Revelamos histórias peculiares e inéditas dos profissionais de turismo vividas durante uma viagem e agora contadas na primeira pessoa.
André Gabriel, diretor da agência de viagens TEJUS
Em novembro de 2022, tive um dos episódios mais interessantes e de certa forma cómicos das minhas viagens.
Aconteceu no decorrer de uma famtrip, cujo propósito foi conhecer o Uzbequistão. Chegados a Tashkent, a capital do país, dirigimo-nos ao hotel, algo normal depois de algumas horas de voos. Fomos recebidos de braços abertos e, neste país, os braços são maiores do que parecem, pois o carinho e dedicação é inexplicável.
Feito o check-in, alguns funcionários pediram para tirar foto comigo na receção e lobby do hotel. Tudo tranquilo, pois quem me conhece, sabe que sou apaixonado por fotografia. Pensei que o motivo deste pedido seria o facto de estar de cabeça rapada e de barba densa e negra, algo menos habitual na moda uzbeque. Acreditei que este fosse o grande mote para quererem tirar uma foto com este exemplar ocidental, curiosamente com traços árabes.
Dirigi-me ao quarto, todo o grupo já tinha feito o mesmo, aproveitando o conforto de um quarto bem quente, já que no exterior estavam temperaturas negativas, creio! Passados 5 minutos de estar confortavelmente instalado, também eu dentro de lençóis brancos e suaves, a curiosidade chamou por mim e, como sempre, aquela voz a dizer-me: “A dormir não se aprende, estás num destino novo e tens de sair do quarto para te juntares ao povo que te acolhe”.
Assim foi, desço com mais um colega e, mal saímos do elevador, os funcionários da receção, atrapalhados por nos verem a sair da caixa cinza que sobe e desce, quando era suposto estarmos a descansar, cumprimentam-nos. É claro que simpaticamente foram retribuídos pelo gesto… Preparados para sair, pedimos para que nos chamassem um táxi e, enquanto esperávamos, os anfitriões da receção timidamente perguntaram se podiam tirar uma foto comigo. Claro que assenti, fizemos várias fotos e, num misto de uzbeque e inglês, pediram autorização se podiam partilhar as fotos nas redes sociais, claro que não me importei, até confesso que me senti importante, estranhava não terem tirado foto com o colega que me acompanhava. Falámos sobre isso, chegamos à conclusão que deveria de ser da barba… seguimos a nossa jornada assim que o táxi chegou.
Fomos à descoberta de Tashkent que, curiosamente, estava extremamente fria. Enfim, por ironia do destino, quem deu o nome a esta belíssima cidade provavelmente nunca teve aulas de latim, muito menos português, caso contrário hoje chamar-se-ia “Tasfria”.
Voltámos ao hotel, já era tarde, e fomos recebidos como sempre de forma calorosa, sentíamo-nos em casa, até que, numa língua que não era a minha chamaram alguém para me ver e tirar uma foto comigo, creio que vinha com as marcas QUERTY na testa de estar debruçado num teclado algures num gabinete. Acreditando que, eventualmente, eu poderia, sei lá… estar loiro de olhos azuis e de porte físico bem definido, lá tirei essa foto, e mais algumas, inclusive até dei um autógrafo… tudo bem! Tratava-se de uma recordação, pensei.
Subi ao quarto, dormi algumas horas (muito poucas), e às quatro de manhã já estava na recepção, o primeiro a chegar para apanhar o transfer até ao aeroporto para seguir num voo interno até Bucará. Adivinhem como fui recebido? De forma calorosa e com muito entusiasmo… ótimo, pensei eu, que povo incrível! E são! É claro, Zé Tuga que sou, precisei de um expresso, para poder abrir a pestana (todo o português precisa de um café forte pela manhã, ainda para mais quando não se dorme praticamente nada). Assim que perguntei na recepção se era possível tomar um expresso, começou todo um movimento incrível por um simples café. Já acompanhado por mais alguns colegas, somos encaminhados para uma sala perto da receção, com música e videoclipes transmitidos na tv… incrível, pensei. Todo o alvoroço tinha sido para que a sala tivesse algum ambiente uma vez que eram quatro da manhã… pensei eu… na realidade até era mais ou menos essa a intenção.
Tomei o expresso, acompanhado de alguns colegas, como se de um clube secreto se tratasse e eis que, após o café, mais dois funcionários do hotel quiseram tirar foto comigo… e porquê só comigo? Era a grande questão? Afinal estão aqui mais espécies idênticas, e eu já tinha confirmado no espelho que não estava loiro, nem de olhos azuis (nem vou comentar a parte do “bem definido”).
Fui direto ao assunto: porque razão todos querem tirar foto comigo? Meio envergonhado. confesso… e para grande desilusão dos funcionários do hotel, eis a resposta de uma funcionária: porque tu és o Drake?
Claro que se soltou uma grande risada entre os portugueses, pois não podíamos acreditar que durante todo este tempo me estariam a confundir com Drake, expliquei que não era, no entanto, tinham todas as evidências do momento apontavam o contrário: o meu nome é André, e Drake na acentuação árabe não é assim tão distante, e no videoclipe do Drake que estava na “berra” nessa altura, o sujeito aparece de cabeça rapada e barba densa como a minha.
Senti alguma desilusão da parte de alguns, mas mesmo assim não quiseram correr o risco, pediram autógrafos na mesma e tiramos mais fotos que publicaram depois nas suas redes sociais, nas quais me identificaram e, pelo sim, e pelo não, identificaram também o Drake. Não fosse eu estar a utilizar um pseudónimo para passar despercebido. Rimos com isso!
A partir desse momento e durante toda a viagem, o grupo chamou-me de Drake. Ora, foram vários os momentos e diversas pessoas por esse país que acreditaram estar diante de uma grande celebridade.
No metro, abriram-se alas para passarmos, e arranjavam-se lugares para me sentar, claro que nunca em momento algum me fiz passar por quem não era. Mas foi muito engraçado…
Percebi, nesse momento, o quão constrangedor pode ser a vida de uma celebridade verdadeira por alguns instantes.
Esta história de ser confundido com celebridades não ficou por aqui, já aconteceu mais duas vezes, a última foi no Brasil. Fui passar o fim de ano em família e estávamos num restaurante cheio de pinta (rodízio brasileiro), com celebridades brasileiras, de facto. Estávamos sentados com uns amigos a jantar serenamente e eis que de uma das mesas próximas de nós mete conversa comigo, e pede para tirar uma foto (já tinha tirado uma foto com alguém quando fui à rua fumar o meu cigarro). Vi-me a repetir a história… esclareci logo que não era o Drake, pois… risos e tal… resumindo, até esta resposta assentava no novo perfil com que me estavam a confundir… cujo nome não sei, mas que se tratava de humorista brasileiro, até fotos dele no telemóvel colocaram ao meu lado para terem a certeza se era eu ou não!!!
Confesso que teve muita piada, e foi divertido…


