Sábado, Dezembro 6, 2025
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Entrevista: “Nos próximos anos, o foco das Viagens Tempo continuará a ser as pessoas”

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Ao longo de três décadas, as Viagens Tempo evoluíram de uma operação centrada em destinos nacionais e da Península Ibérica para se tornar um operador generalista, com oferta em praticamente todo o mundo, pautada pela qualidade dos serviços e pelo know-how da sua equipa. Em entrevista ao TNews, Ricardo Gordo, diretor comercial das Viagens Tempo, sublinha que nos próximos anos, o foco da empresa continuará a ser as pessoas: “investir na relação de proximidade que temos, mas também dotá-la de meios tecnológicos para tornar tudo mais rápido e mais eficiente”. Para o responsável, “sem qualidade e sem bom feedback dos clientes, todo o resto falha”, e é por isso que a empresa procura constantemente que a equipa seja cada vez mais conhecedora dos destinos e mais hábil, para podermos continuar a ser relevantes”.

Qual é o balanço do ano para as Viagens Tempo?
Este ano foi bom. Conseguimos cumprir os objetivos. Procuramos sempre mais, mas conseguimos subir em relação ao ano passado, o que é sempre bom. Essencialmente, conseguimos subir em número de passageiros, mais do que em vendas. Com o aumento de preços, muitas vezes o aumento das vendas torna-se inevitável, mas conseguimos aumentar o número de passageiros e estamos satisfeitos, moderadamente satisfeitos. O ano ainda não fechou, mas, até hoje, estaremos entre os 7 e os 8% de crescimento.

Que destinos têm registado maior procura?
Todos os anos há sempre variações. Este ano, um dos destinos que teve muita procura foi a Turquia. A Turquia subiu muito. O Egito voltou a recuperar um pouco depois do “deserto” que foram estes últimos anos: primeiro com a Covid, depois com a guerra em Israel. Este ano já voltou a subir um pouco, portanto foi interessante acompanhar a evolução no Egito, que é um destino de que gosto muito, mas ainda está longe de atingir o seu potencial.

A Turquia foi uma surpresa para mim, talvez fruto da substituição de Israel, Jordânia e Egito, porque, face às guerras, as pessoas acabam por escolher países da região mais estáveis politicamente. As Maldivas continuam a ser um dos produtos principais.

Do lado da América, temos assistido também a um crescimento no Peru, que voltou a registar uma subida de vendas interessante. E, em África, o safári foi este ano uma boa aposta: Quénia e Tanzânia venderam-se bastante.

“Este ano, um dos destinos que teve muita procura foi a Turquia.talvez fruto da substituição de Israel, Jordânia e Egito, porque as pessoas acabam por escolher países da região mais estáveis politicamente. As Maldivas continuam a ser um dos produtos principais”

A Europa continua a ser um dos vossos principais mercados. Quais os circuitos europeus mais procurados?
Itália sempre foi um dos circuitos mais procurados, pela história e pela cultura, e continua a ser. Acho que, nos próximos anos, dado o peso histórico do país, continuará a ser um dos circuitos mais procurados.
Depois temos França. Este ano tem-se notado uma grande procura pela Suíça, sobretudo pelos comboios, que têm registado muita procura. É um destino um pouco mais caro que os outros e, claro, isso faz com que se retraia um pouco, mas, a nível de procura pelo cliente final, noto muita procura pela Suíça. Também o Reino Unido, nomeadamente Escócia e Irlanda, tem registado cada vez mais interesse.

Quais são as suas expetactivas para 2026?
Julgo que 2026 vai ser um desafio. Nos destinos da Europa mais próximos tem-se registado um aumento de preços muito grande, e isso tem sido um desafio, porque tentar colocar certos países, como Itália ou França, no mercado tem sido difícil. Os preços têm subido muito, assim como os custos de hotelaria, transportes e afins, e isso poderá ser um desafio.
Por outro lado, talvez venhamos a assistir a mais vendas no continente asiático, o que já se tem verificado, e também em África, porque a Europa está bastante cara. Tem havido alguma substituição, nomeadamente pela Ásia, que tem registado muita procura nos últimos anos, e penso que essa procura continuará.

“Nos destinos da Europa mais próximos tem-se registado um aumento de preços muito grande, e isso tem sido um desafio, porque tentar colocar certos países, como Itália ou França, no mercado tem sido difícil”

No segmento de viagens mais longas — África, Ásia ou América — quais são as grandes apostas das Viagens Tempo para 2026?
Temos um produto diferente: um safari combinado com comboio, a terminar em Mombaça, no Quénia. A praia no Quénia não é muito conhecida aqui em Portugal, por isso vamos apostar nela em 2026. É um produto que vamos lançar porque é uma praia menos conhecida, mas a viagem torna-se mais fácil, evitando voos, e o comboio entre Nairobi e Mombaça atravessa parques de safari, oferecendo também uma experiência gira de observação de animais, além do parque.

Já lançámos uma versão exclusiva e temos também a regular. A exclusiva é para um grupo fechado com um guia a acompanhar, e na regular, as pessoas podem ir em grupos de duas, três ou quatro, sendo que o grupo é formado no destino.

Há mais alguma novidade?
Em África, temos essa novidade e vamos lançar também uma oferta mais ampla para o Egito. Vamos aumentar os circuitos no Egito, acrescentando a componente de praia, tanto em Sharm El Sheikh como em Hurghada, e oferecendo mais opções de circuito, com cruzeiros mais longos ou mais curtos. A abertura do Museu do Cairo também aumentou muito a procura e o interesse pelo destino.

“Em 2026, Temos um produto diferente: um safari combinado com comboio, a terminar em Mombaça”

Quais são os desafios de um operador da dimensão das Viagens Tempo, num mercado como o português?
O principal desafio é continuar a ser relevantes. É continuar a acrescentar algo ao produto que vendemos. Neste caso, tem que ser o nosso know-how, a nossa capacidade de identificar e selecionar os destinos interessantes, apostar na relação com a agência de viagens e continuar a ter esta disponibilidade e proximidade, porque só assim conseguiremos tornar-nos relevantes no mercado.

O que distingue as Viagens Tempo de outros operadores turísticos que atuam em Portugal?
É um operador familiar, não é de média dimensão, em que o foco são sempre as pessoas. E o que nos distingue dos outros operadores é mesmo isso: o foco nas pessoas. A equipa que tenho, felizmente, se manteve ao longo dos anos. Tenho pessoas com 28, 27, 25 anos de casa; no meio destes 31 anos, a maior parte acompanhou o projeto. Isso foi muito importante, porque existe uma verdadeira família dentro das Viagens Tempo, e isso faz com que todos os colaboradores pensem como nós e partilhem o mesmo ADN.

Essa característica ajuda também na relação com as agências, que são o nosso principal target, porque reconhecem do nosso lado essa flexibilidade, familiaridade e proximidade. Acho que isso tem sido mais importante porque, hoje em dia, todos vendem os mesmos destinos e hotéis; a diferença está nas pessoas, na forma como as tratamos e como as conseguimos acompanhar. E é isso que tentamos imprimir todos os dias.

“A Tempo é um operador familiar, em que o foco são sempre as pessoas. E o que nos distingue dos outros operadores é mesmo isso: o foco nas pessoas”

Ricardo Gordo, diretor comercial das Viagens Tempo
Ricardo Gordo, diretor comercial das Viagens Tempo

Relação com as agências

Como é que tem sido a vossa relação com as agências de viagens? Em que é que vocês apostam para melhorar essa relação?
Acho que é aquilo que já referi: a proximidade. E proximidade, como se mede? É estar sempre disponível para qualquer apoio que eles precisem, seja comercial, é ir a todas as convenções, tentar ser eu próprio presente. Quando há algum problema no destino, sou eu que dou a cara para resolvê-lo. Procuro também visitar todas as agências de viagens; todas são visitadas mais do que uma vez por ano pela nossa equipa comercial.

Procuro estar próximo, conhecer cada agente de viagens, perceber o que ele precisa, conhecer o nosso cliente e tentar dar-lhe o serviço adequado naquele momento. O truque, neste momento, é conseguirmos ouvir o que as pessoas precisam e adaptarmo-nos. Isso tem de fazer parte do ADN de uma empresa que quer crescer com as pessoas.Temos de saber adaptar-nos ao outro, ao que ele precisa, e nunca dizer “não”. É sempre adequar-nos a cada situação e tentar chegar a uma parceria que seja benéfica para ambas as partes.

Que tipo de experiências ou produtos exclusivos a Viagens Tempo procura oferecer?
Temos duas áreas de negócio essenciais. Temos partidas regulares que saem todas as semanas, para uma pessoa que quer ter uma experiência naquela data. São partidas com guia num circuito e vários circuitos diferentes em cada destino.

Depois temos algumas partidas exclusivas, que realizamos em datas específicas, em que o itinerário já é fechado, acompanhadas por um guia que sai de Portugal e só com portugueses. É um produto mais “chave na mão”, sempre com experiências diferenciadas, associadas a um jantar gastronómico, a um show cooking, a uma festa ou a um feriado importante no país.

Tentamos adequar esta oferta exclusiva. É um produto diferente porque já está fechado, com guia, destinado a clientes que têm mais receio e querem viajar acompanhados. Enquanto isso, o outro é mais adequado a clientes que querem mais liberdade e poder escolher, no destino, o que vão fazer.

Como é que a empresa se tem adaptado a esta digitalização do setor?
Temos investido em tecnologia, apesar do nosso foco ser sempre nas pessoas. Gosto sempre de frisar isso: a tecnologia tem o seu papel e é muito importante, mas deve ser usada como ferramenta e não como foco do negócio. Na minha ótica e no meu ADN, é isso que conta — a tecnologia é uma ferramenta.

Este ano estamos na linha da frente e vamos lançar uma solução nova: a consulta de voos. O nosso site será feito com acesso ao NDC das companhias aéreas. Além disso, vamos manter a possibilidade de reservar através dos GDS tradicionais, mas com o NDC teremos mais flexibilidade nas tarifas disponíveis no site para as várias viagens.

Temos apostado também cada vez mais em ferramentas CRM, para estarmos próximos das agências e conseguir perceber o perfil de cada uma delas, encontrando o produto que melhor se adequa às suas necessidades.

Qual é o perfil das agências que procuram a Viagens Tempo?
É muito variado, muito heterogéneo. Temos agências cujo foco é fazer pequenos grupos e procuram-nos pela proximidade: tentamos aconselhá-las sobre o que fazer em cada destino. Há agências que vendem muito e têm como foco clientes individuais, outras dedicam-se ao luxo, outras às luas de mel. É muito heterogéneo e temos de nos adaptar a cada cliente, encontrando a melhor forma de fazer parceria com eles.

O vosso serviço de assistência 24 horas é um ponto de diferenciação importante. Que feedback têm recebido dos clientes sobre esse acompanhamento?
Considero que é um dos pontos mais importantes da empresa, tanto que o número de 24 horas da empresa está sempre comigo, mesmo agora. Eu sou a primeira porta de entrada da empresa, o que reflete a importância que atribuo a este contacto.

Para mim, uma das coisas mais importantes para um cliente — e uma das vantagens de comprar numa agência de viagens — é sentir segurança. Ter o número comigo garante isso. Não é porque eu seja melhor; qualquer pessoa da minha equipa faria o mesmo trabalho, mas há dois motivos para eu estar à frente. Primeiro, sou decisor, e quando recebo uma chamada consigo também ligar para decisores do lado dos recetivos e resolver o problema rapidamente. Ou seja, tenho capacidade de decisão e de assumir custos de imediato. Se fosse outra pessoa da equipa, seria mais difícil tomar essas decisões na hora. Segundo, estar comigo permite-me ter feedback e noção, a cada momento, de quais os destinos que podem eventualmente ter problemas. Posso assim tomar medidas para evitar incidências no futuro.

Portanto, para mim é essencial. Enquanto conseguir, continuará a ser assim. É um desafio, mas gerível. Isso também me dá força para pressionar a minha equipa, para que haja cada vez menos incidências, e para que o meu telefone toque menos vezes.

Que podemos esperar da Viagens Tempo nos próximos anos — novos destinos, novos conceitos ou novas formas de viajar?
Novos destinos: tentamos todos os anos procurar novos destinos e há sempre novidades. Alguns são destinos que reabrem, porque o turismo está sempre a mudar. Os destinos de hoje podem amanhã estar fechados por algum motivo ou sofrer uma diminuição da procura, e temos de ser capazes de acompanhar isso. Mas também surgem novos destinos que temos de aproveitar.

Além disso, nos próximos anos o meu foco continuará a ser as pessoas: investir na relação de proximidade que temos, mas também dotá-la de meios tecnológicos para tornar tudo mais rápido e eficiente. Tentaremos sempre apostar na qualidade dos serviços. Sem qualidade e sem bom feedback dos clientes, todo o resto falha. E pugnar para que a minha equipa seja cada vez mais conhecedora dos destinos e mais hábil, para podermos continuar a ser relevantes.

A Viagens Tempo anunciou recentemente uma parceria com a empresa The Kit – Travel Marketing & Management, de Nuno Fouto, para representar comercialmente a marca na zona sul do país. O que motivou esta colaboração?
Motivou-nos a necessidade de estar próximos dos agentes de viagens. Já conhecia pessoalmente o Nuno Fouto e tinha muito boas referências do seu trabalho. Sabendo que ele tinha esta empresa de representação, pareceu-me muito interessante criar sinergias.

Apesar de ser muito recente, tem sido uma boa experiência. É uma pessoa que entende bem, pelo seu passado, as necessidades dos nossos clientes e também o produto. Conhece o produto e, por isso, acho que será uma boa parceria.

Está otimista quanto a 2026? Os portugueses vão viajar; qual é o seu grau de confiança para o próximo ano?
De personalidade, sou uma pessoa conservadora. Portanto, diria que estou conservador. Estou otimista, não estou pessimista de todo, mas acho que o otimismo exagerado às vezes pode criar tropeços. Acredito mais num otimismo moderado.

O nosso objetivo é conseguir responder aos clientes e aos seus pedidos da melhor forma possível e acompanhar a procura. O objetivo é sempre a subida de vendas, mas acredito mais em subidas moderadas e constantes do que em picos de crescimento, que muitas vezes são destrutivos.

31 anos ds Viagens Tempo

A Viagens Tempo tem já uma longa história no mercado. Como descreveria a evolução da empresa desde 1994 até hoje?
A empresa foi criada pelos meus pais, e o foco era vender costas espanholas, Portugal, Madeira e Açores. Mais tarde, começámos a vender circuitos europeus, e em 2002 decidimos expandir para o mundo inteiro, especificando grandes viagens noutros continentes.

Mais recentemente, com a chegada da Covid, apostámos nas praias do Índico — Maldivas, Maurícias, Seichelles — que também se tornaram um foco importante. Passámos por várias fases, e atualmente vendemos quase todo o mundo, exceto a Península Ibérica. O que começou como uma empresa focada em destinos próximos transformou-se num operador generalista, com oferta em praticamente todos os países, além das ilhas portuguesas.

A empresa tem um forte ADN familiar. De que forma essa característica influencia a cultura organizacional e a relação com os parceiros e clientes?
Neste momento, eu e a minha irmã estamos à frente da empresa. Mas, mais do que familiar, acho que é algo mais abrangente. É familiar porque os próprios colaboradores fazem parte da “família”: estando connosco há tantos anos, já existe uma ligação muito próxima. Portanto, familiar não significa apenas pertencer à mesma família, mas também a familiaridade com que encaramos os processos e tratamos as pessoas.

Nestes 31 anos, que marcos identificaria como os principais da empresa?
Foi quando deixámos de vender apenas Península Ibérica e Ilhas e nos lançámos para outros mercados. Depois, mais tarde, quando abrimos as portas ao mundo, tornando-nos um operador verdadeiramente generalista, que vende destinos em todo o mundo.

Não é provável que haja um retrocesso ou um retorno a ser um operador de nicho? Não é isso que se espera?
Acho que, dada a dimensão do operador, somos sempre um operador de nicho, porque há sempre procura especializada. Voltar a vender apenas um ou outro produto acho difícil, mas nunca digo nunca. Nos planos futuros, o foco é desenvolver mais e aumentar o leque de destinos, e não o contrário.

“Voltar a vender apenas um ou outro produto acho difícil, mas nunca digo nunca. Nos planos futuros, o foco é desenvolver mais e aumentar o leque de destinos, e não o contrário”

Encontra mais-valias em não ter apenas um monoproduto?
Sim. Primeiro, porque o cliente vai para um destino este ano e no ano seguinte quer experimentar outro. É bom termos mais ofertas para poder satisfazer o cliente final. Se tivéssemos apenas um produto, estaríamos limitados. Quanto mais produtos tivermos, mais fácil é oferecer algo que se adeque ao sonho do cliente naquele ano. Parece também mais interessante do ponto de vista comercial.

Ter apenas um monoproduto é um risco: se esse destino tiver algum problema, toda a nossa operação fica comprometida. Portanto, é melhor termos sempre várias possibilidades.

A pandemia foi um momento muito difícil?
Foi difícil, mas, felizmente, como a maior parte dos meus colegas diria — pelo menos falo por mim —, o Estado apoiou-nos bastante. Isso permitiu manter todos os postos de trabalho e, mesmo com perdas quase totais de vendas, procurarmos novos estilos. Foi na pandemia que começámos a apostar mais nas praias do Índico, o que nos permitiu sair um pouco da nossa zona de conforto e reinventarmo-nos. Às vezes há males que vêm por bem, e temos de aproveitar mesmo os momentos menos bons, tentar reinventar-nos e seguir em frente.

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