Sustentabilidade e emissões de GEE: proibir anúncios não é educar

-PUB-spot_img

“Se o objetivo for, de facto, mudar comportamentos, então o caminho não passa por banir a publicidade, mas por assegurar que ela se torna mais esclarecedora”

Por Paulo Brehm

Resulta esta reflexão da notícia, veiculada aqui no TNews, sobre a decisão da cidade de Amesterdão de banir a publicidade, em espaços públicos, a viagens aéreas, cruzeiros, automóveis a combustão, carne e combustíveis fósseis.

Acima de tudo, isto é, sobretudo, um exemplo claro de ativismo político levado ao extremo, onde o gesto simbólico se sobrepõe à eficácia real.

Em primeiro lugar, note-se que isto não é apenas uma cruzada contra o turismo. É uma guerra contra tudo o que emite — à partida, até soa bem. Mas falha na estratégia: quando se decide que a solução para a crise climática passa por apagar do espaço público tudo o que é incómodo, deixa-se de fazer política ambiental e passa-se a fazer pedagogia pela omissão. Não se resolve um problema complexo escondendo-o.

Esta abordagem faz lembrar os excessos de algum ativismo climático mais radical, que todos bem conhecemos: jovens a manifestarem-se — legitimamente — por um futuro melhor, mas que, ao começarem a atirar tinta contra obras de arte ou contra governantes, acabam por prejudicar a própria causa que dizem defender. O efeito é o mesmo: choque mediático, polarização do debate e perda de apoio social. A proibição da publicidade segue esta mesma lógica — moralmente ruidosa, politicamente vistosa, mas estruturalmente fraca.

No caso das viagens, a incoerência é evidente. Viajar não vai desaparecer porque deixa de ser anunciado num abrigo de autocarro. As pessoas continuarão a viajar — mas fá-lo-ão menos informadas, porque é aí, no espaço público, que se pode promover comunicação regulada, transparente e escrutinável. O resultado desta proibição não é menos emissões, é menos literacia.

Também não ajuda a tentação de simplificar a realidade com soluções fáceis, como as propostas que chegaram a ser apresentadas em Bruxelas de etiquetas “semáforo” aplicadas a pacotes turísticos. Classificar uma viagem como verde, amarela ou vermelha é politicamente apetecível, mas tecnicamente enganador. Reduz realidades complexas a cores, cria comparações falsas e substitui o pensamento crítico por um selo tranquilizador. Não informa — anestesia a opinião pública.

Se o objetivo for, de facto, mudar comportamentos, então o caminho não passa por banir a publicidade, mas por assegurar que ela se torna mais esclarecedora. Defendo a publicidade que informe, que compare opções, que apresente dados claros sobre emissões, que promova boas práticas e que não esconda nem maquilhe a realidade. Informação baseada em ciência, calculada por entidades independentes e credíveis, apresentada de forma honesta, sem moralismos nem infantilização do consumidor.

É neste contexto que a posição da associação de agências de viagens holandesa — ANVR — merece aplauso. Ao contestar judicialmente medidas semelhantes adotadas em Haia, a associação alertou para algo essencial: estas proibições restringem a liberdade de comunicação das empresas, limitam o acesso dos consumidores à informação e têm um impacto ambiental duvidoso, enquanto geram efeitos económicos reais. O tribunal pode ter validado a competência municipal, mas isso não transforma uma má política numa boa política.

A transição climática não se faz com proibições generalizadas. Faz-se com transparência, com informação rigorosa e com escolhas conscientes. Promovam-se as boas práticas. Destaquem-se as soluções melhores. Comparem-se impactos. Expliquem-se emissões. Mas silenciar o debate, escamotear a informação… é um erro que pagaremos mais à frente.

Por Paulo Brehm
Consultor de Sustentabilidade

DEIXE A SUA OPINIÃO

Por favor insira o seu comentário!
Por favor, insira o seu nome aqui

-PUB-spot_img