A Comunidade Intermunicipal do Douro (CIM Douro) quer que o crescimento turístico da região seja cada vez menos medido pelo número de visitantes e mais pelo valor económico que estes deixam no território. Em entrevista ao TNews, Miguel Santos, secretário executivo intermunicipal da CIM Douro, aponta a internacionalização, a captação de eventos, a diversificação da oferta e a redução da sazonalidade como prioridades, ao mesmo tempo que identifica desafios na mobilidade interna e defende investimento continuado na Via Navegável e na Linha do Douro.
“O indicador de sucesso do Douro não deve ser o número máximo de visitantes; deve ser o valor máximo que conseguimos gerar para o território com uma pressão turística sustentável”, afirma Miguel Santos. Para o responsável, o crescimento não pode ser avaliado apenas através do número de hóspedes e dormidas, sendo necessário perceber quanto valor é gerado por cada visitante e, sobretudo, quanto permanece na região.
A CIM acompanha, por isso, indicadores como a receita por quarto disponível, o preço médio por noite, a estada média, a sazonalidade e a evolução da procura internacional, mas pretende cruzá-los cada vez mais com dados sobre emprego, remunerações, criação e sobrevivência de empresas, volume de negócios, investimento privado e compras a fornecedores locais.
O próximo passo será criar um índice de valor turístico do Douro, combinando indicadores tradicionais com informação quase em tempo real, proveniente de pagamentos eletrónicos, mobilidade, reservas, ocupação ou procura digital. O objetivo, explica Miguel Santos, é passar “de saber quantas pessoas vieram para saber quanto deixaram, onde deixaram, durante quanto tempo e quem beneficiou desse valor”.
Espanha, Estados Unidos, França e Alemanha são atualmente os principais mercados do Douro em termos de dormidas. No turismo fluvial, o perfil é diferente, com Estados Unidos, Reino Unido, Canadá e Austrália a assumirem maior peso. “Neste momento, sentimos uma forte procura do mercado brasileiro”, acrescenta Miguel Santos.
Eventos como instrumento de internacionalização
A captação de eventos é uma das componentes da estratégia de afirmação internacional do Douro, mas a CIM não pretende competir necessariamente pela realização de iniciativas com dezenas de milhares de participantes.
“Estamos a falar de grandes eventos pela sua relevância, notoriedade internacional e capacidade de projetar o território”, esclarece Miguel Santos. Entre as áreas prioritárias estão vinho e gastronomia, cultura e indústrias criativas, turismo, natureza e desporto, além do segmento corporate e MICE premium, sobretudo para grupos entre 50 e 500 participantes. A estratégia passa por captar públicos com “maior capacidade de despesa, profissionais, imprensa e prescritores internacionais” e traduzir essa procura em estadias, restauração, consumo de produtos locais e atividade económica no território.
“O Douro não precisa de construir uma infraestrutura gigantesca para competir com destinos que recebem grandes eventos. Precisa de transformar o próprio território na infraestrutura do evento”, defende Miguel Santos, explicando que o objetivo não é apenas receber iniciativas, mas utilizá-las “como instrumentos de internacionalização e desenvolvimento económico do Douro”.
A capacidade de alojamento cresceu significativamente na última década e é considerada suficiente para eventos de algumas centenas de pessoas, sobretudo através da articulação entre hotéis, quintas e outras unidades. A situação muda, porém, quando estão em causa vários milhares de participantes.
Nesse caso, “a capacidade de alojamento, sobretudo concentrada e de determinada categoria, continua a ser uma limitação. E devemos reconhecê-lo”, admite. Para Miguel Santos, o desafio não passa simplesmente por aumentar o número de camas, mas por garantir “a capacidade certa, no local certo, para o tipo de eventos que queremos captar”.
Um dos primeiros exemplos desta estratégia será a realização do Concours Mondial de Bruxelles no Douro, em 2027. A CIM espera que o evento coloque a região perante profissionais, compradores, jornalistas, sommeliers e outros prescritores internacionais com capacidade para influenciar decisões de consumo, viagens e programação turística nos respetivos mercados.
Mas “a notoriedade, por si só, não chega”. A intenção passa por transformar o concurso numa plataforma de promoção antes, durante e depois da sua realização, aproximando operadores turísticos e imprensa da oferta local. “Queremos que quem venha ao Douro para provar vinhos saia daqui também a conhecer a paisagem, a gastronomia, o património, as pessoas e a diversidade dos diferentes municípios”, afirma Miguel Santos.
O impacto será, por isso, avaliado para lá de 2027. “O verdadeiro sucesso não será medido apenas pelo impacto mediático do concurso”, sublinha, mas pela capacidade de gerar, nos anos seguintes, mais procura internacional, estadias mais longas, maior gasto por visitante e uma procura mais distribuída pelo território e ao longo do ano. O objetivo, resume, é que o Douro deixe de ser reconhecido apenas como produtor de alguns dos grandes vinhos mundiais e passe a afirmar-se também como “um dos grandes destinos vínicos do mundo”.
“Não queremos que a experiência do Douro comece e termine no vinho”
O vinho continuará a desempenhar um papel central na projeção internacional do território, mas a CIM quer alargar os motivos de visita. “Não queremos que a experiência do Douro comece e termine no vinho”, afirma Miguel Santos.
A bioeconomia deverá também assumir um papel nesta diversificação. A estratégia passa por criar ligações entre turismo, produção local e atividades económicas associadas à agricultura, floresta, alimentação, natureza e conhecimento, de modo a fazer com que a procura turística gere valor noutros setores da economia regional.
“Não vejo o vinho como uma dependência. Vejo-o como uma extraordinária porta de entrada para um território muito mais complexo e diversificado”, explica. A ambição é que, no futuro, o Douro consiga também motivar viagens centradas na gastronomia, natureza, património, desporto ou paisagem cultural. “O próximo ciclo do turismo do Douro será menos sobre criar atrações artificiais e mais sobre transformar os ativos que já temos em experiências, produtos e valor económico.”
Esta diversificação está igualmente ligada ao combate à sazonalidade. Além de produtos adequados aos diferentes momentos do ano, os eventos deverão ajudar a gerar “novos picos de procura fora dos períodos tradicionais”, enquanto a utilização de dados permitirá identificar mercados com maior propensão para viajar fora da época alta e perceber onde existe capacidade disponível.
“A nossa estratégia de dessazonalização não é tentar reproduzir o verão durante doze meses; é dar a cada época do ano uma razão própria para visitar o Douro”, resume Miguel Santos.
Turismo fluvial: Fazer do rio uma “porta de entrada” para o território
O futuro da Via Navegável do Douro é outro dos desafios identificados. Miguel Santos reconhece o contributo do turismo fluvial para a notoriedade e procura da região, mas considera necessário acompanhar o crescimento com um “modelo de gestão eficiente” e criar condições para que os operadores diversifiquem a oferta.
A prioridade é reforçar a ligação entre os passageiros dos cruzeiros e o território em terra, incentivando o contacto com a gastronomia, vinho, património, cultura, produtos locais e comunidades. “O próximo desafio do turismo fluvial é fazer com que o rio seja cada vez mais uma porta de entrada para o território, e não apenas uma forma de o atravessar”, afirma.
A CIM defende igualmente a continuação do investimento e qualificação da Via Navegável, tendo em conta não apenas o aumento da procura, mas também segurança, eficiência, capacidade e sustentabilidade ambiental. “Crescer, sim, mas garantindo sempre a sustentabilidade do produto turístico, da via navegável e do ecossistema que lhe dá valor”, sustenta.
A distribuição dos fluxos pelos 19 municípios é outra prioridade. Em vez de retirar visitantes aos pontos de maior procura, a CIM pretende transformá-los em portas de entrada para outras zonas, através de rotas, redes e experiências que cruzem ativos de diferentes municípios e incentivem estadias mais prolongadas.
A conectividade é apontada como uma das limitações à experiência turística no território. “Para muitos visitantes, chegar ao Douro é relativamente simples; circular pelo Douro sem transporte individual continua a ser mais difícil”, reconhece Miguel Santos.
Entre os investimentos considerados prioritários estão a qualificação das ligações rodoviárias e ferroviárias, a modernização da Linha do Douro, a articulação com o Aeroporto do Porto e soluções de mobilidade intermodal e de última milha que permitam ligar estações, cais, centros urbanos, hotéis, quintas e atrações. A conectividade digital deverá acompanhar estes investimentos.
A tecnologia deverá também desempenhar um papel crescente na gestão turística. Miguel Santos vê potencial na inteligência artificial para “conhecer melhor a procura, antecipar tendências, gerir fluxos, personalizar recomendações e ultrapassar barreiras linguísticas”, assim como para democratizar o acesso dos operadores de menor dimensão a ferramentas de promoção, gestão e conhecimento.
Há, contudo, uma dimensão que considera insubstituível: “a relação humana”. É também neste princípio que assenta o HOST Douro, evento promovido pela CIM Douro e dedicado à reflexão sobre a hospitalidade enquanto ativo estratégico para o território. Quando apresentou a primeira edição ao TNews, em 2025, Miguel Santos defendia precisamente a necessidade de tratar a hospitalidade “com o mesmo rigor com que tratamos outros setores estratégicos” e assumia a ambição de transformar o HOST Douro num evento de referência. Um ano depois, o responsável enquadra também o papel da tecnologia nesta estratégia, defendendo que deve servir para “libertar e valorizar o fator humano, e não para o eliminar”. Segundo Miguel Santos, “quanto mais digital se torna o turismo, mais diferenciadora pode ser a autenticidade de uma relação verdadeiramente humana”.
Até 2030, a CIM Douro não estabelece como principal objetivo atingir um determinado número de turistas. A prioridade será aumentar o valor económico gerado por visitante, prolongar as estadias, reforçar a internacionalização, reduzir a sazonalidade e distribuir melhor os benefícios da atividade pelos diferentes municípios.
“Em 2030, o sucesso não será termos atingido o maior número possível de visitantes”, conclui Miguel Santos. “Será conseguirmos que cada visitante fique mais tempo, deixe mais valor no Douro e que esse valor chegue a uma parte maior do território e das comunidades.”




