Domingo, Maio 26, 2024
Domingo, Maio 26, 2024

SIGA-NOS:

Entrevista: A sustentabilidade “ou é vista como uma oportunidade de transformação holística, ou é perda de tempo”

“Eu não creio que tenhamos apenas de promover globalmente o país como um destino de turismo sustentável, […] acho que o próprio país tem de ser sustentável, para evitar distorções na mensagem emitida. E estatisticamente ainda não somos”, afirmou Rodrigo Tavares, Professor Catedrático Convidado na Nova SBE, em entrevista ao TNews, indicando que Portugal ainda se encontra posicionado em 48º lugar, num total de 180 países, no Environmental Performance Index de 2022 da Universidade de Yale.

Rodrigo Tavares ministra cadeiras de mestrado e cursos executivos em sustentabilidade corporativa e finanças sustentáveis, além de conduzir investigação sobre estes temas. O profissional defende que “todas as empresas de turismo devem marchar rapidamente na direção da sustentabilidade, com o risco de se autoexcluírem do mercado se não o fizerem”, explicando que a incorporação de práticas de sustentabilidade propicia inúmeras vantagens competitivas para as empresas.

O aumento da sensibilização da sociedade para as questões da sustentabilidade está a pressionar as empresas a mudar?

Inquéritos mostram que os empresários se sentem pressionados a mudar, mas não sabem integralmente como fazê-lo. A pressão advém dos reguladores, principalmente europeus, dos acionistas, dos clientes, da cadeia de fornecedores, dos bancos. A sustentabilidade deixou de ser vista apenas como um fator humanista ou moralista, mas como um princípio cartesiano e financeiro. E com isso, alcançou novas dimensões.  

Qual é a situação em Portugal? O tecido empresarial português está a fazer as transformações necessárias para se tornar mais sustentável?

Continuamos a contemplar a sustentabilidade sob a lógica do cumprimento de regras. Ou então sob o prisma da comunicação e do marketing. Ou então como um conjunto de medidas que só é aplicável às grandes empresas e não às PMEs, que correspondem a 99% do tecido empresarial português. Mas a sustentabilidade não é conjuntural, de curto-prazo ou perfunctória. Ou é vista como uma oportunidade de transformação holística de uma organização, ou é perda de tempo. As empresas portuguesas estão prestes a enfrentar três tsunamis neste domínio. Em primeiro lugar, devido à regulamentação europeia, com novas medidas a entrar em vigor em 2023 e 2024. Depois, a pressão regulatória sobre os bancos para alinharem os seus portfolios de crédito à descarbonização da economia fará com que eles próprios pressionem os seus clientes a se tornarem mais sustentáveis. E finalmente, a partir deste ano, as empresas de maior porte terão de começar a solicitar indicadores em sustentabilidade aos seus fornecedores. Veremos as PMEs a terem de apresentar dados como, por exemplo, pegada carbónica ou igualdade de género. Será uma pequena revolução nas práticas corporativas.

“A sustentabilidade deixou de ser vista apenas como um fator humanista ou moralista, mas como um princípio cartesiano e financeiro”.


Do que é que falamos quando falamos de ESG (ambiente, social e governação)?

ESG, um acrónimo criado em 2004 num relatório da ONU, corresponde à transformação em indicadores financeiros de temas planetários como desenvolvimento sustentável, surgido em 1987. É um conjunto de métricas e práticas que guiam as empresas e as instituições financeiras quando o objetivo é a melhoria da sua capacidade de serem resilientes a risco (como o climático), a identificação de novas oportunidades de geração de valor (como o que emana de uma melhor eficiência na utilização de águas ou resíduos), ou a geração de impacto positivo na sociedade ou no meio ambiente.

Qual é a importância de as empresas aplicarem critérios de ESG? E mais especificamente as empresas do turismo?

Certamente que há benefícios de ordem humanista ou até de sobrevivência da espécie. A geração do meu filho não quer herdar um ecossistema carbonizado, sem biodiversidade ou com recursos naturais esgotados. Mas a liturgia para as empresas tem de ser mais matemática. A incorporação de práticas de sustentabilidade propicia vantagens competitivas, como menor custo de capital, o crescimento da produtividade e da satisfação dos funcionários, a redução de custos associada a uma mais eficiente utilização de energia, água, materiais ou resíduos, a melhoria da competência da empresa em identificar e gerir riscos externos, o aprimoramento e expansão da base de clientes, entre dezenas de outras vantagens.

“A geração do meu filho não quer herdar um ecossistema carbonizado, sem biodiversidade ou com recursos naturais esgotados”.


Disse, no ano passado, que as “empresas mais sustentáveis têm melhor performance financeira e a exposição ao risco é inferior”. Ou seja, existe uma correlação entre sustentabilidade e performance financeira?

Mais de um milhar de estudos foram publicados nos últimos 15 anos sobre essa correlação e a maioria indica que, de facto, existe uma relação entre essas duas variáveis: sustentabilidade e desempenho financeiro. Mas é importante sinalizar que essa correlação não é inequívoca ou universal, varia de acordo com o porte da empresa, a geografia onde opera, a sua capacidade de integrar práticas materiais de sustentabilidade, a área de negócios, entre outros fatores. Juntamente com duas investigadoras, estamos prestes a concluir um estudo académico estatístico que irá demonstrar que, pelo menos no Médio Oriente, não é a sustentabilidade que leva a um melhor desempenho financeiro, mas o inverso. Ou seja, ainda existe algum espaço interpretativo.

Com as novas gerações cada vez mais atentas à sustentabilidade, como é que as pessoas vão consumir turismo no futuro? Vão optar por viagens de carros, de avião ou comboio? De curta ou longa distância?

Cada vez mais as barreiras entre a nossa vida pessoal e pública, ou profissional e de lazer se desfarelarão. Haverá linhas de continuidade entre as viagens de trabalho e viagens de lazer. Teremos reuniões e iremos a museus no mesmo dia. Não creio que as viagens serão mais curtas, mas serão mais eficientes. E certamente que serão mais sustentáveis e com mais tecnologia. Novas ferramentas irão permitir que tudo o que fazemos e consumimos tenha o seu perfil de sustentabilidade devidamente cartografado e auditado. Hoje já é muito fácil comprar créditos de carbono para compensar viagens aéreas. Mas em breve o passageiro vai querer saber: como é que os créditos foram compensados? Quais projetos? Com que impactos mensuráveis?

“[No futuro] Não creio que as viagens serão mais curtas, mas serão mais eficientes. E certamente que serão mais sustentáveis e com mais tecnologia”.


Qual é o contributo que a atividade turística pode ter para uma economia mais saudável dos países?

A sua pergunta contempla pelo menos quatro dimensões. Em primeiro lugar, todas as empresas de turismo, como qualquer empresa de qualquer outro setor, devem marchar rapidamente na direção da sustentabilidade, com o risco de se autoexcluírem do mercado se não o fizerem. Depois, creio que há uma margem considerável para investirmos em turismo sustentável. Estudos indicam que a maioria dos turistas quer viajar de forma mais sustentável no futuro, visto que a pandemia os alertou para o impacto dos seres humanos no meio ambiente. As empresas que optarem por esta visão estratégica serão expostas a novos mercados, novas oportunidades de negócios e uma nova base de clientes. Mas eu não creio que tenhamos apenas de promover globalmente o país como um destino de turismo sustentável, como fazem tão bem a Suécia, Finlândia, Áustria, Estónia ou Noruega. Acho que o próprio país tem de ser sustentável, para evitar distorções na mensagem emitida. E estatisticamente ainda não somos. No Environmental Performance Index de 2022 da Universidade de Yale, Portugal encontra-se apenas em 48º lugar em 180 países. Somos ótimos em energias renováveis, mas péssimos em vários outros indicadores, como reciclagem de lixo urbano. Finalmente, creio que precisamos de discutir a sustentabilidade do setor de turismo. Temas como “overtourism”, a dependência do PIB português relativamente ao turismo (atualmente corresponde a 10,1% da economia nacional), ou a limitada contribuição desta atividade económica para o crescimento da produtividade – tudo isto são temas que precisamos de discutir.

“No Environmental Performance Index de 2022 da Universidade de Yale, Portugal encontra-se apenas em 48º lugar em 180 países”.


No futuro, as cadeias hoteleiras que não adotarem medidas de sustentabilidade vão conseguir manter-se no mercado?

A hotelaria é uma indústria muito dinâmica e adaptativa. Os primeiros hotéis, no Japão, em Roma e na Grécia Antiga, serviam para alojar peregrinos ou frequentadores de banhos termais. As “roadhouses” americanas do século XIX eram centros de abrigo de trabalhadores nómadas e vendiam alimentos para pessoas e cavalos. Na indústria de turismo e hotelaria, a sustentabilidade era algo novo há uma década. Hoje começa a ser contumaz. Em breve será tão normalizado e banalizado que deixaremos de falar sobre este tema.


Em novembro de 2022, moderou o evento “CEO Council Leading Tourism: Recovery and Reskilling”, com a temática “A Roadmap for ESG”, onde estiveram presentes grandes nomes do turismo português. Qual foi o objetivo deste evento?

Discutir, de forma franca, os desafios da aplicação de políticas, práticas e métricas de sustentabilidade ao setor de turismo em Portugal. Os desafios são imensos, mas foram partilhados com lisura por todos os participantes. O Nova SBE Westmont Institute of Tourism & Hospitality, que organizou o evento, irá em breve publicar um relatório com dezenas de recomendações neste domínio, que derivaram das conclusões do evento. Para mim foi um privilégio ter coordenado o evento e o relatório.

DEIXE A SUA OPINIÃO

Por favor insira o seu comentário!
Por favor, insira o seu nome aqui

-PUB-spot_img
-PUB-spot_img