Segunda-feira, Junho 17, 2024
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“Quando o Governo faz um plano de turismo até 2027, sem atender à construção de um novo aeroporto, não é consistente” (VÍDEO)

Na contagem decrescente para a realização do 32º Congresso Nacional da Hotelaria e Turismo, que acontece de 10 a 12 de novembro, em Albufeira, o presidente da Associação da Hotelaria de Portugal (AHP) faz um balanço do ano de 2021. Raul Martins afirma que a retoma já se iniciou, embora não de “forma uniforme” e espera este ano que os resultados, a nível de exploração, andem próximos do zero.

Em junho, afirmou que a retoma do turismo em Portugal tinha abortado e que não haveria retoma este ano. Agora que estamos em novembro, qual é a sua perspetiva?

A retoma já começou. Considero que a retoma ocorre quando temos mais de metade da ocupação que tínhamos em 2019. Ou seja, a ocupação média no país era de 70%, neste momento, é superior a 35% e está próxima dos 50%. Portanto, podemos considerar que já estamos em retoma. No entanto, temos quatro meses difíceis pela frente. A retoma não ocorreu de forma uniforme. Começou na Madeira, nos Açores e no Algarve, por força dos portugueses que aumentaram a sua escolha por Portugal no verão. Depois o Norte e, agora, Lisboa. O Interior manteve sempre um nível de procura muito interessante, acima das outras regiões.

A associação já calculou as perdas da hotelaria este ano?

Não, mas as perdas este ano, apesar de tudo, serão menores por força do apoio do Governo à manutenção do emprego. Enquanto que, no ano anterior, o layoff foi intermitente e começou mais tarde, em 2021 o layoff vai cobrir o ano todo e isso permite ter melhores contas. Pode ser que este ano o resultado, a nível de exploração, ande próximo do zero e que não haja prejuízo. A minha previsão é que possamos ter um ano zero.

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Como é que perspetiva este período de inverno até à Páscoa?

Sabemos que a procura se mantém, mas sempre com dificuldades de confirmação ou com confirmações de última hora. Estes três/quatro meses que aí vêm serão meses difíceis porque, à partida, são meses de baixa ocupação. Falo em três meses, porque o mercado já está a reagir para março. Aquilo que sabemos do mercado é que, em março, a ocupação já vai ser muito interessante. Estamos a ter muitas consultas de pequenos grupos.

Como é que se estão a comportar os mercados, nomeadamente o brasileiro, cujas restrições foram aliviadas mais tarde?

Ainda está retraído. Como se sabe, só aceitamos quem tenha a vacinação autorizada pela Europa. No Brasil, a maior parte das vacinas são chinesas e essas não são aceites na Europa. Isso provoca alguma dificuldade na vinda dos brasileiros, até no aspeto da mão-de-obra. Só uma pequena percentagem tem as outras vacinas no Brasil. Por isso, o mercado brasileiro ainda está muito fechado. Quanto ao mercado norte-americano, vai abrir agora a 8 de novembro e é muito importante, porque é uma altura em que os americanos viajam para fora (fim-de-ano). Era interessante para Portugal que esse mercado reabrisse, assim como o do Canadá.

E quanto aos mercados europeus?

Os mercados europeus têm reagido conforme as regiões. No Algarve, os britânicos têm-se mantido com a maior percentagem. Algo interessante é que há países que estão a ser quase novidade para determinadas regiões, como é o caso dos alemães com os Açores – pelo facto da Lufthansa estar a voar para os Açores. Há um interesse do mercado alemão pelos Açores, porque é um tipo de turismo que vai ao encontro destes novos conceitos de sustentabilidade e de natureza. Os Açores têm feito muito a sua campanha, e bem, nesse sentido, e isso tem tido reflexos não só entre os alemães, mas também com os americanos, que anunciaram que vão voar diretamente para os Açores.

“O futuro do turismo vai ser algo diferente, porque as pessoas vão procurar localizações com menos gente”

Créditos Its All About

O tema do congresso é o “O Turismo tem Futuro”. Esta é uma mensagem para quem não acredita no turismo?

Quando dizemos que o turismo tem futuro estamos a fazer o contraponto a alguns que disseram que o turismo não é uma atividade económica muito interessante para o país. Ora, não só é economicamente interessante para o país, como também é transversal. O turismo é uma atividade que faz movimentar toda a transversalidade da economia, desde a agricultura até à enologia. Tudo isso mexe e tem expressão a partir do momento em que o turismo funciona. Portanto, temos de fazer o contraponto dessas ideias que apareceram agora durante a pandemia. As pessoas querem continuar viajar, podem viajar por motivos diferentes e com escolhas diferentes, mas querem continuar a viajar. É uma ambição que é natural do ser humano. Por mais tecnologia e visitas virtuais que existiam, ir é outra coisa.

Que medidas são necessárias para assegurar que o turismo tenha futuro no próximo ano?

A primeira já conseguimos, que é sermos o país com a maior vacinação no mundo. Essa era a primeira condição para assegurar que o país tem presente e futuro. Quando qualquer um de nós pensa em viajar, vai procurar saber como está a situação epidemiológica no país para o qual vai viajar. Portanto, entre duas opções, vai escolher naturalmente aquela que estiver em melhores condições de segurança sanitária. Agora, como é que vai ser o futuro do turismo? O futuro do turismo vai ser algo diferente, porque as pessoas vão procurar localizações com menos gente. Esta situação da transmissibilidade do vírus criou nas pessoas a vontade de estar em sítios com menos gente. Por isso é que o Interior de Portugal foi muito importante nestes últimos tempos e vai continuar a ser procurado.

Depois, em termos de faixas etárias, as pessoas mais velhas estão retraídas quanto às viagens, porque são aquelas que têm maiores riscos. Essas procurarão mais ainda as situações de isolamento. A proximidade também será um factor. As pessoas vão preferir deslocar-se menos de avião. Isto vai modificar de alguma forma o perfil dos que viajam. As ofertas também irão, naturalmente, adaptar-se a isso. As ofertas dos hotéis serão cada vez mais no sentido da sustentabilidade. Isso hoje em dia, para uma boa parte dos turistas, importa.

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Contexto político e financeiro

Olhando para o atual contexto político do país, em que medida a dissolução da Assembleia da República e a marcação de eleições antecipadas afeta as empresas e a economia?

No consumo interno, pelo menos até ao Natal, não se vai fazer sentir. As pessoas estão ansiosas por ter as festas de Natal, por se reunirem. É provável que, a partir de janeiro, haja uma retração do consumo até haver Governo. A nível internacional, sabemos que, para os mercados internacionais e para a dívida, isso será uma preocupação. Provavelmente, teremos uma taxa agravada na renovação nos empréstimos internacionais. É certamente isso que nos poderá acontecer.

Em relação às empresas, havia situações no Orçamento de Estado (OE) que estavam em vias de decisão e que eram muito penalizadoras para as empresas. As empresas são um fator produtivo, se não criarmos riqueza através destas, não podemos distribuir riqueza para os funcionários, nem para o Estado. O OE não ter sido aprovado, à primeira vista, é uma situação que vai ser menos boa em relação ao endividamento, mas pensamos que a médio prazo é favorável às empresas.

Este OE não era bom para as empresas?

Este orçamento não trazia grandes apoios para as empresas. Dou o exemplo de algo que tem particular incidência no setor da hotelaria e turismo que é permitir que os investimentos sejam reduzidos no IRC. Aquilo que estava previsto era que pudesse ser reduzido em 20%, mas 20% num ano em que não há lucros, não ia adiantar muito.

Depois, há outras circunstâncias relativamente à legislação laboral que não têm em atenção as especificidades do turismo. Por exemplo, os jovens estudantes, se quiserem trabalhar nas empresas, têm limites. Não podem trabalhar mais do que um determinado número de horas durante cada mês. Falámos com a Ministra do Trabalho nesse sentido e é algo que vai ser ampliado.

Relativamente aos apoios do Governo à hotelaria, o que é que neste momento vos preocupa?

A  hotelaria tem sempre capital intensivo e grandes volumes de capital. Houve muitos hotéis que abriram antes de 2019 e, portanto, estão endividados. Aquilo que nos preocupa, e o Governo perdeu uma oportunidade de dar apoio aos investidores, é a Garantia do Estado de 25% do crédito sob moratória às empresas dos setores mais afetados pela pandemia. Os bancos não aceitaram e pura e simplesmente essa situação não resultou. Tanto quanto sabemos nenhum banco vai seguir essa medida. Os bancos vão ver caso a caso e, ao ver caso a caso, existirão situações que serão de difícil solução.

Quanto às moratórias, os bancos estão disponíveis para prolongar o prazo de não pagamento de capital – o Programa Retomar aponta no máximo dois anos. Penso que, em alguns casos, isso será necessário, mas de uma forma geral a situação do capital poderá ser de 12, 15 ou 18 meses e os bancos estão disponíveis para isso. Por outro lado, a Garantia do Estado não vai acontecer. Isso poderia dar às empresas e aos bancos alguma redução de risco. Claro que há casos de empresas ou hotéis que abriram em 2018 e 2019 que têm um grau de endividamento real e esses vão ser o problema maior para os bancos. Cada caso é um caso e isso deixa aqui um grau de imponderabilidade que o setor não gostaria de ter.

Falências, propriamente ditas, penso que não acontecerão, mas haverá, na medida em que o setor e a atividade turística é apetecível, naturalmente transações

Neste momento, qual é a real situação financeira dos hotéis e o que se prevê no futuro?

Penso que, nas situações em que os bancos não possam apoiar, haverá vendas a terceiros, sejam eles do próprio setor – há empresas portuguesas que estão disponíveis para isso, ou os fundos. Temos um painel no congresso dedicado a isso. Falências, propriamente ditas, penso que não acontecerão, mas haverá, na medida em que o setor e a atividade turística é apetecível, naturalmente transações e, nesse caso, entrarão alguns fundos. Nem todos os fundos vêm com um sentido negativo. As grandes empresas internacionais de hotelaria ou turismo têm sempre fundos a fazer investimento.

Na anterior crise, muitos bancos ficaram com hotéis. Isso poderá voltar a acontecer?

Não. Por um lado, a situação dos bancos é diferente. Os bancos na altura estavam muito pouco capitalizados e não conseguiam absorver os rácios de endividamento que tinham as unidades hoteleiras, porque as regras na Europa tinham-se tornado exigentes e os bancos tiveram pouco tempo para se adaptar às regras e exigências da Europa. Agora os bancos têm uma estrutura de capital que é mais estável. Portanto, conseguem suportar situações de endividamento mais prolongado.

O iVaucher atraiu mais portugueses aos hotéis?

Não propriamente. Não houve mais portugueses a irem aos hotéis. Para os hotéis foi pouco útil, na medida em que a maior parte dos clientes dos hotéis são estrangeiros. Todavia, nestes últimos meses, muitos hotéis tiveram na sua maioria clientes portugueses. Houve alguma utilização e vai continuar a haver até ao final do ano. É uma medida que não aumentou a procura e a faturação em si, mas pôde, de alguma forma, ser compensadora para o utilizador. Foi mais benéfica para o consumidor do que propriamente para a atividade.

O congresso vai ter um painel sobre a importância da acessibilidade aérea na recuperação do turismo em Portugal e outro sobre o Algarve. Falando do aeroporto de Faro,  registam-se longas filas de turistas por causa do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF). Além da importância de captar rotas, é também importante que as estruturas deem respostas convenientes aos turistas?

A atividade turística é muito pouco dependente do Estado. Não temos empresas turísticas do Estado. Portanto, o Estado muitas vezes não olha para o turismo atentamente. O que precisamos e o que exigimos aos governos é que criem condições para trabalharmos. Esta situação do SEF tem sido uma saga, e não sei se vamos chegar ao fim desta legislatura sem serem criadas as regras para um novo SEF, que estão para ser aprovadas pela Assembleia. Era muito importante que fossem aprovadas, para que o SEF deixasse de ter os constrangimentos que tem. A separação que o Governo fez está bem feita, mas não está implementada e enquanto não estiver, estamos a funcionar com o SEF como estávamos, em que não são atendidos os horários dos aeroportos, mas sim do funcionalismo público. Quando em Lisboa, os voos intercontinentais, que são aqueles que utilizam mais o SEF, chegam às 6 da manhã e há dois balcões, porque a maior parte só entra às 9h, não dá.

Créditos Its All About

Este será um dos temas deste painel ou está mais dirigido às acessibilidades aéreas?

As acessibilidades aéreas são o nó górdio do turismo para os próximos anos. Quando o Governo faz um plano de crescimento do turismo até 2027, sem atender à construção de um novo aeroporto, não é consistente. É para dar um sinal ao exterior, ao mercado, mas não resulta. Com as infraestruturas que temos não podemos ter mais turistas que tivemos em 2019. Todavia, pensamos que algumas companhias aéreas já estão a adotar algumas soluções para ultrapassar essa situação.

Concretamente?

No Algarve, há outra vez companhias aéreas a voar diretamente e não só as low cost. Isto, porque as companhias perceberam que o hub de Lisboa está esgotado. Preferem assegurar slots no Algarve, no Porto, nos Açores e na Madeira. Há companhias que não voavam, caso da Lufthansa nos Açores, mas também há companhias que estão a voar para o Algarve que não voavam e que estão a tomar posição. Para o ano, se a situação do transporte aéreo retomar, como se antevê, o aeroporto de Lisboa com o hub a funcionar será o caos. Estamos, neste momento, a ver as companhias, por iniciativa própria, a voar direto para o destino.

A CEO da TAP vai participar neste painel e sabemos que o Algarve não tem sido uma aposta da TAP. Qual é a sua leitura?

A TAP está a alterar a sua estratégia relativamente ao Porto. No Algarve temos ouvido menos essa situação, porque as companhias aéreas estrangeiras fazem com que existam fluxos estrangeiros, em especial as low cost. Felizmente que existem as low cost, porque, se não  existissem as low cost, Portugal estaria ainda na periferia da Europa. Portugal deixou de estar na periferia da Europa a partir do momento em que houve as low cost. O custo da viagem que antigamente se fazia por um determinado valor da Alemanha para Portugal hoje em dia é metade ou menos de metade. Hoje, o europeu viaja da Alemanha para França ao mesmo preço que viaja da Alemanha para Portugal, às vezes menos. Isso fez com que ficássemos no mapa e deixássemos de ser periféricos no sentido do custo da viagem.

Qual é a posição da AHP relativamente ao novo aeroporto de Lisboa ?

Entendemos que a Portela tem que continuar a existir. Somos defensores da Portela+1 desde sempre. Se o +1 é Montijo ou Alcochete, para nós não é essencial, o que é essencial é que a Portela continue a existir, ainda que não seja o hub. Entendemos que a solução para o Montijo como hub é mais interessante. Queremos que a Portela seja, de facto, um aeroporto mais para as deslocações ponto-a-ponto e não como hub. Ao contrário da ANA, que queria que o hub ficasse na Portela, porque em termos económicos era-lhe mais favorável. Olhámos sempre para o Montijo e entendemos que a melhor solução é que o hub seja no Montijo, até porque o hub em Alcochete tem custos para o país muito superiores ao do Montijo.

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