Quinta-feira, Setembro 29, 2022
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Entrevista: “Os slots vão ser uma dor de cabeça”

A Solférias apresenta na próxima semana a sua programação de inverno e fim de ano. Funchal, Brasil e Cabo Verde continuam a ser “um clássico” do operador para o réveillon e as vendas correm a bom ritmo. Nem a subida da inflação parece arrefecer por agora a procura, mas tudo pode ser diferente em 2023, com Nuno Mateus a reconhecer que o poder de compra vai cair e não há forma das viagens não encarecerem no próximo ano. Em entrevista, o diretor-geral da Solférias afirma que o destino Senegal é uma aposta que vai manter-se. Apesar de não prever a abertura de um novo destino em 2023, a verdade é que a Solférias nunca “fecha a porta a uma oportunidade”. Para já, o que Nuno Mateus prevê é uma “dor de cabeça” na obtenção de slots em Lisboa, mas não gosta de sofrer por antecipação. “Vamos ter que arranjar alternativas”.

O sucesso registado nas vendas da operação de fim de ano para Maceió e Salvador levaram a que os operadores turísticos (Solférias, Exoticoonline, Sonhando e Alto Astral) decidissem reforçar a oferta. Essa procura continua alta ao ponto de fazerem um novo reforço?

É difícil responder. Só colocámos o terceiro voo, porque os outros dois estavam praticamente cheios. Mas a verdade é que não há assim tanta disponibilidade. Ou seja, o fim de ano no Brasil está positivo. Se vai haver ou não outro voo, depende de um conjunto de fatores que não consigo responder neste momento. Até porque há uma componente de procura do Brasil para cá. Dependemos não só do que vendemos de Portugal para o Brasil, mas também do que se vende do Brasil para cá. É uma operação mais complexa. Mas já estou muito satisfeito com os três voos.

Como a taxa de repetição é muito grande para o Brasil no fim de ano, é normal que haja uma grande procura por Maceió para conhecer o novo Vila Galé de Alagoas, que já tive oportunidade de conhecer e está muito bem.

Como está a procura por Cabo Verde e Funchal no fim de ano?

Está num bom ritmo. O Funchal é tradicional. Neste momento, estamos envolvidos em quatro voos charters para o Funchal e ainda temos capacidade nos voos da TAP e o ritmo é bom. Em relação a Cabo Verde, teremos menos voos do que no ano passado. No ano passado, tivemos a grande vantagem de estarmos praticamente sós a vender Cabo Verde, ou seja, os outros mercados não arrancaram e aproveitámos o número de camas que existiam em Cabo Verde, claro que este ano não temos essa mesma facilidade. Tanto Cabo Verde, como o Funchal e o Brasil acabam por ser um clássico dentro da nossa oferta de fim de ano e que tem corrido muito bem.

“Há pessoas que ainda não estão a sentir na pele o aumento das taxas de juro. Não tenho dúvidas que o que está a acontecer não é bom e claro que o poder de compra vai cair”.

A subida da inflação e das taxas de juro não têm tido impacto na procura das viagens de fim de ano?

Impacto deve ter sempre, há números que não conseguimos medir. Se calhar há uma classe média alta que acaba por passar um pouco ao lado, para já. Claro que, em relação a 2023, a preocupação é muito maior. Há pessoas que ainda não estão a sentir na pele o aumento das taxas de juro. Não tenho dúvidas que o que está a acontecer não é bom e claro que o poder de compra vai cair.

Estiveram recentemente na Madeira, com o capítulo dos operadores da APAVT. Reuniram com as autoridades turísticas da Madeira. O que é que vos foi transmitido?

O Turismo da Madeira tem um dinâmica excelente, melhor é difícil, estão sempre a apoiar-nos, há realmente uma cumplicidade muito grande. A verdade é que, o mercado continental está a crescer bastante para a Madeira e a Solférias não foge à regra. Vamos crescer tanto em Porto Santo como na Madeira. Temos a vantagem de haver uma muito maior competitividade nas tarifas aéreas este ano. Isso faz toda a diferença. Qual é a nossa dificuldade? É a dificuldade que existe praticamente em todas as regiões deste país. Como a procura do mercado estrangeiro é extremamente elevada, as ocupações estão muito altas e é claro que os preços aumentam pela inflação e pela lei da oferta e da procura.

2023

“O Senegal é uma aposta para ficar nas Solférias”

Já é possível afirmar que vão manter a aposta no Senegal no próximo ano?

Sim, claramente. O Senegal é uma aposta para ficar nas Solférias.

Em voo charter?

Sim, em voo charter do Porto e de Lisboa. Aqui está um exemplo de como o charter ajuda na operação regular e vice-versa. Vendíamos muito pouco na rota de Dakar com a TAP e, hoje em dia, vendemos muito na rota de Dakar com a TAP e vendemos muito nos charters. Para fim de ano, além do que temos habitualmente contratado nos voos diários, temos um grande reforço com a TAP. Essa é uma vertente que sempre caraterizou a Solférias: temos a nossa capacidade dividida entre voos regulares e voos charters, isso dá-nos uma oferta mais equilibrada. A partir do dia 3 de outubro – última partida charter para o Senegal – vamos continuar com a TAP e reforçar nalguns momentos que julgamos que têm mais procura.

Senegal: “Se não houvesse um hotel com o qual os portugueses se identificassem, a operação não teria o mesmo sucesso”

O mercado precisa de destinos novos?

Sempre procurámos um destino de quatro horas, não é fácil encontrar. Houve naturalmente a feliz coincidência de uma cadeia como a RIU, com a qual temos uma ótima relação, abrir um hotel de grande qualidade, isso fez toda a diferença. Se não houvesse um hotel com o qual os portugueses se identificassem, a operação não teria o mesmo sucesso. O Senegal tem um conjunto de serviços, componente cultural e gastronómica histórica muito forte e as pessoas acabam por ficar surpreendidas quando viajam para lá

Ainda na senda de novos destinos, arriscariam abrir um novo destino no próximo ano?

O nosso objetivo principal é consolidar as operações que temos. Como disse, há destinos que ainda não estão no patamar de 2019, como Cuba, Indonésia. A partir daí, a Solférias sempre teve mente aberta para analisar as oportunidades que possam surgir. Se estou a ver a abertura de mais um destino? Não estou. Mas estamos em setembro. Apesar de termos a nossa programação habitual mais ou menos toda alinhavada, não fechámos a porta. Tem de ser uma grande oportunidade, porque lançar um destino novo envolve um risco tremendo. A verdade é que, colocámos num mercado com a nossa dimensão dois aviões 100% risco da Solférias.

Podem vir a dividir o charter do Senegal com outro operador?

Dificilmente. É um produto nosso e não estou a ver isso a acontecer.

À data de hoje o que está fechado para o próximo ano?

Praticamente tudo o que temos agora. Temos praticamente a programação toda fechada mas faltam detalhes. Queremos colocá-la à venda o mais rápido possível.

Aeroporto de LISboa: “A Solférias perdeu duas operações praticamente vendidas por falta de slots”. 

Com o aeroporto de Lisboa cada vez mais difícil de operar, equacionam ter mais oferta charter no próximo ano à partida do Porto?

Isso já aconteceu este ano, houve mais reforços do Porto do que em Lisboa. A Solférias perdeu duas operações praticamente vendidas por falta de slots. É claro que a tendência no verão passa mais pelo Porto do que por Lisboa, porque é difícil confirmar slots.

Em 2023 ainda mais?

A zona norte para nós sempre teve muita importância. O balanço dos nossos voos do Porto foi extraordinário. Por isso, se não temos capacidade de colocar em Lisboa, temos de colocar no Porto. Não temos outra alternativa. Desde que o mercado tenha capacidade para absorver. O que sempre fizemos foi lançar operações cedo, de maneira a podermos reforçar as mesmas. Para isso, temos de ter quartos de um lado e voos do outro.

A Solférias foi dos operadores que sempre apostou muito no Porto, Hurghada é do Porto, Djerba foi mais do Porto, Cabo Verde é equilibrado, só desequilibra mais na parte dos voos regulares de Lisboa. No verão, sempre apostámos forte no Porto. Mais, no ano passado, lançámos um charter no final de novembro do Porto para o Sal, este ano vai acontecer exatamente a mesma coisa, vamos lançar Porto-Sal a 28 de novembro. Apesar do Porto ser mais sazonal do que Lisboa, temos reduzido consideravelmente a sazonalidade no Porto nos últimos anos.

Vão manter o Egito?

Este ano conseguimos o Porto-Hurghada. Não conseguimos o voo de Lisboa. Os slots vão ser uma dor de cabeça. Essa é uma dificuldade, quando estamos a falar de um aeroporto que vai estar pronto daqui a não sei quantos anos, coloca tudo em causa.

O que é que pode acontecer?

Não gosto de sofrer por antecipação. Vamos ter que arranjar alternativas. Sabemos que todas as companhias aéreas que quiserem voar para Lisboa numa base anual, terão uma supremacia em relação aos charters que são sazonais. É para ir gerindo. A verdade é que nada de bom vai acontecer. Portugal vai perder uma fortuna, assim como todos os players de turismo, sejam os operadores, hoteleiros, restaurantes. Faz-me muita confusão que não se consiga ultrapassar esta novela de lançar um aeroporto que já devia estar concluído e ainda estamos na discussão de onde vai ser.

O aeroporto de Beja não é uma alternativa?

Beja, sempre o disse, fica muito longe. É muito complicado alguém deslocar-se de Lisboa e levar duas horas para lá e para cá, com famílias. Certamente vai escolher um destino onde possa sair de Lisboa. As pessoas não compram tudo, hoje em dia o turista é muito mais bem informado, mas seletivo, se houver um destino à partida de Lisboa, é esse que vai escolher. Os nossos governantes têm de uma vez por todas de decidir, porque a verdade é que se tivéssemos, neste momento, um aeroporto o país podia respirar de alívio, porque felizmente procura não falta.

Equacionam vender Caraíbas em charter? 

Não, está completamente fora de hipótese. O único foco que mantemos é Cuba, isso estamos sempre disponíveis para analisar. México e República Dominicana não é o nosso ‘core’. Ou seja, o importante é que, apesar de termos muitos destinos, temos de manter a nossa especialização. Há operadores no nosso mercado que fazem esses destinos muito bem e, portanto, aí não temos nada a acrescentar. Uma coisa é aproveitarmos a rota da TAP porque há clientes que querem mais dias ou menos dias. Temos os nossos destinos prioritários, vamos querer consolidar, se possível aumentar as nossas capacidades.

“Acima de tudo reconheço que a TAP é uma empresa muito importante para o país e muito importante para a Solférias”.

A relação com a TAP melhorou muito com esta nova administração.

Não tem comparação possível, durante anos fomos ignorados completamente. No início de 2020, tínhamos um problema com a TAP, que tinha absorvido os nossos slots, isso é publico, claro que pior do que esse momento era inimaginável, hoje em dia não, hoje em dia conversamos, há dificuldades, claro que sim, mas procuramos consensos, há uma mútua ajuda, é fácil conversar com a equipa da TAP, estou muito satisfeito com as pessoas que trabalham connosco. Acima de tudo reconheço que a TAP é uma empresa muito importante para o país e muito importante para a Solférias.

Apesar da relação com a TAP agora ser boa, procuram outros parceiros para operações charter?

Durante muitos anos, tivemos muitos charters operados pela TAP, neste momento não temos, porque a TAP não tem capacidade ou equipamento para os realizar, tudo o que vendemos com a TAP é em voos regulares. Em relação à parte dos charters, temos os charters diluídos em vários players. Fomos obrigados a isso também, em 2020 a operação podia ter corrido mesmo muito mal, porque basicamente, na altura, a TAP não nos respeitou.

As viagens vão ficar mais caras no próximo ano?

É impossível as viagens não ficarem mais caras no próximo ano, só não sabemos o nível de percentagem. Se há inflação em todo o mundo, claro que a nossa programação não foge à regra. Se o combustível está mais caro é inevitável que os programas não fiquem mais caros.

“O turismo tem sido exemplar tanto na sua capacidade de resiliência, de se recriar, acho que é difícil o turismo fazer melhor”.

Com o brutal impacto que a pandemia teve nas empresas turísticas, não seria de esperar que existissem mais fusões, falências e mudanças no setor da distribuição turística?

A verdade é que as empresas foram apoiadas e isso fez a diferença, se não tivesse havido apoios por parte do estado a maior parte de nós teria fechado. Em 2020, faturámos num ano o que tínhamos faturado em agosto de 2019. O mercado parou, reconheço que as empresas foram apoiadas, mas chegámos praticamente todos ao final da pandemia mais fragilizados, porque todos nós temos linhas de crédito para pagar no futuro. Faz parte da vida, precisávamos era de negócio para começar a pagar. No entanto, este é um ano muito difícil de gerir, porque de um ano para o outro não temos apoios e os custos disparam. Hoje em dia discute-se a questão do aumento de vencimentos. Ninguém sabe a resposta, porque uma parte importante na resolução deste problema passa pela política fiscal do governo.

O turismo tem sido exemplar tanto na sua capacidade de resiliência, de se recriar, acho que é difícil o turismo fazer melhor.

A Solférias já repôs a sua equipa?

No início de 2020 éramos quase 60, neste momento somos 45, e evoluímos tecnologicamente. Não significa que vamos voltar aos mesmos números de staff, reestruturámos, a empresa passou um momento complicado, na altura não conseguimos renovar os contratos a prazos, mas o núcleo duro está cá todo, contratámos alguns novos colaboradores. Estou tranquilo, muito contente com a equipa. Foi difícil e com uma equipa muito mais reduzida, nem tudo foi perfeito, mas estivemos sempre na primeira linha, bem ou mal sempre demos resposta, não nos escondemos, é fundamental termos uma boa relação com os agentes de viagens, de quem dependemos.

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