A indústria das viagens entra em 2026 num ciclo de transformação acelerada, impulsionado pela inteligência artificial (IA), pela generalização da identidade digital e por uma procura crescente de experiências personalizadas. As conclusões constam de uma análise publicada esta terça-feira, 6 de janeiro, pela PhocusWire, com base nas previsões de vários analistas.
Apesar do avanço tecnológico, os especialistas convergem numa ideia central: a tecnologia deverá reforçar, e não substituir, o papel do fator humano. Para Fabián González, analista de mercado da Phocuswright em Espanha, a integração da IA ao longo de toda a experiência do viajante irá “paradoxalmente, aumentar o foco no que realmente importa, o elemento humano”, defendendo que estas ferramentas devem “amplificar o valor da relação entre pessoas”.
Biometria e identidade digital ganham tração
A utilização de biometria e identidade digital surge como um dos principais vetores de mudança. González considera que os viajantes estarão disponíveis para utilizar dados biométricos em aeroportos, hotéis ou plataformas digitais, “desde que isso garanta anonimato, rastreabilidade e resulte numa experiência claramente mais fluida”.
Este movimento é particularmente visível no Médio Oriente. Shadi Kaddoura, analista de mercado da Phocuswright para a região, sublinha que 60% dos viajantes dos Emirados Árabes Unidos já confiam na IA para planear todos os aspetos das suas viagens, uma percentagem superior à média global. Segundo o analista, infraestruturas como o Aeroporto Internacional do Dubai estão a implementar sistemas biométricos que permitem concluir o controlo de passaportes em cerca de 14 segundos.
IA com maior autonomia muda o planeamento das viagens
Outro dos grandes temas identificados para 2026 é a consolidação de sistemas de inteligência artificial com maior capacidade autónoma de pesquisa, planeamento e execução de tarefas, desde a inspiração até à reserva. Norm Rose, antigo analista sénior da Phocuswright, considera que esta evolução terá um impacto comparável ao da chegada da internet.
“O setor vai atravessar um período de adaptação, mas estas tecnologias vão criar novas oportunidades tanto para os fornecedores diretos como para as plataformas de distribuição”, afirma, alertando que “quem ignorar esta tendência fá-lo por sua conta e risco”.
No entanto, vários analistas admitem que o setor ainda não está preparado para esta transição. Robert Cole, analista de pesquisa da Phocuswright, destaca a existência de expectativas contraditórias entre viajantes, fornecedores e empresas tecnológicas. “Os viajantes querem sistemas que integrem preferências, experiências e preços; os fornecedores exigem que todo o seu conteúdo seja representado; e as plataformas precisam de gerir custos e complexidade”, explica, sublinhando que apenas soluções baseadas em dados estruturados, APIs robustas e confiança conseguirão escalar.
A personalização continuará a ser um dos eixos centrais da procura. Para Bing Liu, diretora de pesquisas e análises da Phocuswright, os viajantes estão a afastar-se de viagens padronizadas e a procurar experiências com significado. “As pessoas querem itinerários alinhados com os seus interesses, como gastronomia, bem-estar, cultura ou natureza, e valorizam autenticidade e ligação emocional”, afirma.
Os hábitos de planeamento estão também a mudar rapidamente. Mike Coletta, responsável de pesquisa e inovação, revela que no final de 2025 cerca de 39% dos viajantes norte-americanos já utilizavam ferramentas de IA para pesquisar e planear viagens, face a 28% um ano antes. Se esta tendência se mantiver, a utilização poderá ultrapassar os 50% em 2026, ao mesmo tempo que o recurso a motores de busca tradicionais continua a diminuir.
Mercados emergentes e novos modelos económicos
Ao nível dos mercados emissores, a Ásia deverá ganhar maior protagonismo. Coney Dongre, gestora de investigação da Phocuswright, identifica a Índia e a Coreia do Sul como futuros polos de crescimento do turismo outbound, com impacto direto na conectividade aérea e na adaptação da oferta nos destinos de longo curso. Gary Bowerman, analista para a Ásia-Pacífico, antecipa ainda uma maior diversificação do turismo inbound na China, com cidades secundárias a ganharem relevância.
No plano económico, Stan Pawlow, analista de dados da Phocuswright, prevê uma evolução dos modelos de pricing, com preços a ajustarem-se em tempo real a fatores contextuais como condições meteorológicas, eventos locais ou tendências nas redes sociais. Em paralelo, Madeline List destaca que, num contexto de maior pressão sobre o rendimento disponível, os viajantes tenderão a maximizar o uso de pontos e programas de fidelização.
Para Lorraine Sileo, fundadora da Phocuswright Research, 2026 deverá marcar uma mudança no discurso do setor. “Haverá menos especulação sobre o que a IA pode fazer e mais atenção aos resultados reais”, afirma, defendendo que o futuro passará por parcerias e integrações entre sistemas tradicionais e plataformas tecnológicas emergentes. “Nenhuma marca conseguirá oferecer uma solução completa de ponta a ponta, e os consumidores também não o esperam.”




