Segunda-feira, Junho 17, 2024
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Há história no Ritz Four Seasons Hotel | Por Jorge Mangorrinha

O hotel da paz com o requinte de todos os tempos

Por Jorge Mangorrinha*

O Hotel Ritz resultou de uma “task-force” perfeita entre o governo do Estado Novo, o município de Lisboa e a iniciativa privada, para dotar a capital portuguesa com um hotel moderno de luxo ao encontro do “interesse nacional”. A ideia de Oliveira Salazar não só beneficiou os mais privilegiados durante o anterior regime político como, paradoxalmente, também propiciou o acolhimento de um contingente grande de portugueses obrigados a sair das antigas Províncias Ultramarinas após a descolonização. A história tem destas coisas espantosas, que, porém, não fez perder os traços e as ambiências originais no atual Ritz Four Seasons Hotel, um dos mais icónicos 5 estrelas do país.

Ao abrir a porta do quarto 528, o cortinado deslocou-se automaticamente para o canto da ampla janela e deixou-me ver todo o esplendor da vista sobre o Parque Eduardo VII, a rotunda do Marquês de Pombal e muito mais no horizonte onde acabam as copas das árvores e as coberturas dos prédios e o céu se inicia. Naquela varanda, num primeiro tempo após a chegada, relaxei com um Porto tinto, um pastel de nata e fruta variada, que eram parte de um simpático gesto de boas-vindas. Uns metros abaixo, uma tágide domina um terraço a meus pés. Assim como as tágides do Tejo foram inspiradoras de Camões, poderá ter sido esta obra do escultor João Farinha a musa que inspirou a obra continuada de tantos e tantos homens e mulheres que têm mantido a qualidade deste hotel. E, talvez, seja ela, também, a musa inspiradora deste texto.

Na década de 1950, em Portugal, o turismo dependia diretamente da presidência do Conselho de Ministros e não de um ministério em particular. Oliveira Salazar teve a ideia de equipar a cidade com um hotel de luxo: “um grande hotel de primeira ordem em Lisboa”. O grande crescimento económico verificado no pós-guerra reforçou o mercado turístico, tendo sido criado, em Portugal, o Fundo de Turismo, que tinha como objetivo financiar as entidades associadas à atividade. O primeiro contacto de Salazar foi com Ricardo Espírito Santo Silva e, por seu turno, este banqueiro e mecenas chamou ao projeto Manuel Queiroz Pereira. Este empresário viajou ao encontro dos grandes hotéis para conhecer o que de melhor se fazia no mundo e dinamizou a formação de uma Sociedade, com mais nove sócios, criada em 28 de agosto de 1953. A SODIM, S.A.R.L.  (Sociedade de Investimentos Imobiliários) passou a ser a entidade responsável, assumindo aquele empresário a liderança do projeto. No Plano Diretor, a Câmara de Lisboa previra um hotel de grande envergadura para este terreno municipal, vendendo-o, em hasta pública, à SODIM.

O nome “Ritz” foi negociado com a cadeia Charles Ritz, sendo criada a Sociedade Hotéis Ritz – Portugal. Charles C. Ritz foi filho do hoteleiro suíço César Ritz, o pioneiro da hotelaria moderna, ou “o rei dos hoteleiros e o hoteleiro dos reis”, que introduziu o conceito de hotel como um estabelecimento de serviço completo e personalizado.

A exploração do Ritz de Lisboa foi entregue à Companhia Les Grands Hôtels Européens, presidida pelo belga Georges Marquet, que seria o autor do projeto hoteleiro. A 24 de novembro de 1959 inaugura-se o hotel mais desejado por uma Lisboa atrativa para estadistas, aristocratas, diplomatas, banqueiros e os mais famosos artistas. O arquiteto-coordenador Porfírio Pardal Monteiro, o banqueiro Ricardo Espírito Santo e o construtor Diamantino Tojal não assistiram ao ato inaugural, por morte, o que não deixou de ser uma trágica realidade. Nesse dia inaugural, o Ritz recebeu 2000 pessoas, que assistiram a um baile deslumbrante, com a presença de duas orquestras. A partir desse dia a história tornou-se absolutamente rica em personagens e acontecimentos.

O Ritz Four Seasons Hotel é, formalmente, um bloco paralelepipédico, que domina a paisagem da envolvente, nele se destacam as varandas de ampla profundidade em toda a sua extensão. A zona retangular de base é composta por dois pisos que se desenvolvem numa das fachadas com amplos vãos rasgados por portas de vidro, que permitem iluminar o restaurante Varanda, no piso superior, e o Spa, no inferior. Uma das áreas mais surpreendentes, que obviamente não é de visita pública mas que acedi privilegiadamente, é a verdadeira máquina invisível do hotel. Trata-se dos pisos de serviços, racionalmente divididos por funções, com cozinhas, zona de lavagem, oficinas e alguns escritórios. A edificação deste hotel foi partilhada entre a empresa de Diamantino Tojal e a espanhola de Ramón Beamonte.

A visita guiada ficou programada para o dia da chegada, excelentemente realizada pela arquiteta Catarina Mendonça, responsável de Comunicação e Relações Públicas. E, talvez, não seja de admirar que seja alguém formado em arquitetura a ter esta tarefa especial. Na construção, decoração e no seu histórico, o hotel tem tido uma relação estreita com os artistas. Nele, trabalharam arquitetos, paisagistas, designers, pintores, escultores, ceramistas, decoradores e até um cinzelador. Na época, os grandes empreendimentos recebiam os contributos dos melhores artistas nacionais. Havia um cuidado extremo com o desenho como gesto integral. Um hotel de luxo também teria de ser um marco do turismo através da mistura eclética da arte em presença.

O arquiteto Leonardo Rey Colaço de Castro Freire, do SNI (Secretariado Nacional de Informação), foi nomeado para supervisionar o decurso da obra e lançar o procedimento para a integração dos artistas: Almada Negreiros, António Duarte, António Soares, Arnaldo Louro de Almeida, Arpad Szenes, Bartolomeu Cid dos Santos, Carlos Botelho, Carlos Calvet, Estrela Faria, Fred Kradolfer, Hansi Staël, Hein Semke, Joaquim Correia, Jorge Barradas, Jorge Vieira, Lagoa Henriques, Lino António, João Farinha, Luís Filipe, Margarida Schimmelpfennig, Maria Helena Vieira da Silva, Martins Correia, Pedro Leitão, Querubim Lapa, Rolando Sá Nogueira, Salvador Barata Feyo e Sarah Afonso. O mobiliário foi construído na Fundação Ricardo Espírito Santo e o cinzelamento é do mestre Amato.

O designer francês Henri Samuel foi o criador da decoração interior dos espaços públicos com maior visibilidade e que teve na notável competência dos construtores e artesãos portugueses o resultado de qualidade nos acabamentos, realidade que ainda hoje ali se vê e se reconhece. Na época, Samuel chefiava, em Paris, a Alavoine, distinta casa-ateliê de design e decoração, e para Lisboa traçou a combinação da forma clássica com peças experimentais, de acordo com o traço distintivo deste projetista.

Porém, não só destas artes se experiencia no hotel. Desde sempre, o Ritz tem sido famoso pela sua gastronomia. Presentemente, a novidade é o Cura, cuja autoria gastronómica é do jovem chef português Pedro Pena Bastos, premiado com uma estrela Michelin. Trata-se de um espaço com identidade própria, mas cuja decoração estabelece uma relação estilística, mas contemporânea, com todo o hotel, desde logo no desenho da porta, com motivos geométricos e abertura original, traçada pelo arquiteto Miguel Câncio Martins, tal como a decoração do espaço interior. Da comida, não falo em pormenor dos três menus do Cura – “Meia Cura”, de sete momentos, o “Origens”, com treze, e o “Raízes”, totalmente vegetariano –, porque foi no outro espaço, clássico e de origem, que os sabores do Ritz vieram ao meu encontro.

O restaurante Varanda, com um dos espaços exteriores mais exclusivos de Lisboa, tem no chef franco-canadiano Pascal Meynard o principal responsável pela linha de pratos de fusão entre sabores portugueses, franceses e mediterrânicos. No jantar “à la carte” tive dificuldade na opção gastronómica, mas a ajuda de João Antunes acabou por facilitar a escolha. A excelência do seu acolhimento personalizado e o seu fino trato fazem de um licenciado em história, sem formação académica em hotelaria e turismo, um recurso verdadeiramente importante para o hotel. Será, certamente, um entre outros colaboradores competentes deste hotel, que é uma verdadeira escola de hotelaria e de bem-receber. O lavagante de entrada e a carne da vazia maturada foram acompanhados de um tinto Reynolds proposto por Mário Ferraz e adequado tanto para a entrada como para o prato principal. Se a sobremesa folhada com recheio achocolatado foi uma verdadeira bênção dos deuses, então, para acompanhar um chá, chegou – certamente vindo do céu – um pequeno expositor metálico em miniatura com “petit-fours”. Este também foi o tempo para admirar uma das obras do mestre Lagoa Henriques que, para esta sala de prazer gastronómico, fez enormes cavalos-marinhos em bronze, simbolizando força e poder.

No percurso até ao restaurante, e de volta, o meu olhar fixou-se na arte exposta, designadamente na trilogia de tapeçarias de Portalegre, da autoria de Almada Negreiros, inspirada na constelação dos Centauros. Um espaço moderno e futurista, à imagem da personalidade deste pintor. No mesmo salão, estão as duas telas a óleo de Carlos Botelho, nas quais o artista desenvolve uma imagética criativa à volta das vistas de Lisboa, entre a realidade e a fantasia da capital portuguesa. Almada e Botelho são dois expoentes da interpretação artística de uma Lisboa de meados do século XX, que ficaram perenizados no mesmo espaço nobre do hotel. Bem perto, as “Sete Colinas de Lisboa” dão nome à escultura cerâmica de Estrela Faria, disposta numa das paredes entre a zona central e a entrada para o Cura, onde, aliás, não passa despercebido o trabalho mural “A Ceifeira”, mais uma obra notável de Almada, em esgrafitado, com continuidade no pilar, feito a ouro sobre pedra escura. Aliás, este pilar não é o único que transcende a sua função estrutural para ser uma verdadeira obra de arte, já que um outro, com cerâmica da autoria de Querubim Lapa e localizado junto à escada suspensa do salão nobre, é mais um exemplo de como Lisboa daquela época foi interpretada criativamente e de como este empreendimento foi um autêntico mecenas para estes artistas.

A presença da arte neste hotel é uma contínua descoberta e a sua descrição pormenorizada não cabe toda neste texto. O hotel lançou um aplicativo de arte gratuito para iPad que pode ser usado como curador de arte pessoal e guia turístico. Com recursos e ferramentas intuitivas e fáceis de usar, o aplicativo possui uma biblioteca de imagens em alta resolução e textos descritivos, proporcionando um fascinante passeio histórico e cultural por este notável acervo. Para os mais pequenos, a aplicação inclui um divertido e envolvente jogo de memória, desafiando-os a recordar as imagens das obras de arte.

Entre o jantar e o pequeno-almoço do dia seguinte sobrou o descanso, num dos quartos que tomou nova vida através de uma intervenção recente e cuidada para manter a essência do hotel, mas com novo impulso de modernidade. À mesa do pequeno-almoço, pela manhã e onde o sol se escondia mas a luz única da cidade acrescenta sempre brilho ao hotel, e vice-versa, encontrei os mais deliciosos ovos Bennedict e as mais surpreendentes panquecas. Mesmo sem estar alojado, vale a pena experienciar este prândio de um novo dia, tal como conhecer o “buffet” do almoço neste espaço, ou ainda a oferta de gastronomia japonesa localizada junto ao bar do piso do “lobby”.

Ocupei algum tempo da estada a observar o ritmo das partidas e das chegadas, e também o conforto que é estar em cada uma das áreas de descanso ou conversação. Uma sequência de espaços interligados concentra a vida quotidiana dos clientes, onde há gente formal e informal, afinal, o luxo democratizou-se ou simplificou-se, à semelhança, aliás, da imagem dual do hotel. À sobriedade exterior, alia-se uma explosão de sensações dadas pelos diferentes percursos, pelo requinte, pela arte, pelos sabores, pelas atenções e pelo respeito por uma história de sucesso e um livro de ouro pleno de celebridades.

Consta que os Rolling Stones pensaram mudar a letra de um dos seus êxitos após a sua experiência no Ritz. A satisfação foi de tal ordem que já não fazia sentido manter: “(I can’t get no) satisfaction”. E a prova do agrado do cliente é saber-se que, ano após ano, muitos hóspedes provenientes de todo o mundo voltam ao hotel. De uma ideia para Lisboa a cumprir o interesse nacional na época da sua criação e superando tempos difíceis da história do país, o Ritz Four Seasons Hotel é um dos monumentos mais representativos da modernidade do pós-guerra em Portugal – e da paz, através dos tempos – e um elemento arquitetónica e urbanisticamente icónico da cidade de Lisboa.

Clique para ver a fotogaleria do Ritz Four Seasons Hotel

*Jorge Mangorrinha é pós-doutorado em Turismo, doutorado em Urbanismo, mestre em História Regional e Local (especialização em Património) e licenciado em Arquitetura. Autor multifacetado recebeu o Prémio José de Figueiredo 2010 da Academia Nacional de Belas-Artes. Com experiência no planeamento turístico, em Portugal e no estrangeiro, exerceu, também, como gestor técnico na Parque Expo’98 e como presidente da Comissão Nacional do Centenário do Turismo em Portugal (1911-2011). Colabora com o T-News, tendo sido o autor da rubrica “A Biblioteca de Jorge Mangorrinha”, a que se segue “Há História no Hotel” durante 12 crónicas.

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