A 1ª edição do “HINTS – Heritage Inclusive Tourism Symposium” irá decorrer nos dias 11 e 12 de maio de 2022 no Teatro Ribeiro Conceição, em Lamego. Esta é uma iniciativa da Escola Superior de Tecnologia e Gestão de Lamego, do Instituto Politécnico de Viseu, em conjunto com a unidade de investigação Dinamia’CET, do ISCTE, em Lisboa.
Em entrevista ao TNews, João Vaz Estêvão, diretor da licenciatura em Gestão Turística, Cultural e Patrimonial do Instituto Politécnico de Viseu e coordenador da comissão organizadora do HINTS, fala sobre o conceito de “heritage inclusive tourism” e explica de que forma o turismo pode beneficiar e prejudicar o património de um país. João Estêvão afirma que é um evento para todos os profissionais do setor e estudantes de turismo e património, conta o que motivou a realização deste simpósio e avança os temas que vão ser discutidos nestes dois dias.
Como podemos definir o conceito heritage inclusive tourism, ou turismo inclusivo do património?
O termo “inclusivo” poderá ter um duplo sentido quando aplicado ao turismo. Tanto se poderá referir ao turismo que é pensado e estruturado de forma a ser inclusivo de turistas com algum grau de incapacidade motora ou cognitiva ou mesmo financeira ou, por outro lado, que promova um desenvolvimento socioeconómico verdadeiramente inclusivo das comunidades residentes. O primeiro foca-se na procura turística, estando intimamente relacionado com as noções de turismo acessível e de turismo social, que toma o acesso à prática de turismo como um direito e não um luxo. O segundo tipo de turismo inclusivo que referi não se centra na procura, mas antes nas comunidades de acolhimento, estando muito relacionado com o turismo de base comunitária. O mesmo concebe a atividade turística como um instrumento pensado para maximizar os benefícios socioeconómicos sentidos pelos residentes. Pelo atual contexto português ao nível do aproveitamento turístico do património cultural, bem como pelo facto de a Organização Mundial do Turismo assinalar, este ano, o turismo como fator de desenvolvimento inclusivo, o HINTS foca-se neste segundo tipo de turismo inclusivo, quiçá menos frequentemente abordado em encontros científicos.
“O termo “inclusivo” tanto se poderá referir ao turismo que é pensado e estruturado de forma a ser inclusivo de turistas com algum grau de incapacidade motora ou cognitiva ou mesmo financeira ou, por outro lado, que promova um desenvolvimento socioeconómico verdadeiramente inclusivo das comunidades residentes”.
De que forma é que o turismo pode beneficiar o património de um destino?
O turismo tanto pode ser o maior aliado do património cultural de um destino, como um dos seus maiores inimigos. Para que ele seja um aliado é essencial, em primeiro lugar, que o processo de decisão relativo ao aproveitamento turístico do património questione os objetivos subjacentes a tal aproveitamento. É apenas para gerar riqueza por parte de interesses externos, promovendo mão-de-obra local pouco qualificada e mal remunerada? É para aumentar a atratividade do destino, “abrindo as portas” do património a qualquer visitante e residente ou, pelo contrário, para o transformar numa unidade hoteleira, assim “fechando as suas portas” a todos os que aí não reservarem serviços hoteleiros? É para salvaguardar o valor simbólico inerente ao património existente ou para o adulterar por completo? Estas são algumas das questões que se devem colocar por parte dos decisores. Respondendo diretamente à questão, o turismo pode beneficiar o património se este respeitar, não apenas a sua traça arquitetónica (no caso do património construído), se mantiver ou mesmo recuperar o seu valor simbólico e mesmo de uso, e se integrar as comunidades locais e o seu legado cultural intangível nesse processo.
“O turismo tanto pode ser o maior aliado do património cultural de um destino, como um dos seus maiores inimigos”.
Pelo contrário, o património de um destino turístico pode ser prejudicado pelo turismo?
Nos últimos anos, temos assistido a iniciativas top-down com vista ao desenvolvimento de um turismo de interior baseado no património cultural edificado aí existente. Porém, em vez de uma abordagem baseada nos interesses e capacidades das comunidades locais e na criação de mecanismos de coordenação interna dos destinos locais, tem-se vindo a adotar, predominantemente, uma atitude simplista face ao desafio do desenvolvimento turístico. Esta atitude tende a considerar que qualquer iniciativa com vista ao crescimento do setor é inerentemente positiva para o seu desenvolvimento e das comunidades anfitriãs.
No turismo cultural, as atrações são frequentemente resultado de redes complexas de agentes e dos seus contributos, que incluem a interpretação do património, a criação de rotas, o desenvolvimento de estratégias de storytelling, recriações de histórias e/ou tradições, bem como um protagonismo das comunidades residentes no processo de estruturação de produtos turísticos. Alguns dos indicadores que permitem medir a atratividade de um destino turístico são, por exemplo, a estada média anual dos hóspedes na hotelaria, combinada com a taxa de ocupação-cama. Relativamente ao primeiro destes indicadores, enquanto as NUT II do Algarve, Lisboa e Madeira apresentaram, em 2019, uma estada média combinada de 4,4 noites, as NUT II do Alentejo, Centro e Norte registaram, no mesmo período, uma estada média de apenas 1,9 noites. No que diz respeito à taxa de ocupação-cama anual, a média nacional foi, em 2019, de 47,3%. Tal como esperado, enquanto as regiões de Algarve, Lisboa e Madeira ficaram acima da média, com mais de 50%. Já as NUT II do Alentejo, Centro e Norte registaram valores abaixo da média nacional, inferiores a 40%.
Estes indicadores constituem, por si só, evidências da necessidade imperiosa de estruturar, nas regiões cujo maior potencial reside no turismo cultural (Alentejo, Centro e Norte), produtos turísticos capazes de assegurar estadas médias e taxas de ocupação mais elevadas. Esses produtos deverão, naturalmente, assentar num aproveitamento turístico dos seus bens patrimoniais tangíveis e intangíveis que os converta em atrações turísticas (ou recursos turísticos primários). Porém, a visão simplista que tende a considerar qualquer tipo de iniciativa empresarial no turismo como inerentemente positiva tem vindo a originar, em vários pontos do país, um padrão de aproveitamento do património edificado que prejudica a competitividade turísticas das comunidades e o próprio património. Assim, em regiões que apresentam taxas de ocupação-cama e estadas médias elevadas, tem-se vindo a incentivar a sua reutilização como unidades hoteleiras de categoria superior (4-5 estrelas).
“A visão simplista que tende a considerar qualquer tipo de iniciativa empresarial no turismo como inerentemente positiva tem vindo a originar, em vários pontos do país, um padrão de aproveitamento do património edificado que prejudica a competitividade turísticas das comunidades e o próprio património”.
O atual entendimento do conceito de sustentabilidade triple-bottom-line contempla as dimensões económica, físico-espacial e social. Ainda que tenha, eventualmente, boas intenções, o padrão que insiste, invariavelmente, na conversão de bens patrimoniais em unidades hoteleiras é duplamente nocivo para o turismo enquanto atividade económica, para a componente físico-espacial do próprio património reutilizado, bem como para o bem-estar social das comunidades residentes. Em primeiro lugar, ao representar um acréscimo do número de camas disponíveis num destino turístico, este tipo de investimento agudiza o problema pré-existente das baixas taxas de ocupação do parque hoteleiro. Por outro lado, ao privilegiar a conversão de bens patrimoniais edificados em unidades hoteleiras (recursos turísticos secundários), está-se, inevitavelmente, a subtrair esses mesmos bens à potencial gama de atrações (recursos primários) de destino turístico, por défice de visão, interesse e/ou capacidade das entidades decisoras.
Em segundo lugar, a predominância de opções de reutilização adaptativa do património edificado que as converte em unidades hoteleiras de categoria superior tende a desvirtuá-lo de forma permanente. Tomando como exemplo o património conventual, os requisitos inerentes à classificação de uma unidade hoteleira de 4 ou 5 estrelas exigem quartos com uma volumetria incompatível com as dimensões das celas existentes nos conventos. Além disso, as opções estéticas de qualquer unidade hoteleira tendem a privilegiar o luxo e o conforto, em contraste com a frugalidade e mesmo austeridade inerentes aos complexos conventuais.
Em terceiro lugar, o bem-estar das comunidades residentes tende também a ser secundarizado pela lógica de reutilização do património cultural que predomina atualmente em Portugal. Assim, ao invés de incentivar a criação de micro e pequenas empresas turísticas que surjam do empreendedorismo de atores locais, prioriza-se a captação de investimento exógeno capaz de converter o património edificado em unidades hoteleiras de categoria superior. Adicionalmente, nestes cenários, o efeito virtuoso deste tipo de projetos na criação de emprego é discutível, uma vez que os empreendimentos turísticos de categoria superior tendem a contratar mão-de-obra aos níveis nacional e internacional e não apenas local, para irem ao encontro dos padrões da hotelaria internacional. Por último, esta lógica de reutilização do património edificado acaba por estabelecer uma cisão entre a população residente e o património ao qual deixa de ter livre acesso.

A 1ª edição do “HINTS – Heritage Inclusive Tourism Symposium” irá decorrer nos dias 11 e 12 de maio de 2022, em Lamego. O que motivou a realização deste simpósio?
Como referi anteriormente, o facto de ainda ser algo comum a tomada de decisões acerca do aproveitamento turístico do património, sem a análise e rigor, adulterando para sempre algum do mais valioso património cultural e transformando-o em negócios com benefícios duvidosos para as comunidades de acolhimento, bem como o facto de a OMT assinalar este ano o turismo como instrumento de desenvolvimento inclusivo dos residentes, foram motivos mais do que suficientes para a realização do 1.º HINTS. Ah, e a vontade de sublinhar cada vez mais a vocação da Escola Superior de Tecnologia e Gestão de Lamego ao nível da gestão do turismo cultural.
Esta é uma iniciativa da Escola Superior de Tecnologia e Gestão de Lamego, do Instituto Politécnico de Viseu, em conjunto com a unidade de investigação Dinamia’CET, do ISCTE. Porque decidiram fazer esta parceria?
O HINTS procurará salientar o papel inestimável do património cultural intangível para a competitividade da atividade turística de qualquer destino, assim complementando o património monumental construído, que é muitas vezes o único que se promove junto de potenciais visitantes. Neste âmbito, o turismo criativo, que possibilita aos visitantes o envolvimento em atividades de aprendizagem, pela mão dos residentes, de elementos identitários das comunidades locais, que poderão ser artefactos, como uma máscara do entrudo de Lazarim, por exemplo, ou manifestações culturais, tais como danças tradicionais. O Dinamia’CET liderou, recentemente, o Creatour, o projeto de investigação aplicada na área do turismo criativo mais ambicioso, até hoje, em Portugal. Por essa razão e pelo facto de já haver alguma investigação entre docentes da ESCOLA SUPERIOR DE TECNOLOGIA E GESTÃO DE LAMEGO-IPV e do Dinâmia’CET, pareceu-nos fazer todo o sentido organizar este evento em parceria.
“O HINTS procurará salientar o papel inestimável do património cultural intangível para a competitividade da atividade turística de qualquer destino”.
Quem é o público-alvo deste simpósio?
Em sentido lato, diria que este simpósio é para qualquer profissional ou estudantes nas áreas do turismo e do património, dada a excelência dos oradores que integram o programa, bem como a natureza diversificada das sessões. Para um público mais académico teremos as sessões plenárias. Já as sessões de showcase (de boas práticas) visam servir de eventuais exemplos a seguir pelos agentes turísticos regionais. Por último, mesas redondas, nas quais académicos, gestores de bens patrimoniais e agentes da oferta turística debaterão alguns temas atuais no âmbito da relação nem sempre harmoniosa entre turismo e património. Na primeira edição do HINTS optámos por ainda não abrir uma “call” de resumos científicos e apenas contar com oradores convidados. O objetivo é, por agora, colocar o HINTS no “mapa” dos eventos científicos internacionais na área do turismo cultural. Já a partir da segunda edição, abriremos certamente uma “call”, assim permitindo que investigadores de nacionais e de outros países se juntem a nós para apresentarem os seus trabalhos.
Que temas vão ser discutidos?
Os temas principais serão “o turismo patrimonial” e as comunidades residentes”; “os destinos turísticos culturais como redes colaborativas inclusivas”; “os riscos que desafiam o turismo patrimonial”; “o turismo criativo patrimonial inclusivo”; “modelos de reutilização adaptativa do património sustentável no turismo”. Além disso teremos como temas de sessões de show case projetos nacionais e transnacionais de referência no âmbito do turismo patrimonial.
Consegue adiantar o nome de algum orador, para além dos que já estão disponíveis no site?
Todos os oradores confirmados estão já disponíveis no site e são de referência nas respetivas áreas. Ainda assim, destacaria a Professora Marianna Sigala, uma das mais produtivas e reconhecidas investigadoras em turismo a nível mundial. Salientaria também o Professor Rodolfo Baggio, uma das autoridades mundiais no estudo das redes colaborativas em turismo. Poderia também destacar Nancy Duxbury, uma investigadora de topo ao nível do turismo criativo, ou mesmo Maria Gravari-Barbas, que tem vindo a analisar aprofundadamente os impactos negativos do turismo cultural nas comunidades residentes. Mas todos os restantes oradores são também de excelência nas suas áreas de investigação e aplicação.
Quantas pessoas esperam no evento?
Esperamos entre 300 a 400 participantes, apenas na modalidade presencial.
Em que dia terminam as inscrições?
As inscrições estarão abertas até à data de realização do evento e durante este (11 e 12 de maio), não havendo qualquer custo associado. Ainda assim, por motivos de gestão da capacidade do Teatro Ribeiro Conceição, agradecemos que os interessados se inscrevam com a brevidade possível, através do site do evento, em hints-symposium.com.
Se o simpósio tiver boa adesão e feedback, planeiam repeti-lo no futuro?
É já nossa intenção fazê-lo. Relativamente ao sucesso do evento, penso que a qualidade dos intervenientes, do espaço em que terá lugar, o Teatro Ribeiro Conceição, em si mesmo um bem patrimonial de grande valor, bem como da equipa da Comissão Organizadora da Escola Superior de Tecnologia e Gestão de Lamego e do Dinâmia’CET, são disso uma garantia.






