Foi durante a inauguração oficial da primeira loja da The100’s, realizada no passado dia 11 de julho, na Rua Sá da Bandeira, no Porto, que o TNews conversou com Rui Marques, fundador e CEO da marca. Inspirado numa coleção de miniaturas da KLM, o empresário criou um conceito que combina gifting premium, design português e experiências imersivas. Nesta entrevista, explica como nasceu o projeto, a aposta em transformar a loja numa atração turística e a ambição de expandir a marca para várias cidades na Península Ibérica a curto prazo.
Hoje é um dia importante para a The100’s. O que representa esta inauguração para si e para a equipa?
É o culminar de um projeto que começou há dois anos. Tudo começou nas minhas viagens para os Estados Unidos. Quando viajava na KLM, em primeira classe, ofereciam-me umas garrafinhas miniatura típicas da Holanda. Comecei a viajar com a KLM precisamente por causa dessas garrafinhas. Antes voava com diferentes companhias, mas, a partir desse momento, passei a escolher sempre a KLM.
Cheguei a ter um ficheiro Excel com o número de cada garrafinha, porque eram todas numeradas. Quando a hospedeira vinha ter comigo, dizia-lhe: “Essa já tenho, dê-me outra.”
Nós, em Portugal e na Europa, estamos inundados de souvenirs e gifts de baixo custo. Sempre achei que existia uma oportunidade para criar marcas que oferecessem produtos de gama média e premium aos turistas que visitam o nosso país.
Com a história das garrafinhas percebi uma coisa muito interessante: consumimos o conteúdo, mas a garrafa permanece como objeto de decoração. Pensei que poderíamos fazer exatamente o mesmo com produtos tão característicos de Portugal como o Vinho do Porto, o azeite ou o mel. Ou seja, criar um gift que, depois de consumido, continuasse a ser uma peça de decoração e uma recordação da viagem a Portugal. Foi assim que nasceu o conceito.
Falei com alguns amigos, que alinharam nesta aventura, e começámos a desenvolver toda uma linha de produtos inspirados nas origens portuguesas. Fomos buscar a cortiça, a faiança e outros materiais que fazem parte da nossa identidade.
Hoje é o culminar desses dois anos de trabalho. Como vimos da área tecnológica, esta é uma empresa de produto, mas tem por trás muita tecnologia, embora isso não seja visível para quem entra na loja. Desde o início quisemos fazer algo diferente. Existem milhares de marcas de produto, mas nós queríamos criar uma loja de experiências. Porque aquilo que os turistas verdadeiramente procuram quando viajam são experiências.
Queríamos transformar esta loja num espaço onde, independentemente de levarem ou não um produto, os visitantes saíssem com uma recordação.
Temos uma missão muito clara: toda a gente tem de sair feliz daqui, compre ou não compre. Foi por isso que trouxemos para dentro da loja empresas especializadas em experiências imersivas, normalmente presentes em museus. Queríamos transportar esse tipo de experiências para o retalho.
Hoje temos a Sala Infinita, o projeto do Cofre com inteligência artificial e várias outras experiências que podem ser vividas dentro da loja, independentemente da compra de um produto.
“Temos uma missão muito clara: toda a gente tem de sair feliz daqui, compre ou não compre. Foi por isso que trouxemos para dentro da loja empresas especializadas em experiências imersivas, normalmente presentes em museus. Queríamos transportar esse tipo de experiências para o retalho”.
O que é que um turista encontra aqui que dificilmente encontrará noutro espaço comercial?
A experiência. Aquilo que encontra aqui e dificilmente encontrará noutra loja são experiências imersivas que acabam por ficar na memória da visita.
Hoje em dia, o mundo procura experiências. Quando viajamos entramos em dezenas de lojas. Umas têm produtos de que gostamos mais, outras menos. Mas sempre que existe uma experiência diferenciadora dentro da loja, isso fica-nos na memória.
Era exatamente isso que queríamos criar: que o turista se lembrasse do tempo que passou na The100’s, independentemente de comprar ou não um produto.
Porque acredita que este conceito faz sentido para Portugal e para o turismo?
Temos uma visão mais alargada do que apenas o mercado português. O mercado dos gifts continua a ser pouco sofisticado, tanto em Portugal como em muitos outros países. Os países do sul da Europa vivem muito do turismo. Portugal é um excelente exemplo disso. Temos conceitos extraordinários na hotelaria e na restauração, mas na área dos gifts praticamente não existe diferenciação.
Estamos inundados de produtos muito semelhantes, muito low cost e pouco diferenciadores.
Que tipo de turistas pretendem atrair?
Fizemos um enorme esforço para conseguir produzir em Portugal e chegar a preços acessíveis. Os nossos produtos começam nos 19,99 euros e vão até aos mil euros. É uma gama muito alargada. Foi difícil conseguir manter elevados níveis de qualidade nos produtos mais acessíveis e, em muitos casos, estamos a sacrificar margem para que o turista possa levar um produto de qualidade. O nosso público-alvo é essencialmente médio e médio-alto.
Nestes primeiros dias de funcionamento verificámos que cerca de 50% dos visitantes são asiáticos e 30% americanos. São mercados que valorizam muito este tipo de produto e têm maior poder de compra. Agora começa outro desafio: investir fortemente em marketing digital e construir a marca. Mas há uma coisa que não pode falhar: um atendimento de excelência. Depois, estas marcas crescem muito através do passa-palavra, tanto presencial como digital.
“Nestes primeiros dias de funcionamento verificámos que cerca de 50% dos visitantes são asiáticos e 30% americanos. São mercados que valorizam muito este tipo de produto e têm maior poder de compra”
Já existem conversações com hotéis ou entidades do turismo?
Estivemos muito concentrados na abertura da loja e no desenvolvimento do produto. Produzir este tipo de peças em Portugal, feitas de forma artesanal e à medida, não é simples. Mas bastaram dez dias de loja aberta para começarmos a ser procurados por hotéis e empresas. Criámos uma área corporate que nem sequer estava prevista para esta fase inicial. Já tivemos pedidos de gifts para casamentos, empresas que organizam eventos nacionais e internacionais e vários hoteleiros interessados em trabalhar connosco.
Em setembro vamos organizar um evento dedicado ao segmento corporate porque percebemos que existe uma procura muito significativa. Esta semana participei num evento com cerca de 500 profissionais do turismo e muitos diziam exatamente a mesma coisa: querem recomendar aos turistas uma loja onde possam encontrar peças portuguesas com design, mas essa oferta praticamente não existe.
Acredito que esta área corporate terá um enorme potencial de crescimento e já estamos a criar uma equipa exclusivamente dedicada a esse segmento.
O objetivo é que a The100’s seja apenas uma loja ou também uma atração turística?
Queremos que a The100’s esteja no top 10 das atrações das cidades onde estivermos presentes.
O investimento de 1,5 milhões de euros nesta primeira loja é apenas o primeiro passo? Onde imagina a The100’s daqui a cinco anos?
Gostava de ver a marca presente em cerca de 15 cidades europeias. Este conceito foi pensado desde o início para uma expansão internacional. Naturalmente, adaptando os produtos à identidade de cada país. Em Itália poderemos trabalhar com limoncello. Em Londres poderá ser o gin. Queremos manter sempre a mesma lógica: produtos locais que façam sentido para quem visita cada destino. O conceito foi desenhado precisamente para ser adaptável às diferentes cidades e países.
“Já tivemos pedidos de gifts para casamentos, empresas que organizam eventos nacionais e internacionais e vários hoteleiros interessados em trabalhar connosco”
Lisboa será a próxima abertura?
Gostávamos muito que fosse. Mas a localização é absolutamente determinante. Procuramos apenas lojas de esquina, em localizações muito específicas, e isso pode demorar cinco dias ou cinco anos. Tanto podemos abrir primeiro em Lisboa como em Madrid, Paris ou Roma. Tudo dependerá da oportunidade certa.
Quais são os mercados prioritários?
Nos próximos dois ou três anos, a prioridade será a Península Ibérica. Madrid, Barcelona, Valência e Sevilha são mercados muito interessantes porque recebem mais de três milhões de visitantes por ano. No futuro queremos expandir para outras cidades do sul da Europa. São países com muita história e isso é muito importante para o nosso conceito. Queremos que as pessoas levem consigo um pedaço da cultura do país que visitam. Essa componente cultural é essencial para a marca e, felizmente, na Europa não nos faltam destinos com essa riqueza histórica.
“Nos próximos dois ou três anos, a prioridade será a Península Ibérica. Madrid, Barcelona, Valência e Sevilha são mercados muito interessantes porque recebem mais de três milhões de visitantes por ano”












