Entrevista: António Abrantes reflete sobre o “Turismo em 50 anos de Democracia”

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Em entrevista ao TNews, António Abrantes, ex-secretário-geral da Confederação do Turismo de Portugal, reflete sobre a evolução do setor nas últimas cinco décadas e a visão de futuro, a propósito do lançamento da obra “Turismo em 50 anos de Democracia”. Organizado pelo próprio e com o selo oficial das comemorações dos 50 anos da Revolução, o livro reúne 50 textos de 50 autores, traçando o percurso do turismo em Portugal desde o 25 de Abril de 1974 até à atualidade.

Como surgiu a ideia de reunir 50 personalidades para refletirem sobre a evolução do turismo em Portugal ao longo destes 50 anos de democracia? Qual foi o seu objetivo?

    Decorre da recordação primeira de desígnios enunciados pelo Movimento das Forças Armadas, há 50 anos, consagrados nos 3 D’s: Democratizar, Descolonizar, Desenvolver. O primeiro, materializado, mas em constante via de aperfeiçoamento; o segundo efetivado, tendo determinado novos Estados soberanos; e o terceiro, incessantemente prosseguido, na ideia do progresso da nossa sociedade.

    Centrando o foco no “D” do desenvolvimento, emergiu a ocasião, para a possibilidade de realização de um balanço ou de indagação do que neste período conseguimos dar uns aos outros ou, para pleno cumprimento, o que, ainda, estamos a dever uns aos outros. 

    Da associação deste intento a um outro, o do exercício de uma cidadania plena, dar conta do contributo que o turismo prestou à sociedade, através do seu percurso nos seus mais relevantes domínios, expressando a sua trajetória, a sua evolução, os seus impactos positivos e negativos e os seus sucessos e insucessos. Em suma, notar o contributo do turismo para o desenvolvimento e progresso económico e social do nosso País neste decurso temporal de 50 anos.

    Eis, pois, o impulso de promover a iniciativa de uma publicação, não motivada por um gosto de glória individual, esta sempre vã, antes inspirada no dever cívico de, no plano de uma atividade, um conjunto de personalidades, direta e indiretamente ligadas ao turismo, com reflexão própria e independência, expressar a dimensão do contributo económico, social e cultural que o turismo prestou a Portugal. Desta motivação, nasceu o presente livro “Turismo em 50 anos de Democracia”.

    “Turismo em 50 anos de Democracia”, organizado por António Abrantes

    Quais são alguns dos principais temas abordados nos textos do livro?

      A estrutura do livro, algo sempre difícil de definir numa obra coletiva, obedece à explicitação, em primeiro lugar, ao desempenho do turismo português no plano macroeconómico, institucional e societal, evoluindo para as matérias relacionadas com o funcionamento do sistema turístico, concluindo com o tratamento da dimensão autonómica do nosso turismo. 

      O livro está, assim, repartido por dez partes que, no seu conjunto, abarcam as dimensões anteriormente referidas:

      • Parte I – Economia do Turismo e Políticas Públicas;
      • Parte II – Turismo, Sociedade e Diálogo Social;
      • Parte III – Ordenamento Turístico, Destinos e Valores;
      • Parte IV – Transportes, Distribuição e Logística Turística;
      • Parte V – Investimento Turístico, Financiamento e Fiscalidade;
      • Parte VI – Mercados Turísticos e Internacionalização; 
      • Parte VII – Hospitalidade;
      • Parte VIII – Cultura e Animação Turística;
      • Parte IX – Ensino, Formação e Investigação no Turismo;
      • Parte X – Turismo nas Regiões Autónomas.

      Cada parte é constituída por textos temáticos que lhe correspondem, com o encadeamento que resulta do tratamento sequencial dos temas que se integram na estrutura referida.

      De que forma é que a liberdade conquistada com o 25 de Abril impulsionou o desenvolvimento do turismo em Portugal? Qual foi o papel do turismo na projeção de Portugal a nível internacional desde 1974?

        A liberdade conquistada com o 25 de Abril potenciou notáveis progressos sociais e económicos. A título de exemplo: a criação do Serviço Nacional de Saúde, a redução radical da mortalidade infantil e do analfabetismo jovem, a par da universalização dos direitos sociais garantidos pelo Estado, sendo um deles o direito ao lazer, que tem no turismo como expressão maior as denominadas “férias”. 

        Muitas outras mudanças se podem assinalar, como o prolongamento da esperança de vida à nascença, a aproximação das condições de igualdade entre homens e mulheres e a amplificação do acesso ao Ensino Superior. 

        A própria abertura ao exterior, com o reforço das relações diplomáticas com a generalidade das demais nações, ajudou em muito o crescimento do turismo nacional e recetor (estrangeiro) em Portugal, sendo esta certamente mais uma dessas mudanças de enorme importância. As necessidades de acolhimento, daqui decorrentes, exigiram mudanças fundamentais, desde logo no planeamento turístico, na urbanização e construção, nas empresas e nos serviços, tudo isto num espaço de tempo particularmente curto.

        A liberdade alcançada obrigou o turismo a uma aprendizagem acelerada de métodos de trabalho, de organização e planeamento de serviços, de técnicas de gestão e de conhecimento de línguas e culturas.

        Os resultados dos impactos do turismo a nível económico são patentes e reconhecidos: criação de riqueza e de emprego, contributo para o equilíbrio da balança de pagamentos, indução de investimento em atividades a jusante, a montante e projeção de imagem institucional de modernidade e progresso económico e social do nosso país, a par da cultura, história e valores nacionais. Sem o turismo o conhecimento do mundo sobre Portugal seria exíguo. 

        Faltando, contudo, estudos sobre as implicações sociais do turismo em Portugal, podemos informar certamente ser ainda uma das atividades que mais contribuiu para a modernização da sociedade. A relação com os visitantes do nosso país, que se deslocam agora por todo o território nacional, alterou profundamente os hábitos e os costumes das populações residentes e proporcionou-nos maior conhecimento do mundo através das vivências e experiências tidas.

        Prevalecendo-me das palavras de António Barreto, contidas no prefácio do livro “Até a aprendizagem da democracia teve um acelerador: na verdade, o turismo parece fomentar a igualdade entre cidadãos, assim como o conhecimento dos direitos e dos pontos de vista do “outro”. Estes cinquenta anos foram a oportunidade do turismo para contribuir para o bem-estar, a liberdade, a democracia e a economia”. Convenhamos, não é coisa pouca.

        “A liberdade alcançada [com o 25 de Abril] obrigou o turismo a uma aprendizagem acelerada de métodos de trabalho, de organização e planeamento de serviços, de técnicas de gestão e de conhecimento de línguas e culturas”

        Quais foram os momentos mais marcantes para o turismo nestas cinco décadas?

          Não é fácil identificar “momentos”. Mais relevante tem sido o processo de evolução e de desenvolvimento do turismo. Em rigor deveríamos mais identificar etapas. Ainda assim, tentando ir ao encontro da pergunta nos termos em que está formulada, destacaria:

          • A capacidade, sempre reiterada, das empresas turísticas desenvolverem respostas, em modelos de negócios, gestão, organização, alargamento e diversificação dos mercados e dos seus segmentos e correspondente oferta de serviços, que integram a evolução dos comportamentos e motivações dos turistas e as dinâmicas concorrenciais globais;
          • A criação, a nível da macroestrutura institucional, de um departamento governamental (Secretaria de Estado do Turismo) com competências na definição de políticas públicas, em articulação próxima com os agentes económicos do turismo e a preservação do modelo de autofinanciamento dessas mesmas políticas;
          • A constituição da CTP – Confederação do Turismo Português – e o seu reconhecimento como parceiro social, permitindo aos seus representados participar na discussão e na definição de propostas com vista ao desenvolvimento económico e social da nossa sociedade;
          • A capacidade de criação de novos destinos turísticos (cuja conceção e lançamento remonta aos primeiros tempos de implantação da nossa democracia), fazendo uso de recursos endógenos e de estruturas regionalizadas de gestão e promoção turística do território; 
          • Por último, o recente reconhecimento da sociedade do papel e da importância que o turismo tem (que, aliás, sempre teve) na nossa economia, nas contas externas e no progresso de Portugal.

          Como imagina o futuro do turismo em Portugal nos próximos 50 anos?

            Não temos a resposta. Só podemos efetivamente imaginar, ainda assim, à luz do passado que o turismo tem e do que ele no presente representa.

            A aceleração do tempo e encurtamentos do espaço (a velocidade é, por certo, uma das maiores conquistas da humanidade), a par do aprofundamento tecnológico nas sociedades, trarão alterações significativas tanto na forma e nas infraestruturas de mobilidade; na dimensão e na natureza do espaço de visita (a terra terá, “à vista”, concorrência); na forma como passaremos a usufruir dos espaços (destinos turísticos); na função do ambiente de destino (espaço e mar) para o turista (resposta as suas motivações e anseios enquanto cidadãos); quanto, ainda, na sua gestão (maior sustentabilidade e autenticidade) e na proposta ética e socialmente responsável dos agentes públicos e privados do turismo.

            O turismo apresenta, assim, no espaço curto de tempo, enorme potencial de crescimento, até por razões presentes de reconfiguração geopolíticas e geoeconómicas em desenvolvimento, implicando alguma reestruturação nos destinos mundiais, e dá sinais crescentes de vir a ser mais valorizado pelo seu contributo às causas maiores da humanidade (preservação do ambiente, redução da pobreza, aceitação do outro, etc.) e não tanto somente pelo seu valor intrínseco e meramente económico.

            “O turismo dá sinais crescentes de vir a ser mais valorizado pelo seu contributo às causas maiores da humanidade e não tanto somente pelo seu valor intrínseco e meramente económico”

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