Eliseu Correia, fundador da EC Travel, faz o balanço de 2025 e assinala os 15 anos da empresa com um olhar crítico sobre o turismo português. O empresário diz que este ano foi um “copy-paste do anterior”, critica a estratégia de preços da hotelaria e alerta para a perda de competitividade do Algarve face a destinos como Huelva. Apesar de se manter “moderadamente otimista”, defende que o setor precisa de agir mais cedo e com mais estratégia. Nesta entrevista ao TNews, Eliseu Correia fala sobre os desafios do destino Portugal, a maturidade da EC Travel e o futuro da DMC que se prepara para celebrar 15 anos de atividade.
Como está a correr o ano de 2025 para a EC Travel? Que balanço faz deste ano até agora?
Acho que este ano foi muito um copy-paste do anterior. Não houve grandes mudanças. Se olharmos para o big picture, continuamos com um grave problema no aeroporto de Faro, que nos condiciona. Continuamos, no que diz respeito ao Algarve, a perder uma fatia significativa dos nossos clientes para Huelva. Apesar de tudo o que se queira dizer, isso é um facto indesmentível — e os meus números provam-no.
Em termos gerais, parece que tivemos mais gente em Portugal, mas continuo a dizer: temos mais gente, sim, mas não sei se temos o cliente que gostaríamos ou apenas o cliente possível — e isso é muito claro. Continuamos a ter a Madeira e os Açores em alta, o que é uma das grandes conclusões.
Perante toda a incerteza e o contexto internacional — Ucrânia, Faixa de Gaza, instabilidade económica na União Europeia e nos nossos principais mercados emissores, como o Reino Unido — não podemos dizer que 2025 foi um mau ano. Mas, na minha opinião, podia ter sido melhor, porque continuamos com uma estratégia errada: vamos tarde ao pote.
Ou seja, há dois ou três anos que o preço de referência para o verão é definido com base no preço mais alto praticado no ano anterior. Se um hotel fechou o agosto anterior a vender a 300 euros, lança o mesmo preço para o verão seguinte. Isso faz com que fiquemos fora da concorrência e fora do preço de mercado. Como consequência, julho e agosto não têm as reservas que deviam ter e acabamos por assistir — este ano ainda mais do que no passado — a ofertas especiais em plena alta temporada.
Tenho trinta e tal anos disto e nunca, mas nunca, na minha vida, tinha visto descontos para o Algarve em agosto. Este ano, no final de julho, recebemos ofertas especiais de 15% e, nalguns grupos, até 50% de desconto. Não se compreende.
Existe uma estratégia errada na forma como o mercado define preços. O que é que, concretamente, está a falhar?
Errada, e continuamente errada. Não quero generalizar — não são todos —, mas os que o fazem acabam por prejudicar o destino. É evidente: se eu, em fevereiro ou março, estiver a escolher as minhas férias e encontrar uma unidade a 300 euros quando todas as outras estão a 150, é fácil perceber que esse destino está fora.
Antigamente, o yield era feito com bom senso. Vendia-se a 150, depois passava-se para 170, 200, 250 e finalmente 300, à medida que a ocupação subia. Agora é ao contrário: vão logo para a rua com preços fora do mercado e, em cima da hora, tentam resolver o problema que criaram com ofertas especiais. Não consigo perceber a lógica disto. E o que mais me entristece é que, sinceramente, acho que no próximo ano vão fazer exatamente o mesmo.
“Em termos gerais, parece que tivemos mais gente em Portugal, mas continuo a dizer: temos mais gente, sim, mas não sei se temos o cliente que gostaríamos ou apenas o cliente possível”
A EC Travel vai crescer em 2025 ou vai manter-se em linha com os resultados do ano passado?
Vamos crescer ligeiramente em faturação, cerca de 10%. Não podemos esquecer que a EC Travel já tem a bitola muito alta. Nos últimos dez anos, praticamente todos os anos faturámos acima dos 30 milhões de euros. Ou seja, é um barco em velocidade de cruzeiro, que atingiu uma grande maturidade.
Podemos oscilar — fazer 34 e não 32, ou 36 e não 34 —, mas andamos sempre nesse intervalo. Penso que este ano devemos fechar com cerca de 34 milhões. No ano passado fizemos 32 ou 33 milhões, portanto será um crescimento dentro da normalidade.
A EC Travel celebra 15 anos com uma trajetória sólida. Que decisões considera mais determinantes para o sucesso da empresa?
O sucesso resulta de um conjunto de decisões tomadas no dia a dia, ajustadas ao mercado. Se pensarmos nos 15 anos que agora celebramos — no dia 30 de novembro —, o período mais difícil, de longe, foi o da Covid. Foi o momento mais duro da minha vida como gestor, pela incerteza, pelo trauma, pela violência da situação.
Foi horrível não sabermos se iríamos recuperar o dinheiro que tínhamos adiantado aos hotéis — tínhamos muito dinheiro na rua — e sem saber quando a operação retomaria, nem se os nossos parceiros sobreviveriam.
Mas teve aspetos positivos. Primeiro, não deixei ninguém para trás: consegui manter toda a equipa a bordo e pagar todos os salários na íntegra. Segundo, obrigou-me a reinventar-me e a virar-me para o cliente nacional e espanhol. E não foi apenas uma solução de emergência — transformou-se numa estratégia de longo prazo.
Passaram cinco anos e o mercado nacional e o espanhol são hoje dominantes na EC Travel. Ao contrário do passado, em que o Reino Unido e a Alemanha eram os principais mercados, hoje a conjugação desses dois (Portugal e Espanha) é a mais forte que temos em casa. Quando falmos das decisões mais difíceis, essa foi, de longe, a mais difícil da minha vida.
Quando estamos à frente de uma empresa, estamos expostos a tudo — ameaças políticas, climáticas, sociais. Tudo influencia. E o turismo tem essa beleza: mesmo na zona de conforto, nunca estamos realmente confortáveis, porque temos de ajustar o relógio todos os dias. Por isso, dentro daquilo que imaginei que seria a EC Travel quando a abri em 2010, olho para estes 15 anos e só posso estar orgulhoso, grato e feliz, porque é muito mais do que alguma vez imaginei.
Referiu recentemente numa entrevista que “Portugal deve orgulhar-se da EC Travel”. Que contributo a empresa tem dado à afirmação do destino Portugal?
É mútuo. Não é só o país que se deve orgulhar da EC Travel. A EC Travel orgulha-se de dizer — e esta é a minha opinião — que temos os melhores funcionários, os melhores spots, a melhor gastronomia, as melhores praias, os melhores voos. Nós somos o melhor que existe no mundo.
Quanto àquilo que a EC Travel contribuiu, acho que foi pela sua irreverência e pela forma como transformou algo que era extremamente maçudo, dogmático e aborrecido — o incoming —, numa forma de comunicar e estar completamente diferente.
Ninguém me leve a mal, mas acho que há um tempo antes da EC e outro depois da EC. Não só na forma como nos relacionamos com os parceiros e com as pessoas da empresa, mas também na forma como nos relacionamos com o meio que nos envolve — desde a parte social, onde estamos altamente envolvidos.
Nesse sentido, acho que contribuímos muito para o nosso país, não só na receita que trazemos, mas também na consistência. Repito: andamos a faturar acima dos 30 milhões praticamente há 10 anos consecutivos e estamos no top 100 das maiores PMEs nacionais há cerca de 10 anos. Maior contributo que isto não deve haver muitos. Na realidade não podemos esquecer que, num bom ano, como este, trazemos cerca de 400 mil pessoas.
“Acho que contribuímos muito para o nosso país, não só na receita que trazemos, mas também na consistência. Repito: andamos a faturar acima dos 30 milhões praticamente há 10 anos consecutivos e estamos no top 100 das maiores PMEs nacionais há cerca de 10 anos”
O Turismo de Portugal quer atrair turistas com mais poder de compra, apostando no valor em vez da quantidade. Concorda com essa estratégia?
Na generalidade, concordo com a ideia. Faz sentido tentar atrair cada vez mais clientes com poder de compra, em detrimento de outros. Agora, temos de entender o que é “o outro”.
Criámos no Algarve infraestruturas para o turismo de massa. Se perdermos volume, teremos um problema sério. Se começarmos a segmentar ao ponto de não conseguirmos trazer números suficientes para preencher todas as casas que vivem do turismo — que não é o de topo, mas o da classe média ou média-baixa —, vamos ter um problema.
Muitas unidades nem sequer estão preparadas para a exigência desse cliente de topo. Por exemplo, apartamentos de self-catering com 25 ou 30 anos são ótimos, mas não atingem o cliente que quer dormir no W ou no Pine Cliffs. São dois mundos diferentes.
Acho muito bem que o Turismo de Portugal tenha essa preocupação, mas sem nunca perder a visão do conjunto. O Algarve vai desde o McDonald’s à Vila Joya. Temos uma região com uma panóplia de oferta que mostra que o cliente do McDonald’s não é mau — há clientes do McDonald’s que são muito bons e outros que não são tanto. Todo o mercado tem o seu bom cliente, porque cada um paga o que pode pelas suas férias.
Não podemos dizer que o cliente que fica em self-catering é mau. Há muito cliente que fica nesse tipo de alojamento e até tem dinheiro, mas prefere ficar ali porque passa pouco tempo no quarto. Assim como o avião se transformou apenas num meio de transporte, temos uma geração com um pensamento completamente diferente do cliente package dos anos 80 ou 90 — e há quem ainda viva nesse tempo que já não existe e não volta.
Portanto, apostar na qualidade e nos segmentos altos, sim, perfeitamente de acordo. Ganha-se muito mais dinheiro numa reserva de sete dias num hotel de cinco estrelas do que numa de duas estrelas. Agora, é preciso virar um pouco o foco para aí, mas nunca deixar para trás a base — que é o que sustenta tudo.
E no caso da EC Travel — como equilibram o volume e a qualidade na operação?
Completamente. Nós já estamos nesse caminho há muito tempo. Desde cedo percebi que as grandes páginas web tinham por hábito destacar, na página de abertura, as unidades que vendiam muito — e não as que custavam muito e podiam vender muito. Nós fomos pioneiros a fazer o contrário.
No ano passado reforçaram a equipa com a Filomena Leitão a assumir o cargo de Area Manager em Lisboa e Porto. Que resultados estão a sentir?
Na nossa estratégia, percebemos que em Lisboa podíamos fazer muito mais. Essa presença trouxe-nos a proximidade que o mercado nos faltava. Não ando nisto há dois dias, e hoje o mercado muda rapidamente.
Estamos numa fast track, no caminho certo, e posso anunciar aqui, em primeira mão, que vamos estar em força, com stand próprio, pela primeira vez na nossa história, na BTL. Nos últimos dois ou três anos, tenho reparado em melhorias — não só na comunicação, mas também na parte organizacional.
E, mais importante do que isso, sempre fui apologista de que “quem não aparece, esquece”. Achei que, como as feiras internacionais como a WTM estão cada vez mais vazias desde o Covid, não fazia sentido continuar a investir nelas.
Então pensei: se saio do World Travel Market, a promoção tem de ser feita ao contrário. Ou seja, se não consigo ir lá fora à procura de clientes, vou estar mais perto dos parceiros locais. Por isso, vamos estar na BTL com stand próprio, para ter esse toque pessoal e dar um push maior a Lisboa e ao Porto. Vai ser a primeira vez em 15 anos. A empresa faz 15 anos, mas continua a adaptar-se.
Para 2026, quais são as suas principais expectativas e preocupações?
Neste momento, prevejo um ano que, se nada de transcendente acontecer — e não sabemos como o mundo vai evoluir —, será em linha com o que sentimos no ano passado e neste.
Temos todos esses problemas bélicos a decorrer e ninguém sabe bem o que pode acontecer. Tudo muda em 24 horas ou em dois minutos. Mas, sinceramente, não sinto que vá haver mudança na estratégia de quem põe os preços na rua. Apesar da porrada que levaram mais uma vez, não sinto qualquer tipo de mudança — e isso entristece-me.
Quanto aos mercados, acho que o mercado norte-americano poderá ter algum peso a nível nacional, como já tem hoje, mas percebemos que esse peso é mais para o turismo residencial — pessoas que vêm à procura de uma segunda habitação.
O mercado norte-americano começa a ter mais expressão. Acredita que poderá tornar-se também um fluxo turístico relevante para o Algarve?
No passado, no Algarve, primeiro tivemos os fluxos turísticos e depois as pessoas gostaram tanto que acabaram por comprar casa. Agora é ao contrário: vêm, gostam disto e trazem gente.
Vimos o que aconteceu com o mercado francês, que antes não tínhamos. Quanto ao norte-americano, vamos ver. Uma coisa é ir ao mar e apanhar robalos; outra é ter robalos criados em viveiro. Acho que é um fluxo turístico que ainda não é real nem sustentado.
Está moderadamente otimista quanto ao futuro próximo?
Sim, estou moderadamente otimista. Acho que é a melhor forma de o dizer. Faço votos de que o mundo melhore e que tenhamos mais paz — porque a paz é essencial para todos nós, e o turismo vive disso.
Os 15 anos da EC Travel serão celebrados em fevereiro, na gala de 2026. O que é que podemos esperar dessa gala?
No dia 21 de fevereiro, teremos a festa da EC Travel. À semelhança do ano passado, não vamos revelar os convidados musicais nem o tema — embora seja fácil adivinhar, porque estamos a celebrar os 15 anos da EC Travel. Haverá muitas surpresas e, como digo sempre, acredito que vai ser a melhor de todas.



