concretização podem decorrer vários anos, existindo o risco de aquilo que parecia inovador no início do projeto já não corresponder às expectativas do mercado quando o hotel abre”

Quanto à regulação equilibrada da oferta turística, Tiago Quintas dá o exemplo do Alojamento Local: “Há espaço para diferentes modelos de alojamento, e o AL teve e tem um papel importante na reabilitação das cidades, na diversificação da oferta e na criação de rendimento complementar para muitas famílias. No entanto, é necessário garantir um controlo não apenas quantitativo, mas sobretudo qualitativo, porque esta oferta pode influenciar significativamente a imagem e a qualidade de um destino. O alojamento local opera com uma estrutura de custos e obrigações diferente da hotelaria. Em períodos de forte procura, essa diferença é menos visível; em ciclos negativos, porém, pode provocar uma maior volatilidade da oferta e uma descida descontrolada dos preços, com impacto negativo na sustentabilidade e no posicionamento do destino”.

Embora reconheça que a Madeira tem beneficiado da atual conjuntura internacional, Tiago Quintas alerta para a importância da conectividade aérea. “A Madeira beneficia de uma imagem de segurança, estabilidade, conectividade e qualidade, para além de ter uma oferta turística muito diversificada ao longo de todo o ano. Neste sentido, infelizmente pelas razões que são, a Madeira acaba por beneficiar desta instabilidade geopolítica.”

No entanto, deixa críticas às alterações do Subsídio de Mobilidade e aponta o exemplo dos Açores. “Temos um exemplo muito recente dos nossos congéneres açorianos, onde a ‘simples’ saída de uma das companhias de aviação com várias rotas pré-estabelecidas tem tido um impacto muito negativo, com consequências estruturais para a economia regional. Também a Madeira, com as mais recentes alterações das regras do Subsídio de Mobilidade, às quais sou totalmente contra, e promovidas por agentes políticos sem racionalidade alguma, pode rapidamente passar a ter impactos semelhantes ao dos Açores… Veremos no futuro, na esperança que não”, defende.

“A Madeira, com as mais recentes alterações das regras do Subsídio de Mobilidade, às quais sou totalmente contra, e promovidas por agentes políticos sem racionalidade alguma, pode rapidamente passar a ter impactos semelhantes ao dos Açores”

Dorisol procura crescer dentro e fora da Madeira

Em 2026, o grupo está focado na valorização das suas unidades e na adaptação às novas exigências dos clientes. A empresa está a trabalhar internamente em vários projetos, como por exemplo, nos conceitos de restauração oferecidos. “Queremos que a restauração deixe de ser vista apenas como um serviço complementar do hotel e se transforme numa experiência com identidade própria, que possa competir com a muito boa concorrência que temos em toda a região.”

A Dorisol está igualmente a investir na modernização das unidades, eficiência energética e digitalização. “Estamos igualmente a investir na melhoria do percurso digital do hóspede, na modernização de áreas das unidades, na eficiência energética e na criação de novos serviços.”

Paralelamente, a Dorisol encontra-se a analisar oportunidades de expansão. “Estamos a analisar ativamente oportunidades de crescimento e novos projetos hoteleiros, não só na Madeira como em Portugal continental, mas sempre com a prudência que estes ciclos ‘positivos’ exigem.”

Na área tecnológica, o grupo está a desenvolver uma plataforma digital para os hóspedes. “Estamos também a desenvolver uma plataforma digital para o hóspede, uma espécie de concierge online, através da qual será possível consultar informação, fazer o self check-in, fazer pedidos, reservar serviços, comunicar ocorrências e aceder a experiências durante a estadia.”

Já a inteligência artificial será utilizada para apoiar o revenue management, a previsão da procura e a personalização da comunicação. “A IA não deve e não pode substituir a hospitalidade; deve libertar as pessoas para serem mais disponíveis e ‘mais humanas’.”

“Estamos a analisar ativamente oportunidades de crescimento e novos projetos hoteleiros, não só na Madeira como em Portugal continental, mas sempre com a prudência que estes ciclos ‘positivos’ exigem.”

“Experiência, experiência, experiência”

Quanto ao futuro da hotelaria, Tiago Quintas não tem dúvidas sobre a principal tendência. “Experiência, experiência, experiência. A grande tendência será, acima de tudo, a experiência”, defende.

Na sua visão, os clientes procuram cada vez mais autenticidade, exclusividade e ligação ao território. “O cliente já não procura apenas um quarto confortável e bem localizado num determinado destino; procura algo que lhe fique na memória, que tenha identidade.” Por isso, o administrador da Dorisol acredita “que assistiremos a uma procura crescente pela singularidade. Conceitos boutique, mais intimistas, autênticos e ligados ao território tenderão a ganhar relevância. Os grandes hotéis continuarão naturalmente a ter o seu espaço, sobretudo em determinados segmentos, mas penso que os projetos excessivamente massificados e indiferenciados terão mais dificuldade em afirmar-se no futuro”.

Outras tendências apontadas por Tiago Quinta, e que muitas vezes estão associadas a estas experiências diferenciadoras, são as apostas de serviço no wellness, ao bem-estar, à natureza e à gastronomia autêntica. “Conceitos como o farm to table, a utilização de produtos locais, as experiências culturais e a ligação às comunidades serão cada vez mais valorizadas. O cliente quer sentir que esteve naquele destino e não apenas num hotel que poderia existir em qualquer parte do mundo”.

Apesar dos desafios associados ao aumento dos custos e à evolução dos mercados, o administrador da Dorisol mantém uma perspetiva positiva para o fecho do ano. “Acreditamos que 2026 poderá terminar com crescimento de receita face a 2025, mas será provavelmente um ano mais desafiante em termos de execução e rentabilidade. O nosso objetivo é fechar o ano acima de 2025, não através da ocupação, mas através de um melhor ADR, maior peso da venda direta, crescimento da receita de serviços adicionais e maior eficiência operacional. Estamos moderadamente otimistas”, remata.

Factos

Grupo Dorisol

  • Maior grupo hoteleiro de três estrelas da Madeira;
  • Opera quatro unidades hoteleiras no Funchal: Dorisol Buganvília Studio Hotel, Dorisol Mimosa Studio Hotel, Dorisol Estrelícia Hotel e Florasol Residence Hotel;
  • Presente exclusivamente na Madeira, com operação centrada no Funchal;
  • Aposta em diferentes segmentos de mercado, desde lazer e famílias até grupos, eventos, empresas e estadias de longa duração.

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