Passou por algumas das empresas mais relevantes da distribuição turística portuguesa, ajudou a fundar a Alive Travel e é agora candidato à presidência da Associação Portuguesa das Agências de Viagens e Turismo (APAVT). Recebeu o TNews para uma conversa sobre liderança, turismo, viagens, cinema e os princípios que têm orientado a sua carreira.
PERFIL é uma nova rubrica dedicada às personalidades que marcaram e continuam a marcar o turismo em Portugal. Mais do que entrevistas, estes perfis procuram dar a conhecer o percurso, a personalidade, as rotinas e a visão dos líderes que ajudam a construir o setor.
Naquela noite de 18 de maio de 2011, no Aviva Stadium, em Dublin, jogava-se a final da Liga Europa, a primeira entre dois clubes portugueses, FC Porto e SC Braga. Marco Sequeira não torcia por nenhum deles. Adepto do Sporting, a sua preocupação era outra. Na altura liderava o departamento de Incentivos da Agência Abreu, responsável por toda a operação que levou milhares de adeptos portugueses até à capital irlandesa para assistir ao jogo. Mais de 30 voos charter, 75 autocarros, coordenação com autoridades de dois países, a visita oficial da Rainha Isabel II à Irlanda a complicar a logística e um único dia para que tudo acontecesse sem falhas.
“Foi uma operação que exigiu sangue, suor e lágrimas.” É assim que ainda hoje recorda aquele que considera o momento mais marcante de quase três décadas dedicadas ao turismo. “Foi talvez um dos momentos mais desafiantes que tive em termos de uma única operação, pela dimensão daquilo que estávamos a falar e tudo concentrado num único dia.”
Ao longo de quase três décadas de carreira, Marco Sequeira construiu o percurso em algumas das empresas mais emblemáticas da distribuição turística em Portugal. Curiosamente, o turismo nem sequer era o destino que imaginava quando entrou na universidade. Crescido no bairro da Graça, em Lisboa, seguia um percurso ligado às Línguas e Literatura e chegou a ponderar ser professor. O turismo surgiu quase por acaso, quando descobriu o curso do então Instituto Superior de Novas Profissões.
Ainda assim, os primeiros passos profissionais foram longe das agências de viagens. Recém-licenciado, quis fazer aquilo que muitos jovens querem quando entram no mercado de trabalho: ganhar dinheiro e conquistar independência. Trabalhou na área comercial, passou pelas Páginas Amarelas e pela RTP, onde vendia publicidade junto das comunidades portuguesas na Europa. Foi uma experiência intensa, bem remunerada, mas que lhe consumia praticamente toda a vida pessoal.
O regresso ao turismo aconteceu também por acaso, depois de conhecer, numa festa, David Coelho, então diretor-geral das Viagens El Corte Inglés em Portugal. O convite levou-o primeiro para Madrid, onde passou cerca de dois anos a conhecer o funcionamento da empresa e da distribuição turística espanhola, antes de regressar para integrar a equipa que lançou a operação da marca em Portugal, numa altura em que ainda não existiam lojas nem sequer brochuras em português.
Seguiu-se uma nova etapa na Space, empresa onde conheceu Francisco Calheiros e que, pouco tempo depois, daria origem à Top Atlântico, na sequência da fusão entre a Space e a Top Tours, em 2003. Foi aí que trabalhou diretamente com Pedro Costa Ferreira: “Foi meu diretor”.
Depois de uma breve passagem pela Mundiclasse, chegou à Agência Abreu, onde permaneceria quase uma década.
Mais do que uma sucessão de empresas, foi um percurso construído sempre à procura de novos desafios. Quando sentia que já não tinha espaço para crescer, preferia arriscar do que acomodar-se.
Foi assim que deixou uma posição confortável na Abreu, onde reconhece ter vivido alguns dos anos mais felizes da carreira. “Era um sítio no qual eu estava bastante satisfeito e as coisas estavam a correr bastante bem. Só que chega-se a um determinado ponto da carreira em que começas a olhar para cima e percebes que já não tens muito mais para onde crescer.”
Trabalhou depois na Cosmos, antes do passo seguinte, que acabaria por ser o mais decisivo. Pedro Barros convidou-o para criar uma empresa praticamente do zero, numa altura em que a tecnologia começava a transformar profundamente a distribuição turística.
“Éramos três pessoas, com uma ideia de que podíamos fazer alguma coisa diferente, mais tecnológica, com uma abordagem diferente ao mercado. E foi isso que temos feito até hoje.”
Não é pessoa de olhar para trás com arrependimento. Não porque todas as decisões tenham sido acertadas, mas porque prefere encará-las como etapas de aprendizagem. “Raramente me arrependo das coisas que fiz. Arrependo-me muito mais das coisas que não fiz”, afirma.
É uma filosofia que, admite, sempre orientou a sua carreira. Sempre que sentiu que um projeto já não lhe permitia crescer, preferiu arriscar. Mesmo sabendo que nem todas as apostas acabariam por correr como imaginava. “Quando tomas uma decisão, e se no momento em que a tomas estás 100% convencido de que essa é a melhor decisão, não pode ser, à data dos factos, uma decisão errada. É, quando muito, uma decisão de aprendizagem.”
Esse pragmatismo acompanha-o também no dia a dia no escritório da Alive, em Miraflores. As manhãs começam sempre da mesma forma: um café e uma longa lista de e-mails. Cerca de 400 por dia, estima. Depois, faz questão de acompanhar as vendas. É uma espécie de ritual que nunca abandonou e que tem raízes muito anteriores ao turismo. A paixão pelos números comerciais nasceu quando ainda trabalhava como vendedor e continua hoje, à frente da Alive. “Tenho uma fixação em vendas e margens.”
Todos os dias consulta os resultados da empresa, compara-os com o período homólogo, acompanha a faturação e procura perceber se tudo está a correr como previsto. A razão está na necessidade de estar próximo do negócio. “É evidente que temos uma área financeira muito bem apetrechada para tratar deste tema, mas é mais forte do que eu”.
Depois vêm as conversas com as equipas. Para Marco Sequeira, a cultura da Alive Travel constrói-se todos os dias e não apenas nas reuniões de direção. “Nós somos uma empresa que preza muito o ambiente de trabalho e o trabalho colaborativo.”
Mais do que ouvir relatórios, gosta de ouvir pessoas. “Gostamos de receber ideias e sugestões de todos, mesmo aquelas que eu nem de perto nem de longe nunca vou aplicar. O facto de os colaboradores sentirem que têm porta aberta para o poderem dizer é isso que faz a mais-valia da Alive.”
Os dias terminam, quando tudo corre bem, por volta das sete da tarde. Mas isso não significa que o trabalho fique no escritório. Para Marco Sequeira não há compartimentos. “Não há o Marco do lazer e o Marco do trabalho, nem o Marco da vida pessoal. Eu sou sempre a mesma pessoa.” Por isso, não estranha que, já em casa, volte a confirmar se uma fatura foi emitida ou se um cliente efetuou um pagamento. Da mesma forma que, durante o horário de trabalho, interrompe o dia para resolver um assunto pessoal, se for necessário. “Não faço compartimentações. Eu, tecnicamente, diria que, enquanto estiver acordado, estou atento.”
Essa disponibilidade permanente explica também a escassez de tempo para hobbies. A Alive Travel está hoje presente em vários mercados — Portugal, Espanha, Angola, Moçambique, Dubai e, em breve, Brasil —, o que obriga a uma agenda recheada de deslocações. “Diria que faço entre 20 e 30 viagens por ano.” A estas somam-se as responsabilidades associativas, integrando atualmente vários grupos de trabalho ligados à Associação Portuguesa das Agências de Viagens e Turismo (APAVT), ao Estado e à ECTAA, onde acompanha alguns dos principais dossiês da distribuição aérea europeia.
Liderar a APAVT? “Nunca tive essa ambição”
Se há desafios que se planeiam durante anos, também há os que surgem quando menos se espera. A candidatura à presidência da APAVT pertence à segunda categoria. Questionado sobre se “Algum dia pensou que gostaria de liderar a APAVT?”, a resposta sai imediata. “Não. Bem pelo contrário.” Durante muitos anos, a associação era para si uma realidade distante. Conhecia quem a liderava, acompanhava naturalmente o trabalho desenvolvido, mas via-a como uma estrutura institucional, quase política, e isso nunca lhe despertou especial interesse.
Durante muito tempo, confessa, olhou para a APAVT como uma estrutura liderada por figuras que conhecia e respeitava, algumas tinham sido até seus diretores, mas cuja missão lhe parecia sobretudo institucional. “Via muito aquilo como um cargo eminentemente político. E, como não era propriamente uma área de que gostasse particularmente, nunca tive essa ambição.”
Foi a participação, nos últimos anos, em vários grupos de trabalho ligados à associação que o aproximou do associativismo.
Apesar de nunca ter ambicionado liderar uma associação, Marco Sequeira reconhece que sempre teve uma predisposição natural para liderar. “Sempre tive uma veia de liderança.” Não é, porém, o tipo de líder que precisa de ocupar o centro do palco. “Sou o homem que não se importa de trabalhar nos bastidores e que não precisa de ter o limelight para fazer essa liderança.” Para ele, liderar nunca foi sinónimo de ter um cargo ou uma equipa. É, acima de tudo, não aceitar as coisas apenas porque sempre foram assim.
Recorda um episódio dos primeiros meses numa das empresas por onde passou. Tinha pouco mais de seis meses de casa quando, numa reunião onde estavam alguns dos diretores históricos da empresa, decidiu contrariar um deles. Não por provocação. Porque simplesmente não concordava. “Eu acho que me pagam para expor as minhas ideias. Caso contrário, não estou aqui a fazer nada.” Mesmo que, no fim, a decisão seja outra. “Se me disserem que a minha ideia não serve, não tem problema nenhum. Agora, se eu não a posso dar, não estou aqui a fazer nada. Se há coisa que gosto é de dar as minhas opiniões.”
É uma forma de estar que ajuda também a explicar o momento em que hoje se encontra. Quase 15 anos depois de ter ajudado a fundar a Alive Travel, Marco Sequeira sente que a empresa entrou numa nova fase. A estrutura cresceu, internacionalizou-se e deixou de depender exclusivamente da presença dos seus fundadores no dia a dia. Atualmente, mais do que acompanhar a operação, dedica-se sobretudo à estratégia.
“Sou o homem que não se importa de trabalhar nos bastidores e que não precisa de ter o limelight para fazer essa liderança”

Como administrador e acionista, reconhece que atingiu o topo daquilo que podia ambicionar dentro da empresa. “Sou administrador da empresa, portanto cargos acima já não posso ter mais. Sou acionista, tenho uma vida tranquila, confortável, e conseguimos criar uma estrutura interna que permite que, se eu amanhã não estiver aqui por algum motivo, a empresa não vai sofrer por causa disso.”
Foi um trabalho construído ao longo dos anos, assente na criação de equipas intermédias e na delegação de responsabilidades. Continua a gostar de acompanhar de perto o negócio e de conversar diariamente com as equipas, mas já não sente necessidade de estar permanentemente na linha da frente da operação.
É precisamente essa maturidade que o leva agora a olhar para lá da Alive. Pela primeira vez na carreira, começa a pensar de que forma a experiência acumulada ao longo de quase três décadas pode ter impacto para além da empresa que ajudou a construir.
“Começas a pensar que gostavas de ver outras coisas ou de poder interferir noutras áreas, que não seja só a Alive; que seja eventualmente o setor, que seja eventualmente toda a área do turismo, até em termos europeus.”
Marco Sequeira rejeita que a candidatura tenha nascido da ambição. Também evita falar em “missão”, uma palavra que considera excessivamente solene.
Na sua perspetiva, tudo aconteceu de forma bastante mais simples. A proximidade aos grupos de trabalho da APAVT permitiu-lhe conhecer pessoas, compreender o funcionamento interno da associação e perceber a dimensão dos desafios que o setor enfrenta.
“Esta candidatura nasceu principalmente por um simples fator. O facto de ter estado ao longo dos últimos anos mais envolvido com a APAVT abriu-me um bocadinho os olhos para aquilo que é o trabalho efetivo que a APAVT tem desenvolvido.”
Ao mesmo tempo, foi criando afinidades com outros empresários e dirigentes. Mais do que interesses comuns, encontrou uma forma semelhante de olhar para o mercado. “Tínhamos um bocadinho o mesmo mindset, a mesma mentalidade. Todos achamos que o mercado é pequeno demais para nos andarmos aqui a matar uns aos outros e que todos crescemos mais e melhor se houver áreas estruturantes que beneficiem o setor.”
Na sua leitura, a candidatura surge também num momento particularmente sensível para a atividade turística. Depois de quinze anos de presidência de Pedro Costa Ferreira, considera que a associação enfrenta um período de transição, numa altura em que se acumulam decisões determinantes para o futuro da aviação e do turismo em Portugal e na Europa.
A privatização da TAP e da SATA, a revisão da diretiva europeia dos direitos dos passageiros, a evolução do modelo de distribuição aérea, o novo aeroporto ou as ligações ferroviárias de alta velocidade são apenas alguns dos dossiers que enumera quase de rajada.
É precisamente por conhecer muitos desses processos que acredita poder dar um contributo à associação. Mas essa disponibilidade para assumir responsabilidades nunca significou procurar o caminho mais fácil. Pelo contrário.
Quando olha para a carreira, reconhece que durante muitos anos foi mais homem de decisões difíceis do que de consensos. “Os consensos chegaram já com a idade. Quando era mais jovem, era mais de decisões difíceis.”
Sorri ao recordar que, em várias empresas por onde passou, eram precisamente essas decisões mais delicadas que lhe acabavam por entregar. E continua a não fugir delas. “Não tenho medo de as tomar, nem de as comunicar, nem de as assumir.” A explicação vem acompanhada de uma expressão que usa frequentemente em tom de brincadeira. “Bater não batem e ralhar não dói.”
Prefere decidir, assumir as consequências e explicar as razões, em vez de esconder escolhas atrás de longos processos ou ambiguidades. Acredita que as “pessoas respeitam mais quem é transparente” do que quem evita conflitos.
A experiência ensinou-lhe que liderar não significa impor. Depois de mudar várias vezes de empresa ao longo da carreira, percebeu rapidamente que cada organização tem uma cultura própria e que chegar com respostas para tudo é, muitas vezes, o caminho mais curto para falhar. “Aprendi que, sem uma equipa e sem o apoio dos outros, não és nada nem ninguém.” Em vez de tentar mudar tudo de imediato, passou a privilegiar outra abordagem: ouvir, compreender as pessoas e perceber como retirar o melhor de cada uma. “Ou entras a pé juntos e é tudo como eu digo, ou então tens de ouvir as pessoas, perceber como são e encontrar a melhor maneira de as levar a trabalhar em conjunto.” É essa visão de liderança colaborativa que diz querer transportar para a APAVT, caso os associados lhe confiem a presidência.
“Aprendi que, sem uma equipa e sem o apoio dos outros, não és nada nem ninguém”
Quem o conhece profissionalmente descreve-o como alguém difícil de demover quando acredita que está certo. Não é uma característica que procure esconder. Pelo contrário. “Sou extraordinariamente teimoso.”
Sorri ao admiti-lo, mas faz questão de acrescentar uma nuance. Hoje já é diferente do jovem de vinte ou trinta anos, que dificilmente aceitava rever uma posição.
“Não quer dizer que não me façam mudar de opinião. Mas continuo a ter dificuldades, principalmente quando estou convicto a 100% de que aquele é o caminho.”
Há outro traço que também reconhece em si próprio. Nas discussões mais intensas, sobretudo em contexto de trabalho, tende a elevar o tom de voz. Não por zanga, garante, mas porque vive os assuntos com intensidade. “Às vezes tenho de parar a meio e dizer: atenção, eu não estou zangado contigo. É a maneira como me expresso.”
Se estes são os defeitos que identifica em si, as qualidades surgem quase como o contraponto. Marco Sequeira considera-se, acima de tudo, uma pessoa racional. E acredita que é precisamente nos momentos de maior pressão que essa característica mais se evidencia.
Ao longo da carreira já enfrentou crises que colocaram o setor à prova — da nuvem de cinzas provocada pelo vulcão islandês à pandemia de Covid-19 —, mas garante que raramente entra em pânico. “Muito dificilmente me vêem entrar em pânico, mesmo que a situação seja muito grave.”
A lógica é simples. “Se for mesmo grave e não houver nada a fazer, não vale a pena preocupar-me. Se houver alguma coisa a fazer, entrar em histeria também não me vai ajudar a resolver o problema.”
“Muito dificilmente me vêem entrar em pânico, mesmo que a situação seja muito grave”
Prefere respirar fundo, analisar a situação e encontrar uma solução. Fora do escritório, porém, há um lado bem mais descontraído. Ri com facilidade. Não precisa de grandes acontecimentos para isso. Basta ouvir Ricardo Araújo Pereira ou ligar a rádio de manhã. “Acho que sou uma pessoa naturalmente feliz.” Conta um exemplo que considera revelador. “Tenho um sono pesadíssimo. Mas se me acordares às quatro da manhã, acordo sempre bem-disposto.”
Já o que lhe tira verdadeiramente a calma são os chamados “erros não forçados”. Depois de ter passado praticamente por todas as funções numa agência de viagens — da emissão de bilhetes à operação, passando pela área comercial e pelos grupos —, acredita que há erros inevitáveis e outros que podiam simplesmente não acontecer. “Aquilo que me tira do sério é alguém cometer um erro que era perfeitamente evitável. Bastava estar atento.” Essa forma de estar acaba por refletir-se também na liderança. Marco Sequeira gosta de liderar pelo exemplo e rejeita modelos excessivamente hierarquizados. “Não peço nada a ninguém que eu já não tenha feito.” Quando surge um problema, há uma regra que nunca abdica de cumprir. Primeiro resolve-se. Só depois se analisam responsabilidades. Porque acredita que ninguém aprende sob pressão. Nem com medo.
“Aquilo que me tira do sério é alguém cometer um erro que era perfeitamente evitável”
O que procura nas pessoas que trabalham consigo também é simples. Mais do que experiência ou conhecimento técnico, valoriza a capacidade de ouvir, aprender e adaptar-se. No turismo, explica, quase todos chegam vindos de outras empresas. Uns trazem boas práticas; outros trazem apenas hábitos difíceis de abandonar.
É aí que, para si, se faz a diferença. “Se a pessoa tiver abertura para perceber que fazia as coisas de uma maneira, mas que agora está noutra empresa e tem de as fazer de outra, vamos entender-nos às mil maravilhas.”
Quando consegue desligar-se do trabalho, o programa depende da estação do ano. No inverno, o cenário ideal é simples: sofá, uma boa série ou um filme. É um apaixonado por cinema, daqueles que conhece realizadores, datas, atores com uma precisão que os amigos classificam como “enciclopédica”. Entre os cineastas, destaca Martin Scorsese e Christopher Nolan. Entre os filmes, é mais difícil escolher. O Padrinho continua a ser a grande referência. Na adolescência, perdeu a conta às vezes que viu Top Gun. “Devo tê-lo visto mais de 60 vezes.”
Mais do que isso, gosta de estar em casa. É ali que encontra o seu porto seguro. No verão, troca o sofá pela praia. O mar, diz, é praticamente inegociável. Aliás, admite que esse foi um dos motivos que pesou quando decidiu regressar de Madrid para Portugal, apesar das melhores perspetivas profissionais que Espanha podia oferecer. “Não conseguiria viver num sítio que não tivesse mar.”
Questionado sobre o destino de eleição, responde Nova Iorque, sem hesitar. Já lá esteve mais de dez vezes e continua a ser a cidade onde mais gosta de regressar. A escolha parece contraditória para alguém que admite preferir praia, calor e mar, mas explica-se por uma paixão antiga pelo cinema. Quando lá chegou pela primeira vez, teve a sensação de estar a entrar num filme que já conhecia de cor. “Cheguei lá e disse: ‘Isto é tal e qual como nos filmes.’ Sai fumo das tampas das sarjetas, há vendedores de cachorros-quentes nas esquinas… Amo passear pelas ruas de Manhattan.”
Se Nova Iorque é a cidade do coração, as viagens mais marcantes levam-no mais longe. A China impressionou-o pela imponência da Grande Muralha. Já a Indonésia conquistou-o pela diversidade das paisagens e pela forma como o turismo é vivido. “Gostei de tudo. Das cidades, das montanhas, da praia, da selva… E gostei muito do povo. Achei fantástico.” Nos próximos dias voltará a fazer as malas, desta vez para São Paulo, onde acompanha a abertura da operação da Alive no Brasil. As férias, essas, deverão resumir-se a uma semana no Algarve.
Se pudesse conversar com o Marco Sequeira de há vinte anos, também não lhe mudaria grande coisa. Dir-lhe-ia apenas para continuar a confiar nas escolhas que faz. “A pior coisa que podes fazer é ter medo de arriscar.” É um conselho que acredita servir tanto para a vida como para a carreira. Ao longo do percurso, viu demasiadas pessoas permanecerem na zona de conforto por receio de mudar. Ele preferiu quase sempre fazer o contrário. “A melhor coisa que podemos fazer é sair da nossa zona de conforto”.
Ainda assim, reconhece que há um sonho por cumprir. Não é um cargo, nem um projeto empresarial. É uma viagem. Gostava de percorrer a Austrália e a Nova Zelândia sem pressas, durante pelo menos um mês. Sorri quando lhe perguntamos se algum dia conseguirá desligar do trabalho durante tanto tempo. Tem esperança que sim. Até porque, brinca, a saúde parece estar do seu lado. “Ainda ontem fui fazer o meu check-up anual e, aparentemente, está tudo bem. Espero ficar cá mais uns anos.”
Talvez seja essa a melhor forma de resumir Marco Sequeira. Um homem que nunca deixou de olhar para a frente. Que continua a acreditar mais nas decisões tomadas do que nas oportunidades perdidas. E que, aos 52 anos, mantém a mesma curiosidade de quem ainda sente que há muito caminho por percorrer.




