Entrevistámos Nuno Mateus, CEO da Solférias, que faz um balanço de 2026 até setembro. Apesar de ser um ano atípico e particularmente desafiante, marcado pela instabilidade geopolítica, pela subida do custo de vida e pela pressão dos combustíveis, o operador admite que a procura sofreu, mas destaca um balanço positivo do ponto de vista operacional. O Egito foi uma das grandes apostas e revela-se um dos destinos em maior destaque este ano, devendo continuar a ter um peso relevante na programação da Solférias em 2027.
Nesta entrevista, falámos ainda sobre as vendas para o fim do ano, o comportamento dos consumidores, a pressão sobre as margens, o futuro da programação e os desafios dos aeroportos portugueses. Houve ainda espaço para falar da TAP e das expectativas do operador em relação ao processo de privatização da companhia aérea.
Estamos agora a aproximar-nos do final da época de verão: que balanço se pode fazer da operação até setembro?
Este ano foi bastante atípico. Aliás, o problema não começa só no dia 28 de fevereiro, com o início do conflito [Irão-EUA]. O primeiro problema até começou com a tempestade Kristin, na zona Centro, uma zona muito afetada e que acaba por representar ainda uma parte importante da nossa população.
Mas a verdade é que 2025 tinha sido extraordinário e todos os indicadores que tínhamos para 2026 iam exatamente no mesmo sentido. O problema é que o turismo é uma atividade muito volátil, que depende de tudo e de todos. E qualquer problema que haja, seja de saúde, seja de conflitos ou, neste caso, também do aumento considerável do custo de vida, tem impacto. Porque, quando o combustível aumenta, depois tudo aumenta em cadeia.
Claro que houve uma retração. Curiosamente, os impactos são um pouco cardíacos: há alturas em que se nota mais o impacto e outras em que se nota menos. Quando olhamos agora para o ano, e se fizer uma projeção até ao final do ano, a quebra nas vendas nem é assim tão significativa, mas a quebra na margem, essa sim. Ou seja, a procura diminuiu. No entanto, mantivemos toda a operação. Só a Solférias está envolvida em cerca de 25 operações charter por semana. Umas correram melhor, outras correram pior, mas, acima de tudo, mantivemos as operações.
Só houve uma, a Lisboa-El Alamein [Costa Norte do Egito], que não conseguimos manter por dificuldades de slots. Mantivemos todas as restantes operações, o que penso que é importante na transmissão de confiança para o mercado.
“a quebra nas vendas nem é assim tão significativa, mas a quebra na margem sim”
Que impacto teve esse contexto nas vendas e no comportamento dos consumidores? Tiveram de ajustar a oferta?
Não tivemos muitos ajustes. Os ajustes foram insignificantes. Tirando o Lisboa-El Alamein, mas, na altura, recolocámos logo os passageiros, não tivemos alterações.
Em termos de operação, até agora as coisas correram-nos bem. É um bom ano de operação para a Solférias. Em termos de procura, claro que houve uma quebra e isso nota-se. Não tenho ideia de ter visto campanhas tão agressivas no mercado como vi este ano.
Curiosamente, agosto vai bater as vendas de 2025. E isso é impressionante. É verdade que colocámos uma nova operação em Maceió, que não existiu no ano passado. Mas não podemos analisar uma operação de verão, de junho a setembro, só com agosto. Portanto, há números que eu ainda não tenho capacidade de analisar ao dia de hoje.
A guerra no Médio Oriente provocou uma alteração de uns destinos para outros?
Claramente, até porque o Médio Oriente e a Ásia são extremamente importantes na programação da Solférias. E, quando temos um conflito no Médio Oriente, durante um período largo, em que as operações estiveram inativas, é claro que o impacto para nós tinha de ser muito grande.
Curiosamente, temos naquela zona uma das maiores operações e um dos maiores sucessos da Solférias este ano, que é o Egito. E, na primeira fase, quando o conflito se iniciou, claro que tivemos cancelamentos para o destino. Agora, depois da recuperação, principalmente a partir do momento em que os nossos turistas começaram a ir para lá e perceberam que não se passava nada, o reativar do ritmo de vendas para o Egito tem sido extremamente interessante. Aliás, ao dia de hoje, o Egito e o Brasil são os dois destinos com maior crescimento, e o Egito está em número dois, a seguir a Cabo Verde. Isto só para demonstrar a dimensão da operação no Egito. Nunca tínhamos tido cinco voos para o Egito, quando no ano passado tivemos três, no melhor ano de sempre para o destino.
Portanto, o Egito é realmente um país que está muito próximo [do conflito], mas que não tem nada a ver e que é, realmente, uma das grandes bandeiras da Solférias este ano.
Em 2025, notou-se uma mudança clara no comportamento do consumidor, sobretudo na antecipação das reservas. Essa tendência consolidou-se em 2026 ou voltámos a assistir a uma procura mais próxima da data da partida?
Este ano tivemos, até ao final de fevereiro, uma antecipação significativa. Por isso é que estávamos com um crescimento de 14%. Portanto, nada tinha mudado.
A verdade é que, quando o conflito se inicia, as pessoas ficaram expectantes. Não nos devemos esquecer de que o nicho dominante no verão são as famílias. E nós somos latinos e temos um espírito de proteção familiar muito grande.
E, portanto, as pessoas começaram a aguardar. É verdade que, a partir daí, houve este ano uma tendência para a última hora, que teve um peso que não tinha tido até àquela altura. Também é verdade que, este ano, a última hora é possível porque há muitos lugares disponíveis.
No entanto, olho para o final do ano e está super bem vendido. Em relação às vendas para 2027, ao dia de hoje, comparando com o período homólogo, estamos 20% acima.
Portanto, faz-me lembrar um pouco o pós-Covid. Apesar de serem situações completamente diferentes e de, no Covid, as famílias estarem realmente com muito dinheiro para gastar, neste momento não é esse o caso, até porque está muito mais caro. Mas viajar é realmente uma necessidade. E percebemos que as pessoas, há momentos, preferem adiar, mas não cancelar.
Não tenho a menor dúvida de que, em relação a muitos destinos, muitos passageiros que acabaram por cancelar as suas viagens vão tentar viajar em 2027 para esses destinos. Julgo que há muitos destinos que vão ter uma procura muito forte no próximo ano.
“Não tenho ideia de ter visto campanhas tão agressivas no mercado como vi este ano”
Até à data de hoje, que destinos lideram as vendas da Solférias este ano?
Cabo Verde, à semelhança do que está a acontecer em Portugal e Espanha, por estar numa zona oposta ao conflito, acaba por ser beneficiado.
A seguir, entramos realmente nas grandes surpresas. Ou não. O Egito não podia ser uma surpresa porque nós, à partida, tínhamos cinco voos programados.
A verdade é que depois colocámos mais um. Mas mantivemos, por exemplo, neste momento, três voos para Hurghada por semana, um deles extra. Portanto, nesse aspeto, realmente o Egito foi extraordinário.
E depois o Brasil. O Brasil está com um crescimento incrível. Lançámos a operação para Maceió e a procura tem sido muito boa. Alagoas é, este ano, sem dúvida nenhuma, a região mais vendida do Brasil na Solférias. E o fim de ano para o Brasil também está incrível.
Ou seja, o Brasil realmente voltou a ter uma grande procura. A operação charter da Tunísia, também correu extremamente bem. A Disneyland Paris também, com um crescimento muito, muito bom.
Depois temos Senegal e Porto Santo. O número oito é realmente de tirar o chapéu, porque são as Maldivas, apesar de as principais companhias aéreas que voam para as Maldivas acabarem por estar afetadas. E, mesmo assim, não deixam de estar em número oito.
E depois temos como destaque São Tomé e Zanzibar. Portanto, as pessoas continuam a viajar.
O Egito foi uma das grandes apostas da programação, com um reforço significativo da capacidade. A procura respondeu?
A procura respondeu. O Egito é um destino incrível, até pela sua diversidade. Começámos, no início, só com Hurghada. E durante muito tempo só tínhamos Hurghada e os programas culturais, ou seja, os circuitos. Mas, em charter, só tínhamos Hurghada. Depois, apostámos na Costa Norte, que é uma zona completamente nova, e foi um grande sucesso. E este ano apostámos em mais um destino novo, que foi Sharm El Sheikh.
Em particular, o voo de Sharm El Sheikh a partir do Porto, qual foi a procura que teve?
Teve uma boa procura. Só para se ter uma ideia, antes do conflito, durante muito tempo, o Egito era o destino que estava a liderar as vendas. Uma coisa que nunca tinha acontecido na Solférias.
E por isso é que não tenho dúvidas nenhumas de que o Egito é realmente um grande produto e de que, o facto de cada vez mais turistas portugueses visitarem o Egito, desperta cada vez mais a curiosidade de outros, através do marketing boca a boca.
“antes do conflito [Irão-EUA], o Egito era o destino que estava a liderar as vendas. Uma coisa que nunca tinha acontecido na Solférias”
E é uma aposta para continuar?
Sim. Aliás, o Egito sempre fez parte da nossa programação. O ADN, o núcleo duro da Solférias, está na essência dos lançamentos dos charters para o Egito e, portanto, neste momento temos programação contínua desde 2019, à exceção dos anos da pandemia. Só não falo em relação a 2027 porque as coisas ainda não estão assinadas, mas não fugirão muito à programação que temos em 2026.
A Solférias apostou numa operação direta para Maceió, com 2.475 lugares. Como correu a operação? Os resultados corresponderam às expectativas iniciais?
Quer dizer, mais, gostávamos sempre de ter. Maceió teve uma desvantagem porque a operação só surgiu em março.
Ou seja, enquanto toda a nossa programação surge à volta de outubro e nós promovemos, fazemos a Black Friday, a BTL, etc., Maceió acabou por surgir em março, quando todos os grandes eventos já tinham passado. E isso tem, naturalmente, uma desvantagem ao nível das reservas antecipadas.
O que pretendemos, no futuro, é ter a operação a começar a ser trabalhada em outubro, como todas as restantes operações, fazer um caminho e, aí sim, podemos comparar o comparável. Ou seja, Maceió não está na mesma situação que outros destinos que começamos a trabalhar com meio ano de antecedência. Agora, claro que a vantagem foi oferecer uma alternativa numa zona geográfica diferente.
Hoje em dia, pela qualidade do alojamento que existe no Nordeste, até dá para que os portugueses escolham estados diferentes todos os anos. O Brasil realmente evoluiu muito, muito mesmo.
E a capacidade que a TAP coloca, principalmente a TAP, mas não só, em relação ao Brasil, naturalmente favorece-nos.
É uma operação para repetir? Há margem para crescer e apostar mais no Brasil?
O Brasil já está no nosso top nos últimos anos, ou seja, vendemos muito em regular e vendemos muito no fim de ano.
A diferença é que este ano também começámos a vender muito no verão e, portanto, é normal que voltemos em 2027. Por agora, como não temos nada fechado em termos de contratos, não me vou adiantar, porque é algo que não gosto de fazer.
O aumento do preço do combustível trouxe uma pressão adicional sobre as operações aéreas. Como é que lidaram com isso? A Solférias absorveu esse aumento de custos?
Houve de tudo. Para já, a lei só permite que o aumento seja até 8% do preço do pacote e, portanto, nem sempre conseguimos aumentar tudo aquilo que as companhias aéreas nos passaram. Tivemos de aumentar sempre que as companhias aéreas nos passaram essa informação, mas nem sempre passámos para o cliente o valor que nos foi passado a nós.
Em muitas situações, principalmente na altura do pico do preço do combustível, sabíamos que os valores eram incomportáveis e não queríamos, de todo, colocar as operações em risco. E, por isso, tivemos de absorver uma boa parte dos suplementos. É algo que faz parte do risco do negócio e o mercado nem sabe quanto é que nós absorvemos. Mas posso hoje dizer que foi bastante.
Isso terá impacto nos resultados finais do ano?
Como é evidente. Por exemplo, quando eu dizia há pouco que o problema não é tanto nas vendas, mas mais na margem.
Notam que o cliente está sensível ao preço?
Sim, o preço é sempre um dos aspetos fundamentais na escolha. É claro que há uma ideia bastante generalizada de que é muito mais fácil aumentar os preços do que baixar os preços. Vemos isso no dia a dia com a questão da atualização do preço do combustível à segunda-feira. A verdade é que o preço do jet fuel neste momento está bastante mais caro do que o combustível normal. E as pessoas partem sempre do princípio de que estamos a comparar com o preço da gasolina nas bombas. Não. O jet fuel tem, neste momento, ainda maiores limitações, porque nem todos os países produzem ou refinam jet fuel. E, claro, a procura é muito grande, a pressão é muito grande. Nós não ganhamos nada no jet fuel. Só estamos a perder. Agora, sabemos que as companhias aéreas têm capacidade para suportar aqueles valores todos e nós também não. Portanto, temos de arranjar aqui equilíbrios.
Fim de Ano e Operação 2027
Como é que estão as vendas para o fim de ano?
O fim de ano está muito bom. Neste momento, das três operações charter que colocámos para Salvador, Maceió e Natal, temos praticamente tudo vendido.
Há ainda alguns lugares residuais para Natal, mas as operações para Maceió e Salvador estão praticamente cheias há bastante tempo. O que vai havendo são ajustes por causa de cancelamentos. Cabo Verde também está muito bem, não temos praticamente capacidade nenhuma. O Senegal está também praticamente todo vendido, assim como São Tomé, ou seja, a única operação em que ainda temos lugares — mas isso é tradicional nesta altura do ano — é a Madeira, que se vende sempre mais tarde.
Na Madeira, neste momento, ainda temos três voos disponíveis: dois do Porto e um de Lisboa. Ainda têm disponibilidade, mas é agora que a procura está a começar a arrancar.
Nós vendemos praticamente tudo este ano para o fim de ano em maio. Ou seja, nesse aspeto, até antecipou muito mais em relação aos anos anteriores.
Vai haver reforço?
É impossível. Começamos pelo Brasil: nós temos de vender também de lá para cá. E não há timings, não há aviões, não há tripulações.
Houve alguns destinos em que tentámos aumentar a capacidade, nomeadamente Cabo Verde, mas não foi possível. Portanto, a oferta que há é a que existe neste momento.
A TAP acaba de lançar o voo do Porto para o Sal. O que é que isso significa para a operação?
O voo do Porto já existia. A maior parte era fretada por nós, pelos operadores. O que vai acontecer a partir de agora é que vão existir dois voos regulares semanais da TAP do Porto para o Sal.
É um aumento de capacidade, porque nós só tínhamos um voo e passamos a ter dois. Portanto, há uma maior flexibilidade. Nós vamos aproveitar e vamos assumir o nosso risco, como é evidente.
Para 2027, vamos assistir a um reforço da capacidade nos destinos que melhor venderam ou a Solférias procura também abrir espaço para novidades?
Há coisas a que eu não consigo responder neste momento. Uma coisa é garantida: não será muito diferente da de 2026. Ou seja, chegamos a um momento em que também já não conseguimos estar sempre a crescer. E há trabalho de casa que tem de ser feito.
Ou seja, estaremos sempre atentos se houver algum destino que nos encha as medidas para lançarmos.
É complexo, porque passa por uma viagem de reconhecimento: ir, visitar, perceber se gostamos, se enquadra ou se não se enquadra. E só depois de uma primeira equipa dar o ok é que vai uma segunda equipa, mais operacional.
É por isso que o mercado tem tanta confiança em nós quando lançamos destinos novos. Quando lançamos um destino, andamos pelo menos seis ou oito meses neste tipo de preparações.
Portanto, não consigo responder à pergunta se em 2027 vão existir destinos novos. Não sei, porque não é apenas uma questão de vontade.
Uma coisa é certa: também não vamos lançar um destino só por lançar. Lançamos porque acreditamos e, felizmente, nos últimos anos, tudo aquilo que lançámos foi um sucesso. Agora, lançar por lançar, também não.
Sabemos que é sempre um risco, mas temos de ter a perceção de que é um destino que se enquadra no mercado português.
“A operação de 2027 não será muito diferente da de 2026. Chegamos a um momento em que também já não conseguimos estar sempre a crescer. E há trabalho de casa que tem de ser feito”
Que tipo de destinos é que considera que têm hoje maior potencial de crescimento?
São sempre os destinos de lazer. Nas grandes operações charter, tem de ser um destino de massa, tem de ser um destino de praia.
Não vejo, em Portugal, um charter para circuitos. Não estou a dizer que não se faça em datas pontuais, isso é uma coisa. Agora, fazer para um circuito durante o verão — e tem de ser no verão, que é quando a grande maioria das pessoas viaja, por causa das férias escolares — não é fácil. Portanto, tem de ser sempre um destino de praia.
Aeroportos e TAP
O aeroporto de Lisboa continua a ser o principal desafio da operação turística?
Claramente. Apesar de reconhecer que este ano finalmente se nota que o aeroporto teve melhorias. Foi, de longe, o ano que teve mais melhorias tecnológicas. Nota-se que está tudo diferente, para melhor. Só que, infelizmente, não cresceu.
Ou seja, o que está a acontecer neste momento é também um aumento da eficiência. Estávamos numa situação parecida a de um país de terceiro mundo, em que as pessoas tinham de estar meia dúzia de horas à espera. E isso era fatal para a imagem de Portugal, principalmente no estrangeiro.
Agora, não havendo crescimento, coloca tudo em causa, porque, neste momento, não conseguimos colocar uma operação charter nova.
E é claro que, quando ainda nem sequer foi lançada a primeira pedra do novo aeroporto de Lisboa, não posso estar otimista nessa matéria, porque os aeroportos afetam diretamente a nossa atividade.
E o Porto? Há potencial de crescimento, mas preocupa-vos a velocidade a que as obras e os investimentos estão a avançar?
O aeroporto do Porto tem sido a nossa escapatória, por isso é que a grande maioria dos nossos voos parte do Porto.
É verdade que o Porto tem uma situação diferente, tem capacidade de expansão. Convém que o Estado não se atrase nas obras de ampliação, porque um dia vai haver problemas no Porto também. Aliás, de vez em quando, já há. Mas o aeroporto do Porto é extremamente funcional e tem corrido muito bem, sinceramente, muito bem.
Antigamente havia aquela ideia de que o português do centro e do sul não ia ao Porto. Creio que isso mudou bastante.
Agora, infelizmente, este é o grande calcanhar de Aquiles de Portugal. Não sabemos planear e, ao contrário do nosso país vizinho, que tem vários aeroportos, os que temos são de dimensão insuficiente para a nossa procura turística.
“O aeroporto do Porto tem sido a nossa escapatória”
A privatização da TAP é um tema sensível para a operação turística. Quais são as vossas expectativas?
Devido à importância que tem para o nosso mercado, claro que estamos na expectativa de saber quem é que vai comprar a TAP. A TAP é vendida no melhor momento de sempre de que eu me recordo. Isso acho que vale a pena sublinhar, do ponto de vista operacional da TAP. Ou seja, quando esta administração pegou na companhia, o número de voos cancelados, atrasos… tudo corria mal. O mercado tinha uma relação extremamente crispada com a TAP, estávamos todos de costas voltadas e, por isso, é que eu tenho muita pena.
A minha esperança é que, eventualmente, quem venha a comprar a TAP mantenha esta administração. São super competentes e acho que, hoje em dia, a TAP não envergonha ninguém. E o mercado, naturalmente, acaba por dar prioridade ao que é nosso.
E a TAP, no caso da Solférias, é o nosso principal fornecedor. Portanto, a dimensão é muito grande. Tudo o que acontecer de bom à TAP tem naturalmente reflexos para nós. A TAP é, de longe, o nosso principal parceiro e, quando temos um parceiro da dimensão da TAP, o que queremos é que tudo corra mesmo muito bem, o que significa que é muito bom para a Solférias.
“hoje em dia, a TAP não envergonha ninguém”
Até ao final de 2026, a Solférias prevê lançar um novo website, tirando partido da modernização do sistema interno. O que vai mudar concretamente para as agências de viagens?
Não conseguimos viver sem a tecnologia. A tecnologia é muito importante para nós.
Apesar de termos uma estrutura humana que está junta há muitos anos — aliás, neste momento somos cerca de 60 colaboradores e metade desses colaboradores estão connosco há uma eternidade, o que naturalmente facilita —, para melhorar a qualidade do serviço, temos feito melhorias tecnológicas constantes.
A grande maioria das tecnologias que são implementadas o agente nem sequer nota, porque têm a ver com rapidez e funcionalidades. Mas é verdade que, até ao final deste ano, vamos lançar um novo site.
O novo site vai ser lançado, no fundo, aproveitando todas as tecnologias que implementámos.
O novo site terá muito mais funcionalidades. O nosso tipo de venda de produto também é muito mais diversificado hoje em dia e, por exemplo, algo que antigamente não tinha a menor importância, que eram as entradas — nomeadamente as entradas da Disneyland Paris —, hoje em dia vendemos muitas entradas e de uma forma muito tecnológica.
Portanto, tudo isso vai ser muito mais user-friendly e há mais tecnologias que vamos lançar e sobre as quais oportunamente falaremos.
Agora, hoje em dia, a questão dos pacotes flexíveis, de podermos construir os nossos próprios pacotes… nós demos realmente um grande salto nesse aspeto.
Também algumas ferramentas internas de trabalho muito rotineiras, e até às vezes um pouco rudimentares, coisas que se faziam à moda antiga, temos estado a alterar. E é por isso que hoje em dia a produtividade da Solférias, comparando com há seis ou sete anos, mais do que duplicou.
E, portanto, esse reflexo tem a ver com darmos melhores ferramentas aos colaboradores.
O mercado das agências também tem mudado, em termos de negócio e de modelo de negócio, com o surgimento de outros modelos. Como é que a Solférias vê essa mudança?
A nossa relação é com as agências de viagens que têm um RNAVT. Portanto, sem licença, nem sequer comercializamos. Agora, eu vejo a discussão dos consultores, mas nós não temos contacto direto com os consultores. Portanto, é algo que nos passa um pouquinho ao lado. E, como cerca de 90% das vendas são feitas online, nós não temos essa perceção direta. Percebemos que hoje em dia há muitas agências a trabalhar dessa forma, mas não é algo que impacte diretamente no nosso trabalho.
O nosso trabalho é promover, é dar formação, e nisso queremos estar sempre na linha da frente. Agora, é claro que, na Solférias, a relação com as agências de viagens é o mais importante que temos. Nós não temos venda direta, portanto dependemos 100% das agências de viagens. Sabemos que nem tudo é fácil, principalmente nestes anos difíceis, mas estamos sempre de peito aberto para os agentes de viagens.
Este ano, é ano de eleições na APAVT. A Solférias, como um dos principais operadores nacionais, o que espera da nova direção?
Nós conhecemo-nos todos uns aos outros há muitos anos. Hoje em dia os desafios em relação ao turismo são tão grandes que a dinâmica de uma direção da APAVT é cada vez maior também. A direção da APAVT, ao contrário do que muita gente julga, obriga a muita dedicação, muita ocupação, muitas horas de trabalho. E a única coisa que pedimos é que realmente defendam os nossos interesses, porque os desafios em relação ao turismo cada vez vão ser maiores.




