Sexta-feira, Abril 17, 2026
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Hoteleiros sem fronteiras | Com António Grácio, Director of Sales & Marketing do One&Only Reethi Rah, nas Maldivas

Com uma carreira construída entre o Algarve, Dubai, Europa e agora as Maldivas, António Grácio é diretor de vendas e marketing do One&Only Reethi Rah e o convidado da rubrica Hoteleiro sem fronteiras. À frente de equipas multiculturais e operações comerciais de grande escala, tem liderado projetos em destinos ultra-competitivos e de elevada exigência. Nesta conversa, partilha visão, aprendizagens e os bastidores de uma carreira que se foi moldando entre adaptação, rigor e ambição.

O que o inspirou a escolher a hotelaria como carreira?
Tendo nascido num destino turístico como o Algarve, aliado ao facto de grande parte da minha família estar ligada ao turismo em diferentes áreas, a escolha foi bastante natural, sendo a hotelaria uma das indústrias que domina na região. A hotelaria, e principalmente a área comercial, juntava tudo o que me motivava: contacto humano, ritmo dinâmico e a possibilidade de projeção internacional.

Começou em Portugal e agora trabalha nas Maldivas. Qual foi o momento em que percebeu que queria seguir uma carreira internacional?
Durante os primeiros anos no Algarve, percebi o impacto que profissionais estrangeiros tinham nas equipas e na forma de pensar. Quis ter essa mesma amplitude de visão. Quando surgiu a primeira oportunidade fora de Portugal, não hesitei.

Olhando para o seu percurso, desde o Vila Vita Parc, passando pelo Sheraton Algarve até ao One&Only Reethi Rah, há alguma experiência inicial que considere decisiva para a sua evolução profissional?
Todos os hotéis por onde passei contribuíram de forma única para o meu crescimento profissional. O Vila Vita Parc foi particularmente marcante, pois representou o meu primeiro contacto com a hotelaria de luxo e com uma cultura de serviço muito centrada na atenção ao detalhe e na criação de relações duradouras com os clientes. Já o período no Sheraton Algarve e na Jumeirah foi determinante por pertencerem a cadeias internacionais, onde aprendi a importância dos processos uniformes, da consistência operacional e da excelência através de standards bem definidos.

Mais do que cada experiência individual, o que realmente me motivou ao longo do percurso foi a oportunidade de evoluir continuamente e de me adaptar a novos mercados e culturas — desde Portugal a Espanha, Dubai e, mais recentemente, as Maldivas. Cada mudança trouxe novos desafios e aprendizagens que consolidaram a minha visão global da hotelaria de luxo.

“Mais do que cada experiência individual, o que realmente me motivou ao longo do percurso foi a oportunidade de evoluir continuamente e de me adaptar a novos mercados e culturas — desde Portugal a Espanha, Dubai e, mais recentemente, as Maldivas”

Trabalhou em hotéis na Europa, Médio Oriente e Maldivas. Quais foram as diferenças culturais mais notórias na hotelaria nestes mercados?
Cada mercado tem uma identidade muito própria, e isso reflete-se claramente na forma como a hotelaria é vivida.

Na Europa, a hotelaria de luxo baseia-se na tradição, na autenticidade e num ritmo mais descontraído, onde o foco está em criar experiências genuínas e duradouras.

No Médio Oriente, sente-se uma energia completamente diferente — é um mercado em constante crescimento e transformação, com uma forte aposta em inovação, design e diversidade. O grande investimento dos Emirados na hotelaria, aliado ao papel estratégico do Dubai como hub internacional — não só pelo volume de passageiros, mas também pela diversidade de equipas e hóspedes de todo o mundo — torna este mercado extremamente dinâmico e competitivo.

Já nas Maldivas, encontrei um contexto cultural mais reservado, mas também um destino que se tem afirmado como referência no segmento ultra-luxo. O que mais me surpreendeu foi o nível de personalização e atenção ao detalhe no serviço — os hóspedes passam praticamente todo o período das férias na ilha e no resort, o que cria uma ligação muito próxima entre a equipa e o cliente, exigindo um acompanhamento contínuo e altamente personalizado.

“O que mais me surpreendeu nas Maldivas foi o nível de personalização e atenção ao detalhe no serviço — os hóspedes passam praticamente todo o período das férias na ilha e no resort, o que cria uma ligação muito próxima entre a equipa e o cliente”

Como define o seu estilo de liderança?
Defino o meu estilo de liderança como colaborativo e orientado pelo exemplo. Acredito que liderar é inspirar através da ação — estar presente, trabalhar lado a lado com a equipa e criar um ambiente onde cada pessoa se sinta motivada a crescer e a superar-se. Valorizo muito o espírito de equipa, o sentido autocrítico e a capacidade de adaptação, incentivando os meus colegas a desafiarem-se constantemente.

Uma parte essencial da minha formação como líder veio da minha experiência no desporto coletivo — fui capitão da minha equipa de pólo aquático em Portugal durante mais de 15 anos. Essa vivência ensinou-me a importância da disciplina, da motivação, da assertividade e, acima de tudo, de saber jogar em equipa. São princípios que levo comigo para o contexto profissional todos os dias.

Que estratégias utiliza para motivar equipas multiculturais e de alta performance?
Para motivar equipas multiculturais e de alta performance, considero essencial conhecer e respeitar as diferentes culturas e compreender o background individual de cada colaborador. Essa sensibilidade cultural permite criar um ambiente de confiança, inclusão e comunicação aberta, onde todos se sentem valorizados.

Na área comercial, onde os resultados são determinantes, procuro alinhar toda a equipa em torno de objetivos comuns, assegurando que cada membro entende o seu papel e o impacto do seu contributo no sucesso coletivo.

Promovo também a adaptação constante às dinâmicas e desafios dos mercados internacionais — incentivando a flexibilidade, a partilha de conhecimento e a celebração de conquistas, por menores que sejam.

Acredito que equipas motivadas são aquelas que se sentem ouvidas, reconhecidas e desafiadas a crescer todos os dias.

“Na área comercial, onde os resultados são determinantes, procuro alinhar toda a equipa em torno de objetivos comuns, assegurando que cada membro entende o seu papel e o impacto do seu contributo no sucesso coletivo”

António Grácio, Director of Sales & Marketing do One&Only Reethi Rah, nas Maldivas
António Grácio, Director of Sales & Marketing do One&Only Reethi Rah, nas Maldivas

Como define o serviço de luxo atualmente? A perceção de luxo mudou nos últimos anos?
O conceito de luxo evoluiu muito nos últimos anos. O mundo passou por transformações profundas — desde a pandemia até às tensões geopolíticas — que alteraram a forma como as pessoas viajam e o que valorizam nas suas experiências.

Hoje, o luxo deixou de estar associado apenas à opulência e passou a estar ligado ao tempo de qualidade, à autenticidade e à conexão humana. Os viajantes procuram momentos significativos, experiências personalizadas e a possibilidade de partilhar tempo com a família e amigos — o que explica o crescimento das viagens multigeracionais.

Neste novo contexto, os profissionais da hotelaria de luxo precisam de ter grande capacidade de adaptação e de compreender que o verdadeiro luxo está em oferecer experiências genuínas, personalizadas e emocionalmente relevantes, mais do que em quartos exuberantes, spas icónicos ou restaurantes estrelados.

Qual foi o projeto mais desafiante que liderou até hoje e porquê?
O projeto mais desafiante que liderei até hoje foi a gestão da equipa de vendas de um cluster com 20 colaboradores, responsável por oito hotéis da Jumeirah no Dubai. Foi um desafio de grande escala, que exigiu coordenação constante entre diferentes equipas, marcas e mercados emissores, bem como uma forte capacidade de alinhamento estratégico com múltiplos stakeholders internos e externos.

Essa experiência representou uma fase de enorme crescimento profissional e pessoal, pela responsabilidade, exposição e pressão associadas à função. Aprendi a tomar decisões rápidas em contextos complexos, a gerir diferentes perfis de liderança dentro da equipa e a manter a motivação e o foco nos resultados, mesmo em períodos de grande exigência operacional.

Que lições retirou das experiências internacionais mais complexas?
Das experiências internacionais mais complexas, aprendi que, independentemente do hotel, da cadeia ou do destino que representamos, o que realmente faz a diferença é a atitude com que nos apresentamos como profissionais. A humildade para reconhecer de onde vimos, o respeito por todas as funções dentro da operação e a capacidade de nos adaptarmos a diferentes culturas e formas de trabalhar são fundamentais para o sucesso em qualquer contexto.

Essas experiências ensinaram-me também que liderar em ambientes internacionais exige escuta ativa, empatia e equilíbrio — compreender antes de agir, valorizar o contributo de cada pessoa e construir relações baseadas na confiança e no respeito mútuo.

“Das experiências internacionais mais complexas, aprendi que, independentemente do hotel, da cadeia ou do destino que representamos, o que realmente faz a diferença é a atitude com que nos apresentamos como profissionais”

Pode partilhar algum momento em que teve de improvisar ou resolver um problema inesperado?
Já parece que foi há bastante tempo, mas um dos momentos em que tive de improvisar e agir rapidamente foi durante o período da pandemia. O impacto foi imediato e obrigou-nos a reestruturar equipas e recursos num curto espaço de tempo, garantindo a continuidade das operações e a motivação das pessoas num cenário de enorme incerteza.

Tivemos também de reinventar completamente a nossa estratégia comercial, redirecionando o foco para o mercado nacional, criando ofertas adaptadas à nova realidade e desenvolvendo novas formas de comunicar e vender num contexto em que as viagens internacionais estavam praticamente paradas.

Foi um período extremamente desafiante, mas que reforçou a importância da agilidade, da resiliência e da criatividade na gestão — e, acima de tudo, mostrou-me o valor da união das equipas em momentos de crise.

Que competências considera essenciais para crescer na área de gestão hoteleira?
Comunicação, empatia, pensamento estratégico e capacidade de decisão. A técnica aprende-se, mas a liderança constrói-se com experiência e consistência.

Que conselhos daria a alguém que deseja trabalhar na hotelaria internacional de luxo?
O principal conselho que daria a quem deseja trabalhar na hotelaria internacional de luxo é ter a atitude certa. É fundamental saber esperar, aprender e crescer com cada etapa, mantendo sempre a humildade e a disponibilidade para trabalhar em qualquer contexto, sem espaço para egos.

Na hotelaria de luxo, um diploma ou um título não definem o sucesso — o que realmente faz a diferença é a resiliência, a capacidade de trabalhar em equipa, a atenção ao detalhe e uma mentalidade positiva, mesmo nos momentos mais desafiantes.

Trabalhar neste segmento é uma maratona, não um sprint — requer consistência, paixão e a vontade genuína de servir e criar experiências memoráveis para os outros.

“O principal conselho que daria a quem deseja trabalhar na hotelaria internacional de luxo é ter a atitude certa. É fundamental saber esperar, aprender e crescer com cada etapa, mantendo sempre a humildade e a disponibilidade para trabalhar em qualquer contexto, sem espaço para egos”

Como imagina o futuro da sua carreira nos próximos cinco anos?
Nos próximos cinco anos, imagino a minha carreira a evoluir para um papel mais estratégico e global na área comercial, idealmente dentro da Kerzner. A cadeia está em fase de crescimento, com várias aberturas no pipeline, o que certamente trará novas oportunidades desafiantes. Quero continuar a desenvolver-me profissionalmente, assumir responsabilidades de maior escala e contribuir para o sucesso global da organização, enquanto aplico a experiência adquirida em diferentes mercados e destinos internacionais.

Há algum ritual ou hábito diário que considere fundamental para manter a motivação e o foco?
Como fui atleta a vida toda, para mim o desporto é fundamental para manter o equilíbrio emocional e a energia diária. Além disso, considero extremamente importante desconectar nas horas livres, aproveitando o tempo com a família, amigos ou exercendo qualquer hobby.

Numa indústria com um ritmo tão acelerado como a hotelaria, a capacidade de gerir o tempo livre de forma consciente é essencial para manter o foco, a motivação e o equilíbrio emocional. Estes hábitos ajudam-me a regressar ao trabalho com clareza, energia e a plena capacidade de liderar e inspirar a equipa.

Qual é a lembrança que mais o conecta à hotelaria e ao início da sua carreira?
No primeiro ano de faculdade, trabalhei como nadador-salvador no Vila Vita Parc durante umas férias de verão. Foi a minha primeira experiência prática no setor e mostrou-me desde cedo que atitude, dedicação e vontade de aprender, independentemente da função, podem abrir muitas portas, porque mais tarde foi-me dada a oportunidade de regressar como estagiário e daí comecei a minha carreira profissional na hotelaria.

*“Hoteleiros sem Fronteiras” consiste numa série de entrevistas com profissionais portugueses que desenvolvem a sua atividade no estrangeiro, procurando explorar os seus percursos profissionais e as experiências que têm adquirido em diferentes mercados.

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