Segunda-feira, Março 4, 2024
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“Não reconheço ao Governo uma estratégia para ter eventos chave no país”

Nos três anos como presidente do Turismo de Cascais, Bernardo Corrêa de Barros liderou uma estratégia de reposicionamento do destino que consistiu em captar melhor turismo. Na restante metade do mandato que falta cumprir, quer continuar a apostar em tecnologia e em novas plataformas que tornem Cascais um destino líder nacional e mundial de smart tourism. Com as eleições à porta para escolher um novo Governo, e questionado se aceitaria ser secretário de Estado do Turismo caso a Aliança Democrática (AD) vença, revela que não virava costas ao desafio.

Como avalia o desempenho turístico de Cascais em 2023? 

Em Cascais, crescemos 4,4% em termos de preço médio, 7,3% em RevPAR e 1,8% em taxa de ocupação. Contrariamente àquilo que era expectável, porque a nossa promoção estava centrada em trazer melhores turistas e não mais turistas. Este resultado foi muito alimentado por grandes subidas no mercado americano e brasileiro, que cresceu 35%, fruto também da aposta que temos feito no Brasil. É um mercado que está a olhar muito para Portugal e para Cascais, em particular, não só pelos novos embaixadores que temos que são todos os expatriados que decidiram fazer de Cascais a sua casa, mas também uma aposta muito consolidada que estamos a fazer em São Paulo, no Rio de Janeiro e também em todas as cidades que têm ligação direta para Lisboa.

Na hotelaria, chegámos a 1 milhão e 160 mil dormidas, um crescimento de 10,9% em termos de dormidas, e, no alojamento local, podemos estimar mais 1 milhão e 400 mil dormidas, o que faz cerca 2,5 milhões de dormidas em Cascais.

Algum evento específico teve um impacto notável no turismo?

Não temos um evento, temos um portfólio de eventos. Há duas coisas que digo sempre. A primeira descreve o desígnio que temos enquanto território: o melhor sítio para viver um dia, uma semana ou a vida inteira. A segunda coisa é termos um portfólio de eventos, que é o que falta ao país. Temos muito bem identificados os eventos onde queremos investir, porque não apoiamos eventos, mas sim, investimos em eventos. O Estoril Open; o IRONMAN, que foi considerado um dos melhores do mundo; temos o nosso evento dos Clássicos que cresce de ano para ano, trazendo os melhores clássicos a nível mundial ao Autódromo do Estoril; a maratona Cascais-Lisboa; e tantos outros eventos que estamos a fazer de vela, de surf, também hipismo, para trazer públicos diferentes, dentro daqueles que são os desportos que mais se identificam com Cascais.

Houve alguma mudança nos principais segmentos de turistas que escolheram Cascais no ano passado?

Estamos a comunicar de uma forma completamente diferente, já não vendemos para o golfista, nem para o turista de lazer puro e duro, já não promovemos Cascais para o MICE em exclusivo, comunicamos de um modo sniper, ou seja, já não comunico para os golfistas de Inglaterra, comunico para o golfistas de Dublin, de classe A, que viajaram pelo menos duas vezes para o estrangeiro no último ano. Isto é a mudança total de paradigma, e não lhes vendo só golfe, vendo golfe, gastronomia, vendo hotéis de qualidade, sustentabilidade, território, vendo Cascais como um todo que também tem golfe, assim como para o lazer. Cascais não tem as melhores praias do mundo, nem o melhor parque natural do mundo, mas temos uma complementaridade entre as atrações naturais, as infraestruturas e a proximidade ao aeroporto de Lisboa e à capital, que fazem de Cascais um sítio único, com serviços de altíssima qualidade, uma gastronomia de nível mundial, e por aí fora. Quero que o nosso turista venha e não fique no hotel em pensão completa, que venha com os amigos, em família, ou sozinho, que fique no hotel, que venha almoçar a um qualquer restaurante de Cascais – temos muitos, que a seguir vá fazer compras, e que jante noutro restaurante.

“Queremos continuar a consolidar Cascais enquanto destino único, puxar pela nossa gastronomia, trazer mais qualidade para os serviços que prestamos como um todo, melhorar o nosso território, em parceria com a Câmara Municipal de Cascais, e que isso se reflita no tal melhor turista que tanto almejamos e procuramos”

Quando começou esta estratégia e que resultados apresenta?

Há três anos em que fizemos uma mudança clara de posicionamento, há resultados muito claros, estamos a criar melhor emprego, a captar melhores restaurantes, estamos a captar novas cadeias internacionais hoteleiras que veem Cascais como um mercado atrativo. Portanto, a resposta é sim, claramente a estratégia está a funcionar, temos os empresários contentes com a estratégia adoptada, são parte ativa da decisão, ouço muito os 400 associados do turismo de Cascais, seja nos vários encontros que fazemos com todos, seja nas assembleias gerais ou nos encontros que vamos fazendo por segmentos, mas que depois incorporamos na estratégia global.

Existiram parcerias especiais que contribuíram para o sucesso do Turismo em Cascais?

Sou um defensor de que, ou vencemos juntos, ou falhamos separadamente, digo isto sempre. O Turismo de Cascais personifica a palavra parceria, parceria com os organizadores de eventos, com os media, com os nossos vizinhos, com o Turismo de Portugal e as suas representações internacionais, com outras cidades que são geminadas com Cascais. As parcerias são um dos sucessos de Cascais, gostamos de aprender com os melhores e gostamos de partilhar aquilo que também fazemos de melhor e, com isso, acreditamos que crescemos todos juntos e que tiramos benefícios disso.

Com base nas tendências observadas, quais são as projeções para o turismo em Cascais no próximo ano?

Queremos continuar a consolidar Cascais enquanto destino único, puxar pela nossa gastronomia, trazer mais qualidade para os serviços que prestamos como um todo, melhorar o nosso território, em parceria com a Câmara Municipal de Cascais, e que isso se reflita no tal melhor turista que tanto almejamos e procuramos. Vamos lançar dois produtos novos, que esperamos ter muito bons resultados, tanto na área do MICE, como na integração de sistemas com os vários prestadores de serviços que gravitam no turismo e trazer daí, não só a inovação que advém destes produtos tecnológicos que vamos lançar, e dar o exemplo ao país e ao mundo que em Portugal fazemos tão bem ou melhor que os outros lá fora. No fundo, partilhar esta tecnologia que está a ser desenvolvida com o país para que seja replicada e possamos trazer melhor e mais negócio para Portugal.

Está a meio do mandato, o que elege como mais positivo deste mandato?

O reconhecimento que Cascais tem tido tanto a nível nacional, como internacional. Somos claramente o quarto destino nacional, somos reconhecidos pelos nossos pares, parceiros e, também, internacionalmente. Elegeria este mindset que agora está na cabeça de todos os que operam em Cascais que somos, pelo menos, tão bons como os outros e que temos de andar de cabeça erguida e que temos um território único e diverso. Elegeria o próprio mindset da equipa, sou um felizardo por ter uma equipa extraordinária, cheia de ideias boas, o difícil é conseguir implementar tudo, porque temos um pipeline gigante de ideias para implementar, não conseguimos acorrer a todas, mas se calhar se tivesse que eleger, a equipa.

Quais são os benefícios específicos que Cascais obtém ao fazer parte da Entidade Regional de Turismo da Região de Lisboa e da Associação da Hotelaria de Lisboa?

Cascais primeiro beneficia desta parceria estreita com os nossos vizinhos, não só a Região de Lisboa como um todo, mas mais especificamente Sintra, temos o nosso parque Natural Sintra-Cascais, seja com Oeiras, seja com a capital Lisboa, porque Cascais não seria Cascais sem Lisboa, nem Lisboa teria este hip internacional sem ter Cascais aqui ao lado. Somos altamente colaborantes com a ATL, aliás sou membro da direção da ATL, a colaboração é estreita e direta, trabalhamos bem em conjunto.

“Acredito que Lisboa se deve vender como um todo dentro da área do MICE, em especial em plataformas tão importantes que também trazem comunicação como a ICCA. Traz benefícios para todos”

Essa relação poderia ser ainda mais potenciada? Defende que no MICE, Lisboa deve ter uma promoção mais abrangente ao nível do território. Que benefícios é que isso traria em termos de projeção e marca?

Na minha primeira reunião de direção da ATL, anunciei que Cascais tinha saído da ICCA (International Congress and Convention Association) para dar os dados a Lisboa, porque quero que Lisboa tenha o primeiro lugar a nível internacional na Meetings Industry. Acredito que Lisboa se deve vender como um todo dentro da área do MICE, em especial em plataformas tão importantes que também trazem comunicação como a ICCA. Traz benefícios para todos. Uma das plataformas que vamos lançar é com base no modelo de Las Vegas. Quando pensamos numa CES Las Vegas que tem mais de 100 mil participantes, não há nenhuma sala com capacidade para 100 mil pessoas, o que eles têm é multi-venues, multi-hotéis, e depois conseguem garantir uma mobilidade que faz com que as pessoas saiam do hotel Venetian para o hotel Intercontinental em cinco minutos. Imaginem que conseguimos atrair para Lisboa outro Congresso dos Rotários, é claro que Cascais ganhou em Lisboa ter atraído o Congresso dos Rotários. Se Cascais conseguir atrair um evento multi-venue para 15 mil pessoas, Lisboa vai beneficiar com isso, naturalmente. Portanto, em Portugal temos de trabalhar mais em conjunto, Lisboa com o Porto, o Porto com o Algarve, o Porto com Cascais, trabalharmos todos em conjunto. Se grande parte dos movimentos do aeroporto de Lisboa são movimentos que levam as pessoas para outros destinos, temos que trabalhar para que essas pessoas fiquem no nosso país, um dia, dois dias, e vamos beneficiar todos.

Qual tem sido o impacto do lançamento do Golf Passport by Cascais?

Com o golfe fizemos algo que nunca tinha acontecido em Portugal e no mundo. Conseguimos entrar dentro dos sistemas dos campos de golfe e fazer reservas em tempo real, que foi algo único. Dissemos ao nosso parceiro tecnológico que libertávamos a tecnologia para quem a quisesse adotar, desde que tivesse a menção que foi desenvolvida em Cascais. Estamos a ter muitas reservas a nível internacional, a nível nacional estamos a ter algumas dores de crescimento. Muitas vezes é mais fácil agarrar no telefone do que estar na plataforma tecnológica. Tudo o que é novo tem alguma resistência, mas temos os nossos sete campos de golfe envolvidos com bons resultados, com o Turismo de Cascais a gerar receita própria e com os campos de golfe a ganhar mais dinheiro. Os resultados são bons, a tecnologia funciona. Já está a ser implementado noutros locais, em Espanha e França, e noutros países da Ásia. O balanço só pode ser muito positivo, tendo noção que há dores de crescimento e que vamos ultrapassá-los.

Vão atrair algum evento novo em 2024?

Ganhámos a candidatura da Assembleia Geral da Associação dos Comités Olímpicos Nacionais. Vai realizar-se em Cascais, mais para o final do ano. Vamos ter todos os Comités Olímpicos do Mundo em Cascais durante uma semana para discutir o futuro do desporto Olímpico, esse é um evento novo.

“Julgo que faz falta ao país um grande campeonato de golfe e, este ano, perdemos um evento que, na minha opinião, é estratégico para o país, o Portugal Masters”

Há algum evento que o Turismo de Cascais gostava de atrair no futuro?

Há vários. Gostava, mas outras regiões do país têm melhores condições do que nós. Peniche tem o Campeonato do Mundo de Surf. Já tivemos em parceria com Peniche, gostaríamos muito de ter o campeonato do Mundo de Surf aqui, mas a consistência das ondas em Peniche é muito maior, o que garante que o campeonato aconteça naquela data. Cascais, apesar de ter excelentes ondas em Carcavelos, não garante essa consistência. Julgo que faz falta ao país um grande campeonato de golfe e, este ano, perdemos um evento que na minha opinião é estratégico para o país, o Portugal Masters. Não acredito que deva ficar no Algarve eternamente. Se Portugal é golfe, o evento tem que ser nos vários sítios de Portugal que têm golfe, para promover Portugal como um todo. Os eventos motorizados são sempre um desejo antigo, especialmente para quem é de Cascais, que teve aqui a Fórmula 1, o Moto GP, mas isso também só conseguiremos com uma estratégia nacional, porque são eventos com um investimento muito avultado, envolve uma parceria entre o Turismo de Portugal, a secretaria de Estado e o Turismo de Cascais. Só com a ajuda do Turismo de Portugal e do Governo da nação é que conseguimos atrair os grandes eventos mundiais. O Governo, na minha opinião, não tem uma estratégia para os eventos. Portugal, enquanto território, tem de decidir primeiro o seu desígnio, para onde quer ir. É Turismo? Mar? Indústria? Depois constituir um portfólio, como fizemos em Cascais. Não reconheço ao Governo essa estratégia de ter eventos chave que se estabeleçam no nosso país durante anos.

Qual é a verba de promoção de Cascais para este ano?

Cascais tem verbas do Turismo de Portugal por via do imposto de jogo de cerca de 3,5 milhões de euros, houve um decréscimo muito acentuado dos últimos anos; e temos também verbas dos nossos associados e da Câmara municipal de Cascais, que faz um budget total de cerca 9,5 milhões de euros. É um budget considerável para darmos vazão a todo este portfólio de eventos e a toda a promoção internacional.

Vai terminar o mandato em 2025, o que gostava de estabelecer como meta até lá?

Este investimento grande em novas tecnologias e plataformas. Estamos claramente a marcar a diferença pelas plataformas que estamos a desenvolver, seja na área do golfe, da Meeting Industry, seja na virtualização de Cascais como um todo e da integração dos vários serviços dentro desta plataforma que vamos lançar, que é o Cascais Virtual. Gostava que esta parte do mandato fosse claramente marcada pelo smart tourism e novas tecnologias que acho que vão trazer grandes benefícios a Cascais, aos nossos empresários e futuramente ao país.

Defende a subida da taxa turística?

Lisboa e Cascais têm capacidade para aumentar a sua taxa turística. É uma taxa municipal, não posso pronunciar-me em nome do presidente da Câmara Municipal, mas na minha opinião deveríamos aumentar a taxa a par com Lisboa, temos de andar sempre no mesmo nível dos nossos vizinhos.

A taxa tem uma particularidade, foi solicitada à câmara pelo Turismo de Cascais, em nenhum outro território foi por iniciativa de uma associação de turismo a introdução da taxa. A maioria dos associados votou favoravelmente ao pedido de introdução à câmara municipal, com regras que foram muito claras: Esta taxa tem de ser utilizada em promoção internacional, eventos, e ou obras municipais de interesse turístico ou equipamentos. Aliás, somos o único território que dá uma contrapartida ao turista que paga essa taxa. Qualquer turista que paga a taxa recebe um passe de 24 horas para os 18 museus de Cascais, não conheço isto em mais lado no mundo. É reconhecido pelos nossos turistas, estão a pagar mas têm uma contrapartida.

SECRETARIA DE ESTADO DO TUrismo: “Se o meu partido ou o meu país me chamarem, não tenho como dizer que não, estarei naturalmente disponível”

Qual o valor arrecadado?

Cerca de dois milhões de euros.

Vamos ter eleições brevemente. Portugal devia ter um ministro do Turismo?

Para Portugal ter um ministro do Turismo têm de ser dadas competências, haver outros institutos e outras ferramentas, não pode ter só o Turismo de Portugal por baixo desse ministério. A mim parece-me pouco. Noutros países em que há um ministério, muitas vezes junta-se o Turismo e Cultura. Se há uma aposta clara no turismo, se representa 18% do nosso PIB, sim, na minha opinião deveria ter um ministro do Turismo.

Num cenário de eleições ganhas pelo seu partido (PSD em coligação), estaria disponível, como já tem sido falado no setor, para assumir a pasta da Secretaria de Estado do Turismo?

O meu compromisso é com Cascais, como tem sido ao longo dos anos, em diversas funções. Fico muito orgulhoso com o reconhecimento do nosso setor, porque é naturalmente um reconhecimento ao trabalho desenvolvido em Cascais. Respondendo à sua pergunta, se o meu partido ou o meu país me chamarem, não tenho como dizer que não, estarei naturalmente disponível.

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