Espanha registou um desempenho histórico no turismo em 2025, com forte contributo do mercado português, que voltou a bater máximos em número de visitantes e receitas. Em entrevista ao TNews, Raúl Castro Cano, diretor da Delegação Oficial do Turismo de Espanha e conselheiro de Turismo da Embaixada de Espanha, faz o balanço de um ano “espetacular”, analisa o crescimento do mercado português e aponta como prioridade a aposta em rotas aéreas para “destinos menos convencionais”.
Ao todo, 3,37 milhões de portugueses visitaram Espanha em 2025, num crescimento de 13% face ao ano anterior, o valor mais elevado da série histórica e o mercado emissor que mais cresceu no último ano. “2025 foi um ano recorde em termos de chegadas de turistas portugueses a Espanha”, afirma Raúl Castro Cano, acrescentando que também se atingiu “um ano recorde em termos de gastos, ultrapassando os dois mil milhões de euros”.
Este desempenho acompanha o crescimento global do destino, que recebeu quase 97 milhões de turistas internacionais, mais 3,5% do que em 2024. “O ano de 2025 foi verdadeiramente espetacular para o turismo em Espanha”, afirma o responsável, destacando resultados positivos “em termos de melhoria da sazonalidade e diversidade geográfica dos turistas que visitaram Espanha”.
Ainda assim, começa a verificar-se um abrandamento do ritmo de crescimento. “Observa-se uma ligeira desaceleração da taxa de crescimento. Isto não é uma grande preocupação para as autoridades turísticas espanholas”, garante, salientando que a prioridade passa agora por “aumentar os gastos dos turistas e melhorar a qualidade dos serviços turísticos”.
“Os verdadeiros desafios para o turismo em Espanha residem menos em atrair um grande volume de turistas e mais em proporcionar a melhor experiência possível a todos aqueles que desejam visitar o país”, acrescenta.
“2025 foi um ano recorde em termos de chegadas de turistas portugueses a Espanha”
Portugal cresce e consolida posição no ranking
Portugal ocupa atualmente a sétima posição entre os principais mercados emissores para Espanha, com uma trajetória de “crescimento significativo nos últimos anos”. O Reino Unido lidera, representando 26% do total de turistas, enquanto França e Alemanha apresentam quotas semelhantes, na ordem dos 11%, seguindo-se a Itália e os Países Baixos.
O mercado português destaca-se pela evolução recente. “O crescimento acumulado de praticamente 100% nestes cinco anos é realmente espetacular”, sublinha Raúl Castro Cano, recordando que os números atuais estão “muito superiores aos de 2019”, quando Espanha recebeu cerca de 2,8 milhões de turistas portugueses.
Os primeiros indicadores de 2026 reforçam esta tendência de crescimento. Em janeiro, Espanha recebeu 184.878 turistas portugueses, um aumento de 20,3% face ao mesmo mês de 2025, o maior crescimento entre todos os mercados emissores.
Ao nível dos destinos com maior procura, a proximidade geográfica continua a ser um fator determinante. A Galiza e a Andaluzia mantêm-se como as principais regiões para os portugueses, concentrando cerca de 30% das chegadas.
“Como os turistas portugueses chegam a Espanha sobretudo por via terrestre, as viagens de automóvel são muito procuradas”, explica, sublinhando que “os principais motivos pelos quais os turistas portugueses viajam são a cultura, o lazer, as visitas às grandes cidades e os roteiros turísticos”.
Paralelamente, surgem outras tendências de procura. “O interesse pelas ilhas está também a crescer entre os turistas que precisam de comprar um bilhete de avião e procuram destinos um pouco diferentes e mais sofisticados”, acrescenta.
“A expansão de novas rotas só será possível após a entrega destas novas aeronaves no final de 2026, 2027 e 2028”
Novas rotas no radar com foco em destinos menos convencionais
Ao nível da conectividade aérea entre Portugal e Espanha, Lisboa e Porto continuam a concentrar as rotas mais movimentadas, sobretudo operadas por companhias como a TAP Air Portugal, Ryanair e Vueling. Segundo o responsável, ligações como Porto-Madrid e Porto-Barcelona “têm crescido consideravelmente nos últimos anos”, refletindo o aumento da procura.
Apesar de considerar que “a conectividade com as principais cidades está bem coberta”, Raúl Castro Cano admite que há margem para diversificação. O foco passa agora por destinos secundários, com o apoio de companhias que apostam neste tipo de ligações. “O papel de companhias aéreas como a Volotea, que tem uma política de voos para destinos secundários, é importante”, afirma, destacando a nova rota entre Granada e o Porto, a ser inaugurada em outubro, como “um excelente exemplo desta possibilidade de ligar cidades portuguesas e espanholas em destinos um pouco menos convencionais”.
A criação de novas rotas está também dependente de fatores estruturais. “Existe um interesse significativo por parte das companhias aéreas em dialogar com os aeroportos espanhóis e explorar a possibilidade de diversificar as suas ofertas”, explica, apontando a gestão centralizada da rede aeroportuária espanhola pela Aena como uma vantagem, já que “facilita bastante a uniformização das taxas e regras” e permite “uma gama de descontos e incentivos promocionais”.
“Há potencial para crescimento assim que as companhias aéreas receberem os novos modelos de aeronaves que têm vindo a solicitar nos últimos anos. Devido aos atrasos na entrega de novas aeronaves à maioria das companhias aéreas europeias, praticamente só a Wizz Air e a Ryanair receberam um número significativo”, disse, salientando que, assim sendo, “a expansão de novas rotas só será possível após a entrega destas novas aeronaves no final de 2026, 2027 e 2028”.
Entre as regiões com maior potencial para novas rotas aéreas com ligação a Portugal, o responsável destaca o sudoeste de Espanha. “A região de Múrcia e Almería poderá ter um potencial significativo de desenvolvimento turístico e, atualmente, não existe nenhuma rota direta durante todo o ano”, afirma.
Também nas ilhas existem oportunidades. “Estão também a surgir opções nas Canárias, onde atualmente só existem voos de inverno para Santa Cruz de Tenerife e Las Palmas na Grã Canária, mas as outras ilhas também têm potencial para ligações aéreas”, acrescenta.
“A região de Múrcia e Almería poderá ter um potencial significativo de desenvolvimento turístico e, atualmente, não existe nenhuma rota direta durante todo o ano”
Ligações de longo curso impulsionam estratégia global
No plano internacional, Espanha tem vindo a reforçar a sua conectividade, sobretudo com mercados de longo curso. “Temos observado uma expansão das rotas de longo curso para Espanha, principalmente por parte das companhias aéreas do Médio Oriente”, refere. “Embora estejam atualmente inativas devido ao conflito com o Irão, aumentaram significativamente as suas operações em Espanha nos últimos três anos, facilitando a criação de hubs entre Espanha e a Ásia”.
Verifica-se ainda “um aumento substancial nas ligações com a América Latina. Destinos como o México e a Colômbia aumentaram drasticamente a frequência dos seus voos”, destaca.
Paralelamente, a evolução a nível das aeronaves está a abrir novas oportunidades. “Existe uma tendência de crescimento muito interessante relacionada com o desenvolvimento de novas aeronaves de corredor único para voos de longo curso, principalmente o Airbus A321XLR, o A320neo e aeronaves similares”, acrescenta.
No que diz respeito a mercados emergentes, o continente asiático assume um papel central. “Foram inauguradas novas rotas para a Ásia. Recentemente, lançámos uma rota para o Japão. A Korean Air inaugurou também rotas a partir da Coreia do Sul”, refere.
As transportadoras chinesas também estão a reforçar presença. “A China Eastern está a começar a operar a rota Chengdu-Madri, que complementa a sua ligação existente a partir de Chongqing”, explica.
“O mercado asiático é muito importante, não só para atrair turistas diretamente para Espanha, mas também porque Espanha serve de ponto de ligação para as rotas entre a Ásia e a América Latina”, sublinha. “A posição geográfica da Península Ibérica é a ideal para este trânsito intercontinental”.
Ainda assim, “a principal rede de ligações aéreas continua a operar a partir da Europa, onde companhias aéreas como a Ryanair e a Wizz Air são responsáveis pela maioria das ligações aéreas”.
Perspetivas para 2026 mantêm-se positivas
Quanto a 2026, as expectativas são de continuidade do crescimento, ainda que a um ritmo mais moderado. “A tendência é de crescimento sustentado. Prevemos uma ligeira desaceleração do crescimento num futuro próximo, dado que é muito difícil alcançar um crescimento expressivo após anos tão produtivos como os que se seguiram a 2019”, admite.
Ainda assim, os primeiros indicadores são encorajadores. “Os dados iniciais de janeiro e fevereiro também indicam um aumento significativo em comparação com os números dos dois primeiros meses do ano passado”, conclui, apontando para uma época de inverno positiva e com crescimento.



