Quarta-feira, Julho 17, 2024
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Hoteleiros sem fronteiras | Com Eduardo Peregrino, Director of Operations Support da Belmond no sul da Europa

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Na mais recente edição da rubrica “Hoteleiros Sem Fronteiras”, conversámos com Eduardo Peregrino, atualmente diretor de Apoio às Operações para o Sul da Europa da Belmond. Além de abordar os desafios e conquistas ao longo da sua carreira, Eduardo Peregrino falou sobre a adaptação a diferentes contextos culturais e as suas expectativas para o futuro na Belmond. Descubra como a sua paixão pela hotelaria e a sua dedicação contínua o levaram a alcançar um papel de liderança na indústria de luxo.

Como foi a sua trajetória profissional e como chegou à posição de Diretor de Apoio às Operações para o Sul da Europa da Belmond?

Ganhei o gosto pela hotelaria quando tinha cerca de 15 anos e comecei a trabalhar como empregado de mesa numa quinta para eventos no Alentejo. Quis o destino que alguns anos mais tarde viesse a casar nessa mesma quinta (o serviço e a comida eram excelentes).

Conciliei sempre os estudos com o trabalho, normalmente em part-time, à noite e aos fins de semana, sempre ligado à área de F&B. Quando concluí a Licenciatura em Estratégia e Gestão Turísticas no IP Beja, fiz um estágio de um ano no Vila Vita Parc Resort & Spa. Aqui tive a oportunidade de passar por diversos departamentos, desde o F&B, alojamentos e S&M, e mais tarde fui contratado como coordenador de grupos, onde fiquei por cerca de três anos. Foi no Vila Vita que dei os primeiros passos neste mundo fantástico da hotelaria de excelência e tive a sorte de poder aprender com excelentes profissionais.

Em 2011, decidi candidatar-me a Sales Executive no recém-inaugurado Vale d’Oliveiras Quinta Resort & Spa. A passagem por este resort permitiu-me crescer passo a passo e ocupar diversas posições, desde S&M Manager, Operations Manager, Deputy GM e Diretor Geral entre 2017-2022, ano em que vim para Itália. Pelo meio, ainda tirei um Mestrado em Direção e Gestão Hoteleira na Universidade do Algarve.

Outras empresas que fizeram parte do meu percurso inicial, embora por breves tempos, foram o Martinhal Resort em Sagres, grupo Porto Bay e a Malhadinha Nova Country House & Spa.

“Para mim, é uma grande conquista podermos ter o privilégio de trabalhar com quem partilha a mesma missão, visão e valores”

Quais foram os maiores desafios que enfrentou ao longo da sua carreira na hotelaria de luxo? E quais foram as conquistas mais significativas?

Antes de mais, convém esclarecer que fiz todo o meu percurso em hotéis de 5 estrelas, mas nem sempre no segmento de luxo. São posicionamentos distintos.

O maior desafio em geral foi, sem dúvida, o período da pandemia. Todos tivemos de nos adaptar e passar a gerir uma situação que era desconhecida no mundo. Foi um período complexo, tanto a nível profissional quanto familiar, já que a minha esposa é enfermeira e, nesse âmbito, os seus problemas eram bem mais complexos do que os meus.

Gerir as expectativas das nossas equipas, dar-lhes respostas sem saber exatamente o que nos esperava e por quanto tempo, “esticar” o cash flow para não entrar em incumprimentos, gerir fornecedores que também estavam numa situação difícil e estar à frente de um resort “sem rede” nem margem para erro, foi um enorme desafio (e ainda ter de usar máscara!).

Contudo, foi uma excelente aprendizagem e prova de superação. Fico muito contente que, apesar das dificuldades, não deixamos ninguém para trás.

Já sobre a maior conquista profissional, foi a minha vinda para o grupo Belmond.

Não por ser o passo mais recente ou o mais elevado em termos de desafio e responsabilidade, mas sim por ter trabalhado durante anos com este objetivo em mente. A sorte dá muito trabalho.

Para mim, é uma grande conquista podermos ter o privilégio de trabalhar com quem partilha a mesma missão, visão e valores.

Como foi a transição de trabalhar num resort no Algarve para um hotel de luxo numa estância de esqui em Itália e, agora, para a Belmond? Quais as principais diferenças que encontrou?

Passar de resorts de praia e golfe no Algarve para uma estância de esqui de luxo em Itália, depois para um hotel de cidade e agora para um ambiente corporativo, é uma verdadeira montanha-russa.

As principais diferenças têm a ver com o posicionamento, o perfil de cliente, os parceiros e até questões ligadas com a gestão das energias e logística (na estância de esqui era um dos principais desafios). Depois, há questões que são transversais a todos os destinos por onde passei, como, por exemplo, a dificuldade em contratar, alojamento para staff, questões de comunicação, entre tantas outras que fazem parecer que o mundo da hotelaria é muito pequeno.

Um exemplo muito prático: a gestão de um economato ou fornecedores em Veneza ou numa estância de esqui acarreta desafios e custos que no Algarve não existiam.

Outra diferença tem a ver com os budgets disponíveis, investimento na formação, maneiras diferentes de ver os problemas que normalmente estão ligados a questões culturais.

A vantagem que trago de Portugal é que aprendi a fazer muito com pouco e isso ajuda-nos a ser criativos (generalizando, claro).

Por fim, o perfil de cliente é claramente diferente, falo de preços médios e que levam também ao elevar das expectativas. Portugal não tem (ainda) a mesma competitividade de outros destinos no segmento de luxo e isso, a meu ver, está ligado ao facto de haver pouca oferta. Isso faz com que não sejamos vistos como um destino de luxo. Seria necessário atrair mais marcas neste segmento. Mas claro, temos alguns bons exemplos de norte a sul do país.

“Fazer a diferença num ambiente que já é excecional e é sempre um enorme desafio. É como entrar numa equipa de Liga dos Campeões e ter de marcar golos ou defender bem. Mas a pressão faz parte do nosso dia a dia, quem trabalha nesta área sabe disso”

Castello di Casole, um hotel da Belmond na Toscana

Quais são as suas expectativas e objetivos principais ao assumir o cargo de diretor de Apoio às Operações para o Sul da Europa da Belmond?

Fazer a diferença num ambiente que já é excecional e é sempre um enorme desafio. É como entrar numa equipa de Liga dos Campeões e ter de marcar golos ou defender bem. Mas a pressão faz parte do nosso dia a dia, quem trabalha nesta área sabe disso.

Entrar numa nova equipa é sempre positivo, pois trazemos ideias frescas, novas formas de fazer, motivação extra. Existe sempre margem para melhorar e otimizar.

O meu objetivo é contribuir para melhorar ainda mais as nossas unidades, seja ao nível dos resultados financeiros, performance das equipas ou qualidade do serviço. Quero ser um bom suporte e elo de ligação entre o nosso Vice-Presidente e todos os Diretores Gerais da minha região.

Num nível mais amplo, alguns dos principais objetivos traçados são: ter o melhor hotel do Competitive Set em todos os destinos onde estamos presentes; ser a marca de viagens no segmento de luxo mais desejada do mundo; ter as melhores condições de trabalho do nosso segmento; remodelar todas as nossas unidades do Sul da Europa nos próximos 4-5 anos.

Portanto, muito para fazer e um longo caminho ainda por percorrer.

“Gosto da chamada “hotelaria clássica”, mas capaz de acompanhar as novas tendências, que seja exclusiva, requintada e elegante, com uma história para contar, que crie experiências memoráveis e consiga tocar os sentidos dos hóspedes, que seja autêntica e ‘sem pressa’”

O que mais o motiva no seu trabalho diário na hotelaria de luxo?

É extremamente motivador poder trabalhar num ambiente com o qual me identifico e onde me sinto bem. Torna tudo mais fácil e natural.

O meu dia a dia tem de tudo, menos rotina, tenho a oportunidade de ficar nos melhores hotéis do mundo, sobre os quais ouvia falar quando era pequeno. Hoje, por exemplo, tenho a sorte de estar a responder a estas perguntas sentado nos jardins do Hotel Cipriani, com uma vista magnífica sobre Veneza (mas também há dias menos interessantes).

Motiva-me poder estar num ambiente competitivo, rodeado de pessoas que partilham a mesma paixão (colegas, clientes e parceiros), competitivas, exigentes, atentas ao detalhe, com uma mente aberta e sempre em busca de novas tendências e vontade de inovar, sem nunca comprometer aquilo que é a essência do luxo.

Gosto da chamada “hotelaria clássica”, mas capaz de acompanhar as novas tendências, que seja exclusiva, requintada e elegante, com uma história para contar, que crie experiências memoráveis e consiga tocar os sentidos dos hóspedes, que seja autêntica e “sem pressa”. Afinal de contas, a vida é uma viagem e não uma competição. Claro que no back of the house, viajamos a uma velocidade bem diferente e com pressão, mas isso não pode passar para o front.

Por fim, poder pertencer à família LVMH – Louis Vuitton Moët Hennessy é uma oportunidade única. A LVMH é proprietária da Belmond e atualmente o maior grupo de marcas de luxo do mundo, com mais de 75 Maisons em diversas áreas, desde a indústria da moda e alta costura, vinhos, champanhe, joias & relojoaria, perfumaria, hotelaria, entre outras. Temos excelentes condições de trabalho e tenho a sorte de trabalhar com uma equipa fantástica e com um bom ambiente.

“No início da carreira é importante começar por baixo. Isto permite-nos conhecer bem as realidades que nos circundam e que normalmente são a base de qualquer negócio”

Que conselhos daria para jovens portugueses que desejam seguir uma carreira na hotelaria internacional?

Seja para que posição for, ir de mente aberta e fazer o trabalho de casa muito antes de chegar. Ajuda na adaptação e demonstra que nos preparamos, que estamos interessados.

Podemos começar pela aprendizagem da língua, conhecer a cultura do país, legislação, falar com pessoas que já lá estão, visitar a cidade antes de tomar a decisão final.

É necessário ser resiliente e ter paciência, os resultados normalmente não são imediatos e é fácil pensar em voltar para a zona de conforto, mas é neste ponto que temos de ser mentalmente fortes.

Outro conselho a quem me permite opinar: no início da carreira é importante começar por baixo. Isto permite-nos conhecer bem as realidades que nos circundam e que normalmente são a base de qualquer negócio. Quando terminei a licenciatura, comecei por trabalhar como empregado de mesa. Muitos colegas não aceitam começar por este tipo de posição. Para mim, isso não faz qualquer sentido. Começar pela base é, a meu ver, o melhor ponto de partida. Neste contexto, os atalhos não nos beneficiam a longo prazo.

Para quem está num nível mais operacional ou de chefia intermediária, diria que é importante dedicar tempo a escrever um bom CV (verdadeiro, obviamente), sem fotos de praia e de copo na mão. Eu também vou à praia e sempre que posso tenho um copo na mão… mas quer queiramos quer não, o CV é o primeiro contato que temos com o futuro empregador. Work hard, play hard! É na seleção do CV que muita gente boa é descartada, por isso é tão importante fazê-lo bem.

Podem também apoiar-se num bom headhunter, que como em tudo na vida, é preciso separar o trigo do joio. É preciso identificar a pessoa certa, com as competências e vontade sincera de fazer uma boa colocação para as três partes envolvidas: candidato, empregador e headhunter.

Por último, encontrar uma boa empresa, pois já que saímos de casa, que seja para um ambiente estável e que potencie o nosso crescimento.

“O respeito, a ética e os nossos valores são fundamentais em qualquer ambiente, seja ele nacional ou internacional”

Onde se imagina daqui a cinco ou dez anos a trabalhar? Existem outros objetivos ou projetos que gostaria de realizar?

Estou totalmente focado neste meu compromisso com o grupo Belmond e quero dar o meu contributo para o sucesso do grupo.

Estamos numa fase importante de crescimento, com novas aquisições e um ambicioso plano de remodelações em todas as nossas unidades. Ter o privilégio de participar no desenvolvimento da nossa marca é algo único e o meu objetivo nos próximos anos passa por contribuir para todas estas etapas que estão por vir.

Como foi a sua adaptação aos diferentes contextos culturais dos países onde trabalhou? Que lições aprendeu e que dicas daria para quem trabalha em ambientes internacionais?

Tive a sorte de ter vivido, estudado ou trabalhado em três países: vivi 15 anos na Suíça, 22 em Portugal e estou há dois em Itália.

Isso contribuiu para a minha capacidade de adaptação, respeito pelas diversas culturas, falar vários idiomas, sair da zona de conforto… no fundo, é uma das tantas formas que temos para crescer.

Além disso, abrimos os nossos horizontes, desenvolvemos novas formas de resolver problemas, criamos uma boa rede de contactos e criamos muitas amizades. Trabalhar no mundo do Turismo proporciona-nos estes benefícios.

Já quanto às lições, essas são sempre muitas. Normalmente, não inventamos a roda, não somos mais nem menos, somos apenas diferentes. O respeito, a ética e os nossos valores são fundamentais em qualquer ambiente, seja ele nacional ou internacional.

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