As exigências de imigração levaram 43% dos passageiros a desistir de visitar determinados destinos, um aumento de dez pontos percentuais face a 2025. Ao mesmo tempo, 49% dos viajantes já utilizaram ferramentas de inteligência artificial (IA) para planear viagens e 58% recorreram a sistemas biométricos nos aeroportos durante o último ano, segundo o Global Passenger Survey 2026, divulgado esta quarta-feira, 28 de outubro, pela Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA).
O estudo identifica três tendências principais: a crescente utilização da biometria e o interesse pelos passaportes digitais, a adoção da inteligência artificial no planeamento de viagens e o impacto das exigências de entrada na escolha dos destinos.
“Os passageiros estão a adotar a tecnologia para facilitar as viagens. A IA está a tornar-se uma ferramenta comum no planeamento de viagens, enquanto a biometria e a identidade digital estão a criar uma experiência aeroportuária mais rápida e fluida”, afirma Nick Careen, vice-presidente sénior de Operações, Segurança Operacional e Segurança da IATA.
No entanto, o responsável alerta que “muitos viajantes continuam a enfrentar obstáculos devido à complexidade dos processos de imigração e de obtenção de vistos”, defendendo que os governos devem simplificar os requisitos de entrada e acelerar a aceitação de documentos de viagem digitais.
De acordo com o inquérito, a percentagem de passageiros que afirmam ter sido desencorajados a visitar um destino devido às exigências de imigração aumentou de 33% em 2025 para 43% em 2026.
Entre os viajantes que identificaram estes requisitos como um obstáculo, 53% apontaram a complexidade dos procedimentos como principal motivo, enquanto 17% referiram preocupações com a privacidade e outros 17% os custos associados.
O estudo revela também uma preferência crescente pela digitalização dos processos de entrada. Cerca de 86% dos passageiros afirmam estar dispostos a partilhar informações de imigração digitalmente antes da partida, face a 83% em 2025. Além disso, 45% preferem concluir os procedimentos de imigração antes de chegar ao aeroporto, uma subida de quatro pontos percentuais.
No que diz respeito aos vistos, 60% dos inquiridos preferem apresentar os pedidos online, enquanto 25% optam pelo atendimento presencial numa embaixada ou consulado.
“Os passageiros querem solicitar vistos online e concluir os procedimentos de imigração antes de chegarem ao aeroporto”, sublinha Nick Careen. O responsável considera que os vistos eletrónicos podem responder a esta procura, mas alerta para a falta de uniformização dos procedimentos de verificação. “Mais de 100 países emitem vistos eletrónicos, mas existe pouca consistência na forma como são verificados”, acrescenta.
Utilização da biometria aumenta oito pontos percentuais
A utilização de sistemas biométricos nos aeroportos continua a crescer. Segundo a IATA, 58% dos passageiros utilizaram esta tecnologia em alguma fase da viagem nos últimos 12 meses, face a 50% em 2025 e mais 24 pontos percentuais do que em 2022.
Entre os viajantes que já recorreram à biometria, 87% afirmam estar satisfeitos com a experiência, um aumento de um ponto percentual face ao ano anterior.
O inquérito revela ainda que 78% dos passageiros estariam dispostos a partilhar os seus dados biométricos para evitar apresentar repetidamente o passaporte ou o cartão de embarque nos pontos de controlo dos aeroportos. Entre estes, 75% prefeririam efetuar um único registo antecipado, permitindo o reconhecimento automático ao longo da viagem.
O interesse pelos passaportes digitais também é elevado: 84% dos inquiridos gostariam de utilizar um passaporte digital para realizar o check-in online, enquanto 82% mostram interesse em partilhar esse documento com a companhia aérea no momento da reserva, após o pagamento, para aceder a serviços personalizados, como informações sobre vistos.
Apesar desta abertura, a proteção dos dados pessoais continua a suscitar preocupações. As principais reservas dos passageiros relativamente à biometria prendem-se com possíveis violações de dados (59%), a partilha de informações com outras organizações (49%) e a falta de clareza sobre o tratamento dos dados pessoais (41%).
“Cada vez mais passageiros utilizam a biometria durante as suas viagens. Gostam da experiência e querem mais”, afirma Nick Careen, defendendo que a generalização desta tecnologia nas viagens internacionais exige um enquadramento comum para a emissão e aceitação de credenciais digitais de viagem seguras.
A inteligência artificial está também a ganhar relevância no planeamento de viagens, com 49% dos passageiros a afirmarem já ter utilizado estas ferramentas.
A pesquisa de voos para um destino específico é a utilização mais frequente, referida por 21% dos inquiridos, seguindo-se a procura dos voos mais baratos (19%) e a pesquisa de inspiração para escolher o próximo destino (17%).
“As pessoas estão a utilizar a IA para planear as suas viagens”, destaca Nick Careen, acrescentando que é importante que as companhias aéreas garantam a presença das suas ofertas nestas ferramentas e desenvolvam mecanismos que permitam transformar uma interação com a IA numa reserva efetiva.
Europa apresenta menor satisfação e maior resistência às tecnologias digitais
A análise regional revela diferenças significativas nos hábitos e nas expectativas dos passageiros. Na Europa, 84% dos viajantes afirmam estar satisfeitos com as viagens aéreas, a percentagem mais baixa entre as regiões analisadas e menos um ponto percentual do que em 2025. Em comparação, a satisfação global situa-se nos 87%, enquanto a Ásia-Pacífico e o Médio Oriente apresentam os valores mais elevados, ambos com 90%.
Os passageiros europeus destacam-se também por uma menor adesão às tecnologias digitais. Apenas 35% afirmam ter utilizado inteligência artificial no planeamento de viagens, face à média global de 49%.
A utilização de biometria nos últimos 12 meses foi referida por 47% dos europeus, abaixo dos 58% registados a nível mundial. Ainda assim, este indicador aumentou seis pontos percentuais face a 2025.
Além disso, 70% dos passageiros europeus mostram-se disponíveis para partilhar dados biométricos nos aeroportos, comparativamente a 78% a nível global, enquanto 79% manifestam interesse na utilização de passaportes digitais para o check-in online, abaixo da média mundial de 84%.
Quanto às exigências de imigração, 38% dos europeus afirmam já ter sido desencorajados a visitar um destino devido aos requisitos de entrada, face a 43% a nível global.
Em contraste, o Médio Oriente apresenta a maior utilização de inteligência artificial para planear viagens, com 72% dos passageiros a recorrerem a estas ferramentas. A região regista também a maior disponibilidade para partilhar dados biométricos (84%) e o maior interesse em passaportes digitais para o check-in online (91%).
Já África apresenta a percentagem mais elevada de passageiros desencorajados a viajar devido às exigências de imigração (52%), seguida da Ásia-Pacífico (49%). A América do Norte regista o valor mais baixo neste indicador, com 35%.
Os resultados evidenciam, segundo a IATA, a crescente procura de soluções digitais para simplificar as viagens, embora persistam diferenças regionais na adoção destas tecnologias e obstáculos associados aos requisitos de entrada nos destinos.




