O turismo regenerativo, uma abordagem que procura não apenas reduzir os impactos negativos da atividade turística, mas contribuir ativamente para a vitalidade e recuperação dos sistemas ecológicos, sociais e culturais dos territórios, continua a ter uma presença reduzida nas carteiras de investimento, apesar do crescimento do investimento de impacto a nível global.
A conclusão consta de um novo estudo do Leadership for Impact Knowledge Center da Nova SBE, desenvolvido em parceria com a Blink Impact e conduzido por Ricardo Zózimo e Ana Milhazes, que procurou identificar os bloqueios estruturais que dificultam a entrada de capital no turismo regenerativo e os pontos onde é possível intervir para acelerar a mudança.
Segundo a investigação, em 2023 os ativos globais de investimento de impacto ultrapassaram 1,5 biliões de dólares, de acordo com dados da GIIN, mas o turismo regenerativo continua pouco representado nas carteiras de investimento.
Em vez de se concentrar na identificação de boas práticas ou de modelos universais, a investigação recorreu a uma análise sistémica, combinando revisão de literatura académica e prática, mapeamento de sistemas e entrevistas com investidores, académicos, profissionais do setor e intermediários.
O trabalho deu origem a dois documentos: “A Systemic Transition”, dirigido aos investidores, e um Toolkit para Praticantes, destinado aos profissionais que desenvolvem iniciativas no terreno.
Três condições para acelerar a mudança
A investigação identifica três condições fundamentais para impulsionar o turismo regenerativo: reforçar a confiança entre os diferentes intervenientes, promover abordagens de investimento de longo prazo e desenvolver novas formas de medir o sucesso, mais alinhadas com os impactos regenerativos.
“O estudo mostra que os investidores não são apenas financiadores, são agentes que moldam o sistema e que influenciam as transições que se tornam possíveis”, afirma Ricardo Zózimo, citado no comunicado.
Na perspetiva dos investidores, o estudo conclui que não basta disponibilizar “capital paciente”. A transição exige aquilo que os autores designam por “capital geracional”, enraizado no território e assente em ação coletiva, capaz de trabalhar com diferentes horizontes temporais e de considerar os territórios como sistemas vivos e não apenas como ativos.
Outra das conclusões é que a regeneração deve ser encarada como uma jornada e não como um destino, o que implica utilizar dados, tecnologia e comunicação como ferramentas de aprendizagem contínua, em vez de instrumentos destinados apenas a comprovar resultados rápidos.
O estudo identifica quatro áreas em que os investidores podem ter uma influência decisiva: os objetivos e horizontes temporais do investimento; a forma como se define o que tem valor; as métricas, certificação e tecnologia; e o capital relacional, associado à proximidade, confiança e governação participada.
“Não se faz regeneração a partir de uma folha de cálculo”
Do lado dos profissionais, o estudo aponta para um problema de legibilidade. Embora as práticas regenerativas estejam profundamente ligadas ao território, às relações e ao contexto, são muitas vezes difíceis de comunicar a quem está fora desses sistemas.
A investigação conclui também que grande parte do desalinhamento entre projetos e investidores acontece antes de o capital chegar, devido a pressupostos diferentes sobre prazos, governação e definição de sucesso.
Por isso, os autores defendem que é necessário ir além do conceito de capital paciente e selecionar o instrumento financeiro adequado a cada necessidade, incluindo subvenções, filantropia, financiamento público, blended finance e investimento alinhado com a missão.
O estudo considera ainda que escolher investidores é, por si só, uma intervenção, uma vez que recusar determinado capital pode contribuir para proteger a trajetória de longo prazo de uma iniciativa.
A comunicação surge igualmente como um dos principais obstáculos identificados, com muitos profissionais a revelarem dificuldades em apresentar o seu trabalho de forma que possa ser compreendido e replicado para além do território onde é desenvolvido.
Capital e terreno precisam de uma linguagem comum
Lidos em conjunto, os dois documentos defendem a necessidade de aproximar capital e terreno através de uma linguagem comum.
De um lado, os investidores terão de rever aquilo que consideram valioso e aceitar horizontes temporais mais longos. Do outro, os profissionais precisam de tornar as suas práticas mais legíveis e selecionar criteriosamente os parceiros com quem trabalham.
O estudo será apresentado no evento online “A Systems Approach to Regenerative Tourism”, que decorre a 22 de setembro, entre as 09h00 e as 10h00. A participação é online e requer inscrição.




