Cabo Verde viu Portugal regressar à segunda posição entre os principais mercados emissores em 2025 e quer continuar a reforçar a ligação aérea entre os dois países, com novas rotas da TAP e da easyJet, além do interesse de outras companhias em entrar na operação, disse ao TNews Jair Fernandes, presidente do Instituto do Turismo de Cabo Verde. Reforçou ainda que as recentes “desinformações” sobre saúde pública não travaram a procura e apontou para 2026 como um ano de recordes, impulsionado pela estreia no Mundial FIFA e no Rock in Rio Lisboa.
Segundo o responsável, “o ano de 2025 prova a tendência que se verifica um pouco por todas as ilhas”, sublinhando que o destino recebeu “cerca de 1.2 milhões de visitantes, representando uma variação positiva de 6% relativamente a 2024”. Também ao nível das dormidas foi alcançado um novo máximo: “foram cerca de 6.1 milhões de dormidas, com uma variação positiva de 8.3% relativamente ao ano de 2024”.
Para Jair Fernandes, este desempenho não surge por acaso. “Já era uma tendência previsível, considerando sobretudo as medidas de política do Governo de Cabo Verde, materializadas através do ministério do Turismo e Transporte”, afirma, destacando uma estratégia de promoção que passou por “mais participações em feiras, mais interação com os jornalistas especializados, mais participações em roadshows e B2B”.
O reforço da oferta aérea foi outro fator determinante. “O incentivo à conectividade culminou com a entrada das companhias de voo de baixo custo e um aumento considerável das rotas”, refere, apontando especialmente para o reforço das ligações a partir de Portugal e França.
“Cabo Verde é um destino seguro e em vias de consolidação, mas sobretudo é um destino que acolhe bem o mercado português”
Portugal recupera posição de destaque
O mercado português voltou a ganhar relevância entre os principais emissores. “Portugal recuperou novamente a segunda posição que tinha perdido nos anos anteriores”, afirma Jair Fernandes, explicando que o país representou “12% das entradas e 12,7% das dormidas” em 2025. “Se em 2022 e 2023, Portugal aparecia como terceiro e quarto [mercado emissor], respetivamente, no ano de 2025 o cenário muda-se completamente”, sublinha.
O Reino Unido continua na liderança, com cerca de 30% das chegadas, seguido por Portugal, Alemanha (10,5%), França (10%), Bélgica (7%) e Holanda (7,5%). Ainda assim, os números poderão ser mais expressivos. “Se somarmos as unidades de alojamento complementar, o número de entrada dos portugueses, sobretudo, pode ser ainda muito maior”, alerta.
Em termos geográficos, os turistas portugueses mantêm-se concentrados nas principais ilhas turísticas. “Continuam a ser as ilhas do Sal, com 74%, seguido da ilha da Boa Vista, com 19%”, indica. “Há também um aumento do fluxo para as ilhas de Santiago, Praia e São Vicente, destinos com aeroportos internacionais em Cabo Verde, impulsionado pela introdução de novas rotas e pela operação de companhias low cost.
Ainda assim, existem sinais de diversificação. “Há uma procura crescente para as ilhas montanhosas, como a ilha de Santo Antão, a ilha do Fogo e a ilha de Santiago, mostrando claramente que há uma estratégia relativamente à desconcentração territorial”.
“Estamos em negociações com uma outra companhia brasileira para voos regulares entre Praia e Salvador, na Bahia”
Mais voos e novas rotas em negociação
A conectividade aérea com Portugal é hoje considerada “consolidada”. Segundo Jair Fernandes, “só a TAP disponibiliza anualmente quase 350 mil lugares para cada dia, com voos bidiários para a cidade da Praia e para Sal, com aumento de frequências para Boa Vista e para São Vicente, ao que se junta o aumento de novas rotas”.
O verão de 2026 ficará ainda marcado pela abertura da nova rota Porto-Praia em julho, com três voos semanais diretos, “o que demonstra que não temos a concentração deste quantitativo apenas na região Centro-Sul de Portugal”, afirma, destacando também “o interesse do Norte, não apenas de turistas portugueses, mas também espanhóis, sobretudo da região da Galiza”.
Além disto, a easyJet “começou a operar agora no final do mês de março [a rota] Porto-São Vicente”, refere, o que significa que a cidade Invicta passa a dispor de ligações diretas a quatro ilhas do arquipélago, igualando a conectividade já oferecida a partir de Lisboa.
Também a Cabo Verde Airlines tem reforçado a sua presença, nomeadamente através de “voos charter Sal-Porto ou Sal-Lisboa, em parceria com os operadores portugueses”. O responsável sublinhou ainda que “há interesse de outras companhias, sem ser a TAP, em começar a operar” voos entre Portugal e Cabo Verde.
Espanha surge igualmente no radar. “Já temos sinalizado algumas companhias que se mostraram disponíveis e abertas para abrir rotas, como Madrid-Sal e Barcelona-Sal”, indica, lembrando que esta última já existia, embora com “alguma sazonalidade em períodos concretos”.
Fora do quadro europeu, a Cabo Verde Airlines anunciou recentemente o regresso da ligação aérea entre Praia e Recife, no Brasil. No entanto, Jair Fernandes adiantou que decorrem “negociações com uma outra companhia brasileira para voos regulares entre Praia e Salvador, na Bahia”. Trata-se de um serviço aéreo que “a curto prazo poderá ser materializado, considerando a potencialidade de Cabo Verde como destino de stopover”, explica.
A estratégia passa, aliás, por recuperar dinâmicas anteriores à pandemia. “Antes da Covid, na rota Fortaleza-Sal-Lisboa, Cabo Verde servia como stopover, o que cria uma dinâmica muito boa e essa é a nossa intenção de retoma”, sublinha, apontando para a necessidade de garantir “estas duas rotas com frequências semanais que justifiquem a aposta, tanto por parte das companhias, mas também por parte do Estado”.
Também no mercado norte-americano há desenvolvimentos em curso. “A Cabo Verde Airlines está a ultimar a retoma da rota Praia-Boston ou Praia-Providence, que já está na sua fase final de tratamento”, revela.
“Mesmo com as informações que saíram nos jornais, a procura tende a aumentar. Teremos uma boa surpresa para o primeiro semestre deste ano”
“Desinformação” sobre riscos de saúde pública não travam procura
Questionado sobre as recentes notícias internacionais que associaram Cabo Verde a riscos de saúde pública, Jair Fernandes não hesita em classificar a situação como “desinformação” ou “tentativa de ataque” ao destino. Segundo o responsável, a resposta foi imediata e articulada. “Logo após essas pequenas desinformações, foi acionado um sistema de alarme que comporta não só a criação de uma task force, integrando vários setores ligados à saúde pública e ao turismo”, explica.
Entre as medidas implementadas, destaca-se a criação de infraestruturas de controlo no terreno. “Foram criados laboratórios permanentes na ilha da Boa Vista e na ilha do Sal, que fizeram recolhas em hotéis, restaurantes e cadeias de abastecimento do setor do turismo”, refere, a par do reforço das ações de formação em higiene e manipulação de alimentos.
Em paralelo, está em curso um processo de certificação. “Estamos a trabalhar, assim como se fez durante ou logo após a Covid, o selo de certificação e de qualidade nas unidades, precisamente para restabelecer esta confiança e reforçar categoricamente que não há um surto de Shigella [bactéria] em Cabo Verde”, garante.
Apesar do impacto mediático, os efeitos na procura são, para já, reduzidos. “Mesmo com as informações que saíram nos jornais, a procura tende a aumentar. Teremos uma boa surpresa para o primeiro semestre deste ano”, revela, acrescentando que “até agora os impactos são residuais”.
A confiança do mercado tem sido reforçada também pelo posicionamento dos operadores. Jair Fernandes destaca que “tanto a Solférias como a Abreu foram categóricas, inclusive na comunicação social portuguesa, em afirmar que Cabo Verde é um destino seguro e que estão extremamente satisfeitos com o seu desempenho”.
“Há toda uma garantia que Cabo Verde é um destino seguro e em vias de consolidação, mas sobretudo é um destino que acolhe bem o mercado português”, conclui.
“Pela primeira vez este ano estaremos a participar no Rock in Rio Lisboa. Será um parque promocional não só da cultura de Cabo Verde, mas sobretudo de Cabo Verde enquanto destino”
Estratégia de promoção: do Mundial 2026 ao Rock in Rio Lisboa
Olhando para o futuro, as perspetivas são otimistas. “Estamos seguros que até ao final do ano bateremos todos os recordes, a começar pelo fluxo turístico”, afirma Jair Fernandes, antecipando também o surgimento de novos mercados emissores e a entrada de mais companhias aéreas.
Entre os projetos estruturantes, destaca-se a aposta no Mundial FIFA 2026 como plataforma de promoção internacional. “É a primeira vez que Cabo Verde participa no Mundial de Futebol. Já temos uma estratégia que deverá seguramente acelerar esta dinâmica e este fluxo”, explica, apontando exemplos de sucesso como o da Croácia, que ganhou projeção turística após integrar o campeonato.
No mercado português, o objetivo passa por reforçar a proximidade e presença, nomeadamente “pensar, num futuro muito breve, numa estratégia de representação local”, admite. “Não digo que seja o ITCV abrir um escritório em Lisboa ou no Porto, mas porque não trabalharmos de uma forma muito mais estratégica, com alguma empresa da representação de Cabo Verde em Lisboa”.
Por outro lado, destaca o papel do Turismo de Portugal como “principal parceiro” no país. “Mensalmente temos um programa de cooperação que permite não só a parte promocional, mas também a parte formativa”, refere.
A estratégia promocional inclui ainda presença em eventos de referência, como a BTL, bem como roadshows junto do trade. Para 2026, a grande novidade será a participação no Rock in Rio Lisboa. “Será um parque promocional não só da cultura de Cabo Verde, mas sobretudo de Cabo Verde enquanto destino”, afirma.
Com o evento a coincidir com o Mundial de 2026, o objetivo é maximizar a visibilidade. “Há uma estratégia que estamos a trabalhar para consolidar o destino no mercado português”, explica.
No horizonte está o reforço do peso de Portugal como mercado emissor. “A tendência é consolidar a posição de Portugal enquanto segundo mercado. Iremos, com todas estas ações, trabalhar para que possamos passar de 12% para um número ainda muito maior”, conclui.


