Apesar de o Reino Unido continuar a ser o principal mercado emissor de turistas para Portugal, as empresas nacionais presentes na World Travel Market (WTM) identificam sinais de estagnação e alertam para o impacto do aumento dos preços da hotelaria e dos voos. A diferenciação da oferta e a criação de experiências autênticas surgem como os principais caminhos para manter a atratividade do destino português.
Em entrevista ao TNews, na World Travel Market (WTM) as opiniões convergem: o mercado britânico mantém-se “fiel” a Portugal, mas enfrenta novos desafios. Cláudia Vilela, do departamento de incoming da Lusanova DMC, acredita que “Portugal vai ser sempre um destino preferencial para o mercado britânico”, não só pelas ligações diretas, mas também pelo “historial de confiança” entre os dois países. Ainda assim, reconhece que a competitividade aumentou. “Portugal está a competir agora com destinos que antes não o fazia. Os preços têm subido e isso pesa cada vez mais na decisão do viajante.”
A questão do preço é também destacada por Rita Matos, diretora de vendas da Neya Hotels, que sublinha a necessidade de equilíbrio: “Estamos agora facilmente aos mesmos preços de Milão ou de Londres. Já não temos aquele fator de atração que era o preço, e temos de ter cuidado com isso.”
Para a responsável, a aposta deve passar por valorizar a autenticidade e as experiências locais. “Portugal tem capacidade para se manter no topo, mas precisa de se diferenciar, não apenas pelo custo, mas pelo que oferece.”
Alexandra Henriques, diretora de marketing da Wotels, partilha uma visão semelhante. A responsável admite uma ligeira quebra no mercado britânico no segmento dos hostels, devido “ao aumento do preço dos voos e das taxas turísticas em Lisboa”. Ainda assim, explica que o Reino Unido continua a ser “um mercado muito relevante” para as unidades de gama superior do grupo, sobretudo as signature. “Os turistas britânicos continuam a procurar Portugal, mas mais experiências do que alojamento, é isso que temos de oferecer”, acrescenta.
A necessidade de oferecer algo “único e genuíno” é também defendida por Manuela Azevedo, diretora de vendas globais da WOW Porto, que considera que o sucesso passa pela “autenticidade da hospitalidade portuguesa” e por produtos diferenciadores. “No caso do WOW, não há comparação, é um produto que não existe igual”, afirma.


Desafios para 2025: preços, infraestruturas e diferenciação
No segmento do turismo de luxo, Adelino Inácio, CEO da Gold Limousine, confirma a retoma do mercado britânico após a pandemia, mas também identifica o preço como “o principal obstáculo”. “Os hotéis em Portugal estão superinflacionados em comparação com outros países”, referiu, apontando que alguns clientes já manifestam descontentamento com o custo das estadias.
Do lado das atrações turísticas, Luís Valente, responsável pelas parcerias do Museu e Estádio do Futebol Clube do Porto, descreve uma realidade positiva e equilibrada. O responsável recorda que, desde que o museu abriu portas em 2013, o mercado internacional tem vindo a crescer, com o Reino Unido a assumir “um peso significativo”, sobretudo nos últimos anos, impulsionado pelo interesse crescente no futebol e no desporto em geral. “Temos uma estratégia de preços equilibrada e uma oferta diferenciada, o que nos tem permitido manter a procura estável e competitiva face a outros mercados”, acrescenta.
As preocupações com o preço cruzam-se ainda com outros temas: a falta de capacidade do aeroporto de Lisboa, os custos das viagens e a imagem externa do país. Para Alexandra Henriques, “as taxas turísticas, o aumento dos preços dos voos e a situação do aeroporto” podem comprometer o crescimento do turismo. “Não podemos continuar assim, sob pena de perdermos visitantes.”
Apesar das diferenças de perspetiva entre operadores turísticos, grupos hoteleiros e atrações, todos concordam que o desafio passa por reforçar a identidade do destino português. Como sintetiza Cláudia Vilela, da Lusanova, “quanto mais também nos diferenciarmos e encontrarmos estes fatores diferenciadores, mais vamos ganhar e talvez a questão de um preço que é um desafio vai ser menor”.
WTM como palco estratégico para novos negócios
Quanto à presença na WTM, as empresas sublinham o papel do evento como ponto de encontro essencial para o turismo português. Para Rita, da Neya Hotels, “a feira é um hub para novas parcerias e tendências globais”. Já Alexandra Henriques explica que a Wotels está em Londres para apresentar o seu novo rebranding, que distingue as marcas WOT Social, WOT Signature e WOT Soul. A Lusanova, o WOW e o FC Porto destacam a importância de reforçar relações comerciais e promover produtos diferenciados, enquanto a Gold Limousine procura diversificar o alcance internacional da sua operação.



