Quase quatro em cada cinco rotas aéreas europeias com menos de 50 mil lugares disponíveis por ano são operadas por uma única companhia aérea, o que evidencia a vulnerabilidade de muitas ligações regionais e a falta de alternativas para os passageiros. O alerta consta do Annual Pulse 2026: The State of Regional Aviation in Europe, relatório divulgado pela Associação Europeia de Companhias Aéreas Regionais (ERAA) durante a sua Assembleia-Geral, que decorreu a 5 de outubro, em Belfast.
O documento revela também que 42% das rotas europeias de curta distância disponibilizam menos de 50 mil lugares por ano, mas representam apenas 6% da capacidade programada. Apesar do peso reduzido no total de lugares disponíveis, estas ligações podem ser fundamentais para assegurar a mobilidade de comunidades insulares e regiões periféricas.
A dimensão desta rede torna-se mais evidente quando comparada com as rotas de maior procura. Segundo a ERAA, as 440 rotas mais movimentadas da Europa concentram cerca de 25% da capacidade total. Uma proporção equivalente está distribuída por aproximadamente 5.700 rotas de menor volume, muitas das quais dependem de um único operador.
O relatório alerta, assim, para uma realidade que os indicadores globais de tráfego nem sempre revelam: uma ligação com poucos passageiros pode ter uma importância desproporcionada para o território que serve, sobretudo quando não existem alternativas de transporte viáveis.
Shetland: voos para comunidades com poucas alternativas
Um exemplo concreto da importância destas ligações encontra-se nas ilhas Shetland, na Escócia. A partir do aeroporto de Tingwall, são assegurados voos interilhas para comunidades como Foula e Fair Isle, através de aeronaves de pequena dimensão. O serviço é contratado para garantir a ligação entre estas ilhas e a ilha principal do arquipélago.
Estas ligações ajudam a ilustrar o papel da aviação regional em territórios onde as alternativas de transporte são limitadas. No entanto, o relatório da ERAA não identifica estas rotas individualmente como ligações com menos de 50 mil lugares anuais; são exemplos do tipo de serviço regional em causa, não uma confirmação desse limiar específico.
O documento da associação destaca que a conectividade aérea é importante para ligar comunidades, empresas e serviços públicos. A diretora-geral da ERAA, Montserrat Barriga, considera que os números globais de crescimento do tráfego não mostram toda a realidade da aviação europeia, uma vez que milhares de serviços regionais asseguram ligações essenciais, muitas vezes sem alternativas comparáveis.
ERAA pede políticas adaptadas à aviação regional
Perante este cenário, a ERAA defende um enquadramento político e regulatório que tenha em conta as diferenças entre os mercados da aviação europeia. A associação considera que as rotas de elevada procura e as ligações regionais de menor dimensão não devem ser avaliadas segundo os mesmos critérios.
Entre as prioridades identificadas estão a proteção da conectividade regional, o apoio às obrigações de serviço público, a simplificação regulatória e a criação de condições que permitam às companhias aéreas investir na descarbonização, sem comprometer a viabilidade das operações.
O relatório chama ainda a atenção para a evolução da oferta ao longo das últimas duas décadas: a capacidade média dos voos aumentou cerca de 50%, enquanto o número de voos por rota operada diminuiu aproximadamente 40%. Para a ERAA, estes dados reforçam a necessidade de avaliar não apenas o número de lugares disponíveis, mas também a frequência das ligações e as necessidades específicas de cada região.
A associação defende, por isso, que as decisões sobre o futuro da aviação europeia devem considerar o contributo destas rotas para a coesão territorial, a competitividade económica e a mobilidade das populações, além dos indicadores globais de tráfego.




