Quarta-feira, Fevereiro 8, 2023
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Entrevista: “Se a paz social não for construída, será difícil esta administração da TAP ter condições para continuar”

Em entrevista ao TNews, Pedro Costa Ferreira fala dos temas da atualidade, a começar pelas polémicas e greves na TAP. O presidente da Associação Portuguesa das Agências de Viagens e Turismo (APAVT) lamenta que a companhia seja utilizada como luta política. O aeroporto e os apoios anunciados pelo Governo no último congresso da associação são também temas em análise.

O novo secretário de Estado do Turismo, Comércio e Serviços, Nuno Fazenda anunciou o reforço de apoios às empresas, nomeadamente o Apoiar.pt, foi a resposta que a APAVT pretendia?

Foi, porque houve uma resposta concreta relativamente ao Apoiar.pt. Além de ser adequado ao momento do mercado, quase pode ser interpretado como uma resposta direta a uma reivindicação da APAVT, que nasceu num encontro com António Costa ainda em campanha eleitoral. Porque é que se adequa ao atual quadro? Porque as empresas, neste caso as agências de viagens, estão a regressar à normalidade e sempre dissemos, e comprovámos agora, é o momento em que exige mais tesouraria. Em segundo lugar, apesar das empresas estarem em franco estado de recuperação – julgo que o setor como um todo atingirá em 2022 números muito próximos, ou se calhar, um bocadinho superiores, aos de 2019 – as empresas estão muito fragilizadas do ponto de vista da tesouraria, e, terceiro ponto, estando fragilizadas do ponto de vista da tesouraria, não têm acesso a financiamento bancário. Não têm por endividamento excessivo, ou porque os processos de recapitalização, nomeadamente aqueles que aparentemente estão sediados no Banco do Fomento – não sei se estão sediados ou guardados a sete chaves – porque ninguém consegue aceder a eles. Portanto, por todo o quadro que está formado, o Apoiar.pt foi uma resposta objetiva e que vai ao encontro daquilo que a APAVT defendia. Em cima disso, os empréstimos do Turismo de Portugal que foram anunciados com uma dotação de 30 milhões já não estou tão seguro, porque ainda não estão no terreno, mas o modo como foram apresentados parecem-me também adequados a uma reivindicação da APAVT que tinha a ver com a capacidade de pagamentos dos endividamentos que foram efetuados ao longo da pandemia. De certa maneira, a resposta do governo, através do SETCS, vem ao encontro daquilo que eram os desejos da APAVT.

“Temos de ter quase a decência de não comentar hipóteses, promessas, anúncios, mudanças que tenham a ver com o aeroporto”

Não acredita numa decisão rápida para o aeroporto (disse-o no discurso de abertura do último congresso da APAVT), agora que o ministro Pedro Nuno Santos saiu do Governo, esse cenário parece ainda mais distante?

Temos de ter quase a decência de não comentar hipóteses, promessas, anúncios, mudanças que tenham a ver com o aeroporto. Penso que temos de apoiar projetos e ações concretas que nos tragam a solução que o país procura há décadas. No caso concreto da mudança de ministro, aquilo que espero que aconteça é que as obras na Portela arranquem rapidamente, porque parece, face aos processos que estão anunciados, que é a única coisa que pode melhorar, a curto prazo, as condições de operação, as condições de receção de turistas no aeroporto de Lisboa.

Entretanto, sem obras no aeroporto de Lisboa, prevê-se mais um ano com muitas dores de cabeça para a operação turística?

Mais do mesmo, ou pior do que o ano passado, a todos os níveis. A nível do incoming já sabemos o que vai acontecer, porque já está a acontecer, continuamos a recusar slots, que é algo perfeitamente inconcebível num país que só cresce por causa do turismo. Do ponto de vista do outgoing, e sobretudo das operações charter, vão existir muitas dificuldades em manter algumas rotas, apesar do aumento da procura. E, sobretudo, vão existir dificuldades na construção de novas rotas de charter, pelos mecanismos com que acedemos aos slots. Também do ponto de vista do outgoing, as dificuldades serão maiores do que ano passado. E, depois, quer para incoming, quer para outgoing, estamos a oferecer uma má experiência a todos os que passam no aeroporto, o que é algo de extraordinário, porque um país que é conhecido pelo modo como acolhe bem os turistas, a primeira impressão é má, à chegada ao aeroporto, e a uma última recordação também é má, à saída do aeroporto.

Como é que dentro da operação turística se acautelam para isso?

Não vejo muitas soluções concretas. Quer a TAP, quer as operações charters – é o sentimento com que fico, não é científico – estão a pensar e a tentar operar mais do Porto, o que em si mesmo não me parece uma má solução, até pode ser benéfico. Seria uma boa solução por causa de más razões.

Quanto à Nova Diretiva das Viagens Organizadas, o que preocupa a APAVT?

A atual Diretiva das Viagens Organizadas é uma diretiva anacrónica, injusta pela centralidade ao longo da cadeia de valor onde coloca a responsabilidade. A cadeia de valor é extensa e a responsabilidade nas Viagens Organizadas, quando alguma coisa corre mal, está perfeitamente identificada com as agências de viagens. O que preocupa todas as associações europeias e os seus líderes, com o acompanhamento da ECTAA, é que uma nova diretiva possa acentuar ainda mais esta centralidade, concretamente com a existência de restrições aos sistemas de pré-pagamento. Por que é que estamos preocupados com isto? Porque conhecemos não apenas a força do lobby do consumidor em Bruxelas, como a sua falta de objetividade. Se, no momento da crise da pandemia, fossem para a frente as primeiras e principais exigências do lobby do consumidor, ou seja, a inexistência de vouchers e reembolse-se tudo já, o que teria acontecido é que as empresas iriam falir e os consumidores iriam ficar sem os seus direitos. O que é que nós defendíamos? Deem-nos tempo para melhor cumprimos os interesses dos consumidores. É isso que temos medo relativamente a uma nova diretiva, é que a corda estique tanto, de uma forma irracional, que possa partir e isso seria mau para empresas e para os consumidores.

TAP

Quanto à TAP, a atual administração tem condições para se manter, depois destas sucessivas polémicas?

O nosso olhar sobre o problema é sempre fora da espuma dos dias. Não mudámos de opinião. O que a TAP precisa de cumprir é um plano de recuperação, consolidar o hub e, com isso, dar resposta ao principal desafio do turismo português que é o long haul. Para que isto tudo aconteça, precisa de uma pré-condição, que é construir uma paz social na TAP. Sem isto nada do resto pode ser conseguido. Se a TAP estiver em condições de realizar estes dois objetivos, a administração da TAP tem condições para continuar, se não conseguir realizar algum destes objetivos, vejo com dificuldade porque a TAP precisa urgentemente cumprir aquilo a que se comprometeu.

Do ponto de vista do plano de recuperação, as notícias não são muito objetivas, nomeadamente quando surgem comparações entre o que se está a fazer e o que está previsto. Mas, aparentemente, a TAP está a cumprir o plano de recuperação e atingirá resultados que, para alguns, até serão relativamente inesperados. Já quanto à paz social, é verdade que rapidamente as partes têm de mostrar que conseguem um entendimento.

É a segunda greve convocada no prazo de dois meses.

Começa a parecer que é difícil resolver. Acho que esse será o principal obstáculo para a administração da TAP e aquilo que a administração tem de provar que consegue construir. É certo que não consegue construir sozinha. Se a paz social não for construída, tenho alguma dificuldade em conceber que esta administração tenha condições políticas para continuar.

“Os políticos raramente ajudam a TAP, utilizam a TAP para questões políticas que não têm nada a ver com a TAP”.

A comissão de inquérito à TAP é essencial?

Daria pouca importância às brincadeiras políticas à volta da TAP, preferia concentrar nos aspetos económicos e na capacidade de recuperação da TAP, nenhuma das questões que vão ser colocadas e nenhuma das respostas que vão ser obtidas têm a ver com a parte económica, com o profissionalismo das pessoas que lá estão dentro, têm a ver com luta política “stricto sensu”, e com a utilização da TAP para luta política. Haverá mais qualquer coisa, mas tendo a sublinhar esta parte da realidade e a ser cuidadoso nas respostas. Porque é uma opinião menos consensual, e representando um setor, tenho que me preocupar com opiniões consensuais.

Os políticos raramente ajudam a TAP, utilizam a TAP para questões políticas que não têm nada a ver com a TAP.

O ano de 2023 é supostamente de privatização das duas companhias aéreas portuguesas (TAP e SATA). O que espera desse processo e que impacto terá para o turismo?

É óbvio que a SATA está mais próxima de acontecer, aparentemente. Nunca gostamos de comentar composições de capital. As nossas expetativas na privatização da TAP são as mesmas que tivemos na nacionalização. O que esperamos é que se consolidem processos. Do ponto de vista da TAP, que possa consolidar resposta ao plano de recuperação, consolidar o hub, e com isso dar resposta ao problema de long haul, que me parece que tem na TAP o principal protagonista.

Relativamente à SATA, a SATA tem que cumprir uma simbiose entre continuidade territorial e desenvolvimento turístico, e esperamos que esse processo de privatização permita consolidar essa harmonização.

O presidente da SATA disse que seria interessante haver um grupo turístico (agências de viagens) a concorrer à privatização da SATA. O que pensa o presidente da APAVT?

Também vemos com bons olhos, mas não altera a nossa posição de base. O que é importante para nós não é a posição de um grupo turístico na SATA, mas é o futuro da SATA, que esperamos que assegure a continuidade territorial e o desenvolvimento da cena turística açoriana. A eventual entrada de um grupo turístico no capital social, em teoria, permitiria ter um olhar mais agudo, mais objetivo, mas próximo da realidade relativamente ao desenvolvimento da cena turística. Por outro lado, eventualmente traria mais estabilidade porque um grupo turístico se entrasse na SATA seria certamente com interesses a longo prazo. Mas apenas isso, mais importante do que quem detém a SATA ou a TAP, e mais importante que ser um grupo turístico ou não, é a prossecução dos objetivos das companhias.

BAlanço Checked By Deco: “Diria que estamos otimistas e moralizados, a certificação não é a compra de um carimbo, é um trabalho, portanto, não é de um dia para o outro que as empresas são certificadas.”

Qual o balanço do programa Checked by DECO? Como foi a adesão? Já há agências com esta certificação?

Logo desde o início do processo que o balanço é positivo, porque se conseguiu uma certificação que é única no mundo, em direitos do consumidor e que é carimbada pela mais importante associação de defesa dos consumidores em Portugal. É algo que é único no mundo, é pioneiro, e está numa área muito importante para as agências de viagens, que é a área da transparência da informação e, concomitantemente, da confiança do consumidor.

Diria que estamos otimistas e moralizados, a certificação não é a compra de um carimbo, é um trabalho, portanto, não é de um dia para o outro que as empresas são certificadas. Hoje, temos dezenas de empresas em processo de certificação e temos três que já estão certificadas. Esperamos ter, ao longo do ano, mais empresas certificadas, nomeadamente, todas as que estão em processo de certificação e engrossar a entrada de novas agências de viagens para esse processo. Estamos otimistas e moralizados, porque julgo que é isso que vai acontecer e é para isso que vamos trabalhar.

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