Quarta-feira, Novembro 30, 2022
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Jovens pelo mundo: António Dionísio, o jovem de 23 anos que está a fazer um programa em F&B no Mandarin Oriental Hotel, em Banguecoque

Esta é a história de António Dionísio, um jovem português de 23 anos licenciado em Direção e Gestão Hoteleira, pela Escola Superior de Hotelaria e Turismo do Estoril. Durante a pandemia, escolheu a Les Roches de Marbella para fazer um mestrado em Gestão Hoteleira Internacional, de forma a poder diferenciar-se “e ter mais oportunidades de trabalho quando a atividade turística retomasse em pleno”. Atualmente, está a fazer um “Corporate Management Program” em F&B no Mandarin Oriental Hotel, hotel de cinco estrelas em Banguecoque, na Tailândia. É um programa de 12 meses para jovens formados na área de gestão, que tem como objetivo formar profissionais para que estejam habilitados a assumir uma posição de chefia em qualquer uma das 34 unidades que a cadeia possui pelo mundo.

De onde és, António?

Os meus pais são professores, naturais da zona da Parede/Oeiras e assim que tiveram oportunidade mudaram-se para o campo na tentativa de fugir à confusão da cidade. Por isso, nasci no Alentejo litoral, perto da Zambujeira do Mar, onde passei a minha infância até aos 8 anos. Mais tarde, mudámo-nos para o Algarve, Portimão, cidade onde cresci e vivi durante mais tempo, e por fim, aos 17 anos, mudei-me para a Parede.

Não posso dizer que sou natural de uma zona específica, nem tenho raízes muito vincadas, mas esta experiência nómada, este “hábito de mudança” desde pequeno, tornaram-se numa virtude para quem decide estudar fora e trabalhar praticamente no outro lado do mundo.

“Esta experiência nómada, este hábito de mudança desde pequeno, tornaram-se numa virtude para quem decide estudar fora e trabalhar praticamente no outro lado do mundo”

Porque é que escolheste estudar turismo?

Como muitos jovens da minha idade, fui exposto desde pequeno a uma moda de programas de televisão sobre cozinha que passaram em muitos dos canais nacionais. Uma moda que parece que veio para ficar, principalmente agora com o mediatismo do Chef Ljubomir, desde que apareceu em horário nobre nos últimos anos. O que se tem vindo a tornar positivo, visto que se reflete num aumento da procura pela profissão, bem como do interesse pelo ensino profissional oferecido pelas escolas de turismo de Portugal.

No meu caso, era um jovem com demasiado tempo livre, sem particular interesse por música ou literatura, por isso a cozinha era a minha principal fonte de interesse e entretenimento. O que me levou a sonhar em ser cozinheiro durante alguns anos, profissão que muito admiro e, acima de tudo, respeito. Contudo, tive a oportunidade de estagiar numa cozinha Michelin com 16 anos e posso dizer que, rapidamente, me apercebi que estar fechado durante 12h, num clima quente e com uma enorme pressão constante, não é para todos.

“Era um jovem com demasiado tempo livre, sem particular interesse por música ou literatura, por isso a cozinha era a minha principal fonte de interesse e entretenimento”.

No entanto, a paixão pela gastronomia e hospitalidade não desapareceu. Aos 17 anos, no verão anterior a candidatar-me para a universidade, surgiu a oportunidade de fazer parte, como estagiário, da abertura do primeiro Pestana CR7, no Funchal, o que foi absolutamente incrível. Ver, na primeira pessoa, o José Carlos Fernandes, GM responsável pela abertura do hotel, ao longo dos três meses que estive na Madeira, inspirou-me a seguir esta profissão e, no ano seguinte quando chegou a data de candidatura ao ensino superior, a licenciatura em Direção e Gestão Hoteleira, na Escola Superior de Hotelaria e Turismo do Estoril, foi a minha primeira opção.

Fizeste a licenciatura na Escola Superior de Hotelaria e Turismo do Estoril e o mestrado na Les Roches Marbella. Porque é que escolheste uma escola internacional?

Desde sempre que tenho a ambição de viver fora, de aventurar-me, viajar e conhecer o mundo. Talvez por influência familiar, visto que o meu pai é professor de geografia, pelo que cresci a ouvir as suas aventuras pelo mundo. Conhecia o nome e a projeção internacional da “Les Roches”, sabia que seria como uma plataforma para depois lançar-me para o estrangeiro. É também importante mencionar que terminei a minha licenciatura numa altura de incerteza, pós-pandemia. Por isso, aproveitei para investir na minha educação e realizar um mestrado em Gestão Hoteleira Internacional enquanto o mundo estava parado, de forma a poder diferenciar-me e ter mais oportunidades quando a atividade turística retomasse em pleno.

“Desde sempre que tenho a ambição de viver fora, de aventurar-me, viajar e conhecer o mundo”

Estás atualmente no Mandarin Oriental Hotel, em Banguecoque, a fazer um Corporate Management Program. Esta experiência é o estágio final da Les Roches?

Esta experiência sucedeu-se por um objetivo profissional, tecnicamente é mais um trabalho que um estágio, com todas as responsabilidades que lhe estão associadas. Mas sim, vai também ser utilizada como “estágio final” uma vez que para obter o diploma de mestres temos, obrigatoriamente, de demostrar que tivemos no mínimo uma experiência profissional de 6 meses após concluído o programa teórico.

“Aproveitei para investir na minha educação e realizar um mestrado em Gestão Hoteleira Internacional enquanto o mundo estava parado, de forma a poder diferenciar-me e ter mais oportunidades quando a atividade turística retomasse em pleno”.

Em que departamento estás a trabalhar e quais são as tuas funções?

A Mandarin Oriental tem dois tipos de “Management Programs”: um em “Rooms Division” e o outro em “Food and Beverage”. Como tenho esta paixão por gastronomia desde criança e mais experiência profissional nesta área, estou a realizar um “Corporate Management Program” em F&B. Basicamente, é um programa de 12 meses para jovens profissionais ambiciosos que tenham no mínimo uma licenciatura em gestão ou gestão hoteleira e alguma experiência na área. O principal objetivo da Mandarin Oriental é o de formar profissionais que ao fim de 12 meses estejam habilitados a assumir uma posição de chefia em qualquer uma das 34 unidades que a cadeia possui pelo mundo.

Assim que cheguei ao hotel, atribuíram-me um programa onde está implícito que vou estar durante 4 meses no restaurante “Varandah” – o all-day dining do Mandarin Oriental Bangkok. De seguida, dois meses no “Bamboo Bar”, considerado o 95º melhor bar do mundo, segundo o “World’s 50 Best Bars 2022”, dois meses no “Le Normandie” – restaurante fine-dining francês com 2 estrelas Michelin e, os últimos 2 meses serão passados a desempenhar funções administrativas sobre a alçada do meu diretor de F&B, Edouard Combes.

Além deste programa, todas as semanas são ainda atribuídas funções no âmbito de um projeto mais administrativo, sendo que, na maior parte das vezes, são realizadas em casa, depois da minha jornada diária de trabalho, a saber: como encontrar soluções para o crescimento do “revenue” do próximo ano, realizar um estudo sobre um possível aumento de preços para fazer face à inflação sofrida de produtos importados da Europa, realizar um “service book” para a abertura de um restaurante que irá reabrir dentro de semanas, entre outros.

“O principal objetivo da Mandarin Oriental é o de formar profissionais que ao fim de 12 meses estejam habilitados a assumir uma posição de chefia em qualquer uma das 34 unidades que a cadeia possui pelo mundo”

Como é que tudo aconteceu e há quanto tempo estás no destino?

Um dos motivos que me levou a estudar na Les Roches Marbella, foi precisamente a pensar na notoriedade da universidade e as portas que me abriria no estrangeiro. E enquanto estudava, ainda no Estoril, apercebi-me que os “Management Programs” oferecidos por cadeias como a Mandarin Oriental, Four Seasons, Marriott, Hilton, Accor, entre outras, são a maneira mais rápida e eficiente de se aprender e chegar ao topo da indústria, por isso, esse passou a ser um dos meus objetivos.

Estes programas são bastante concorridos, por jovens de todas as nacionalidades e partes do mundo. No caso da Mandarin Oriental, apenas abre um número reduzido de vagas anualmente para somente algumas das suas propriedades espalhadas pelo mundo. Candidatei-me através do website da empresa e depois de um meticuloso processo de recrutamento com mais de seis fases, e inúmeras entrevistas, fui selecionado para o Mandarin Oriental Bangkok. É um orgulho estar neste hotel em particular, devido à sua importância histórica, abriu em 1876, chamava-se Oriental Hotel, foi o primeiro hotel na Tailândia e desde sempre que é considerado dos melhores hotéis na Ásia e no mundo. Mais tarde, em 1974, em conjunto com o Mandarin Hong Kong deram origem à cadeia Mandarin Oriental que representa a junção destes dois hotéis icónicos, e por isso são hoje são os ”flagships” da cadeia.

Estou a trabalhar neste icónico hotel há cerca de 3 meses, mas até agora não poderia estar mais contente com a incrível oportunidade que me tem sido proporcionado vivenciar.

“Os ‘Management Programs’ oferecidos por cadeias como a Mandarin Oriental, Four Seasons, Marriott, Hilton, Accor, entre outras, são a maneira mais rápida e eficiente de se aprender e chegar ao topo da indústria, por isso, esse passou a ser um dos meus objetivos”.

Mandarin Oriental Hotel Bangkok. Fonte: OutThere Magazine

Estás satisfeito com as condições de trabalho? Onde vives?

Trabalho num hotel icónico, com grandes profissionais e com uma grande disponibilidade de recursos. Aprendo algo novo todos os dias e, sem contar com a comida picante na cantina de staff, não poderia estar mais satisfeito. Atualmente, vivo num condomínio a 15 minutos a pé do hotel e, ao contrário do valor das rendas em Portugal, em Banguecoque é possível um jovem alugar um apartamento num edifício com segurança 24h, piscina e ginásio por um valor bastante acessível.

“Ao contrário do valor das rendas em Portugal, em Banguecoque é possível um jovem alugar um apartamento num edifício com segurança 24h, piscina e ginásio por um valor bastante acessível”.

O que valorizas mais nesta experiência? E quais são as maiores desvantagens?

As oportunidades e aprendizagens que me estão a ser proporcionadas são as maiores vantagens. A maior desvantagem é o facto de estar longe do mar, é o que sinto mais falta. Poder desconectar e estar em contacto com a natureza.

Porque é que achas importante que os jovens procurem trabalho em cadeias hoteleiras que não existem em Portugal?

Somos um país pequeno e, independentemente dos 17,28 milhões de turistas registados no ano de 2019, anterior à pandemia, continua a haver cadeias que ainda não acharam interessante disputar parte desta quota de mercado e investir no nosso país. Há cadeias como Aman, Sangri-la, Mandarin Oriental, The Peninsula, entre outras, que marcam o “benchmark” da hotelaria de luxo mundial. Acredito que será uma mais-valia se jovens licenciados procurarem aprender com estas marcas, e mais tarde possam voltar para Portugal e colocar em prática a experiência e “knowhow” que tiveram fora do país, tornaria a nossa indústria mais rica e competitiva. Temos um défice de bons gestores e isto não se aplica apenas à hotelaria.

António Dionísio com colegas de trabalho no Mandarin Oriental Hotel, em Banguecoque

“Temos um défice de bons gestores e isto não se aplica apenas à hotelaria”.

Antes de ires para Banguecoque, quais foram as experiências de trabalho que tiveste em Portugal?

Tal como já mencionei, tive a oportunidade de fazer parte da equipa na abertura do primeiro Pestana CR7 Hotel, na Madeira. No ano de 2018, realizei um “cross training” no Bela Vista Hotel & Spa, na Praia da
Rocha, onde o diretor Gonçalo Narciso e o chef João Oliveira estão a fazer um trabalho brilhante, que se tem refletido em inúmeros prémios. Mais tarde, no ano 2019, o antigo diretor de F&B do Sheraton Cascais Resort, Tiago Pereira, contactou-me para reforçar a equipa do restaurante durante a época alta. E agora, recentemente, antes de vir para a Tailândia ajudei no incrível Foodtopia, evento da Amousebouche, um sonho tornado em realidade pelo grande Paulo Barata e Ana Musico que trouxeram chefs de renome como Alex Atala a Portugal e juntaram provavelmente os melhores chefs nacionais num fim-de-semana inesquecível.

Que diferenças encontras entre o mercado de trabalho na Tailândia e o mercado português?

A cultura tailandesa é bastante diferente da nossa. Em algumas coisas para melhor, na medida em que são bastante mais humildes do que nós devido às suas crenças budistas, há muito respeito entre colegas e há um grande espírito de sacrifício e dedicação ao trabalho. No entanto, também há aspetos negativos, como por vezes a barreira linguística, o facto de dizerem que sim a tudo, mesmo quando não percebem o que lhes foi pedido. Por último, o ritmo de trabalho é diferente, bastante mais lento, o que pode prejudicar o serviço.

Quanto tempo pensas ficar em Banguecoque?

Não posso fazer previsões a longo prazo, para já vou estar a concretizar este Corporate Management Program em F&B durante 1 ano, depois disso não sei se continuarei na Tailândia ou se me irão alocar a outro destino.

“São escandalosas as condições oferecidas no nosso país, não é sustentável para nenhum jovem recém-licenciado viver de forma independente numa cidade como Lisboa devido ao trade off entre salários e preços das rendas”.

No futuro, imaginas-te a trabalhar no setor da hospitalidade em Portugal ou fora do país?

A longo prazo pretendo voltar para à península ibérica, se Portugal ou Espanha, não sei exatamente, vai depender das oportunidades.

Qual é a tua opinião sobre a falta-de-mão de obra no setor do turismo no nosso país? Porque é que as empresas não conseguem atrair trabalhadores?

De uma maneira geral, são escandalosas as condições oferecidas no nosso país, não é sustentável para nenhum jovem recém-licenciado viver de forma independente numa cidade como Lisboa devido ao trade off entre salários e preços das rendas. Mas penso que a responsabilidade não passa exclusivamente pelas empresas, passa também pela elevada carga fiscal aplicada às empresas. Na minha opinião, a carga fiscal tem que ser reduzida. Além disto, os hoteleiros e empresas de restauração deviam unir-se e tentar encontrar uma solução comum, acredito que é inevitável a necessidade de um aumento dos preços. E não o digo devido à inflação que se tem verificado na Europa nos últimos meses, originada pela guerra ou aumento dos combustíveis. É crucial selecionar a nossa procura e tentar captar mercados com poder de compra, onde possamos aumentar os preços dos quartos nas nossas cidades e das cartas dos restaurantes, desta forma, com um aumento das receitas, os empregadores poderão pagar salários mais elevados e o setor pode começar a ser visto como atrativo.

“É crucial selecionar a nossa procura e tentar captar mercados com poder de compra.com um aumento das receitas, os empregadores poderão pagar salários mais elevados e o setor pode começar a ser visto como atrativo”

Outra medida, que pode atrair aqueles que veem o setor como pouco atrativo devido às inúmeras horas de trabalho, é a possibilidade que está a ser estudada de três dias livres semanais. Neste momento o cenário é negro, tenho o testemunho de um chef de estrela Michelin em Lisboa que me confessou que está desesperado à procura de mão de obra, que qualquer pessoa que tenha duas mãos e dois pés é bem-vinda. É um erro ver a contratação de mão de obra barata como solução ou continuar a baixar preços para aumentar a quota de mercado sobre a concorrência. É necessário aumentar o REVPAR dos hotéis e AVR Check dos restaurantes ao nível de outros destinos turísticos europeus e este trabalho tem que ser levado a par com a ajuda da promoção do Turismo de Portugal e do governo. Exemplos como os que estão a ser discutidos no Algarve, 2€ de taxa municipal turística em toda a região, nesta altura parece-me muito disparatada. É necessário aumentar preços sim, mas não para beneficio dos organismos públicos.

“É necessário aumentar o REVPAR dos hotéis e AVR Check dos restaurantes ao nível de outros destinos turísticos europeus e este trabalho tem que ser levado a par com a ajuda da promoção do Turismo de Portugal e do governo.”

1 COMENTÁRIO

  1. Gostei muito de ler teu breve “retrato, percurso e expectativas, espero ter contribuído para a sua concretização e que continues a crescer, por vezes parece tudo tanto e tão rápido, que me surpreende!

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