“Há alguns anos, escolher para onde viajar era quase um ritual: procurávamos no Google, líamos uns blogs de viagens e, talvez, até folheássemos um catálogo de uma agência de viagens. Hoje, basta abrir o Tik Tok”
Em segundos, somos transportados para praias escondidas, ruas coloridas e cafés “instagramáveis” que, de repente, toda a gente parece querer visitar. A forma como o mundo vê o turismo mudou, e muito. E é o Tik Tok que está no centro dessa mudança.
O que antes era planeado com pesquisa e paciência, agora nasce de um scrolling aleatório. Um simples vídeo de quinze segundos com um pôr do sol, uma paisagem bonita, uma música cativante e um “precisas MESMO de vir aqui” já é o suficiente para criar desejo. Segundo Xiao, Zhu, Hu e Xie (2020), os vídeos curtos do Tik Tok despertam só curiosidade, mas moldam a imagem cognitiva que os utilizadores têm de um destino. Em outras palavras, já não viajamos para ver, mas sim porque já vimos.
E é curioso como a autenticidade aparente se tornou o novo marketing. Já ninguém confia tanto em campanhas oficiais de turismo com locutores entusiasmados e paisagens perfeitas. O que convence hoje é uma montagem de alguém comum que come comida local e diz “é o melhor que já provei”.
Essa proximidade cria uma perceção emocional, quase íntima. E quantas mais visualizações mais o recetor sente que deve ir. O Tik Tok democratizou o poder de promover um destino, qualquer pessoa pode fazê-lo, com um telemóvel e uma boa luz natural.
Mas este fenómeno tem outro lado. Um estudo de Arkansyah, Prasetyo e Amina (2021) mostrou como a plataforma foi usada na Indonésia para promover os chamados “hidden paradises”, lugares ainda pouco explorados. É bonito pensar nisso: a possibilidade de revelar ao mundo locais esquecidos e dar-lhes visibilidade. No entanto, quando milhares de pessoas decidem visitar esses lugares após um vídeo viral, a linha entre descoberta e destruição fica muito fina.
A massificação turística pode transformar o paraíso em pesadelo, e basta ver o que aconteceu com destinos como Bali ou Santorini, que hoje lutam contra o excesso de visitantes e perda de autenticidade.
E se o Tik Tok é capaz de transformar um destino menos conhecido ou visitado num sucesso mundial, ele também pode fazer o oposto. Um vídeo negativo, que mostre lixo na praia, mau atendimento ou superlotação, pode arruinar a reputação de um lugar em questão de dias. A investigação de Shinta, Prasati e Rizkika (2023) confirma isso. As perceções dos turistas nas redes sociais moldam de forma decisiva a imagem de um destino, e essas perceções são muitas vezes emocionais, não racionais. O algoritmo não distingue o que é justo ou exagerado, apenas o que é viral.
O resultado é que a imagem de um destino deixou de ser estável. Hoje, ela vive num ciclo constante de aprovação e cancelamento digital. Um mesmo sítio pode ser considerado “o paraíso secreto do verão” e, semanas depois, “o pior que já visitei”. Tudo depende da narrativa que ganha mais força naquele momento. É quase assustador pensar que o destino turístico de um país inteiro pode ser definido, ou destruído, por um simples vídeo de 30 segundos.
Ao mesmo tempo, não dá para negar que o Tik Tok trouxe uma nova forma de viajar. A plataforma inspirou milhões de pessoas a conhecer lugares fora do circuito tradicional, e isso tem o seu valor. Descobrir uma aldeia, um café bom e barato ou uma rua de mercado local através dos olhos de alguém que lá vive é, de certa forma, um retorno à essência do turismo: o encontro genuíno com o outro. O problema é quando esse encontro se transforma em performance e viajamos, não para viver, mas para filmar e publicar.
O turismo sempre foi sobre experiências, mas agora é também sobre perceções. O que vemos nos ecrãs molda o que sentimos, e o que sentimos determina para onde queremos viajar. O Tik Tok não é apenas uma plataforma de entretenimento. É um novo mapa-mundo, feito de pixels e emoções instantâneas. E, neste mapa, os destinos mais bonitos não são necessariamente os mais reais, mas sim os mais virais.
Talvez o desafio para os próximos anos seja esse: aprender a olhar para além do ecrã. Viajar porque queremos conhecer, não porque alguém nos disse que era bonito. Acima de tudo, é importante lembrar que um vídeo pode mudar a narrativa de um destino — mas também a forma como o vemos.
Por João Carapeto
Finalista da Licenciatura em Turismo na Universidade Lusófona
Nova Geração é nova rubrica do TNews, na qual damos voz à opinião dos jovens estudantes de Turismo.



