UMA CASA QUE SE ATRAVESSA NA MEMÓRIA
O Wine & Books Lisboa está na Travessa da Memória, na Ajuda, entre Belém e o antigo território da corte, diante de uma das igrejas mais surpreendentes de Lisboa. Quando se chega à porta do hotel, não se chega apenas a um estabelecimento de cinco estrelas, mas entra-se numa pequena geografia de Portugal, feita de pedra, calçadas, igrejas, palácios, jardins, antigas quintas, ruas de bairro e uma memória régia que ainda se reconhece na própria disposição das ruas.
Numa fotografia mais antiga do local, o tempo repousa em tons de cinza sobre a poeira da estrada, onde os passos do passado ainda ecoam em silêncio. No horizonte de um dia antigo, a cúpula da igreja ergue-se como um farol de pedra, vigiando a memória da cidade enquanto as nuvens cruzam o céu em ritmo lento.
À direita, à beira do caminho, o pequeno edifício de piso único resiste ao olhar do tempo. Com as suas paredes caiadas e o contorno escuro das molduras, parece guardar o pulsar simples da vida quotidiana de outrora, como se aguardasse ainda aquilo que o tempo lhe reservaria. No topo do seu telhado, os merlões rendilhados sobem ao ar como uma pequena coroa de terra e cal, delineando a silhueta da casa contra a imensidão do dia.
Na rua em terra batida, o trânsito é breve e a vida passa sem pressa, porque figuras longínquas cruzam o passeio, um automóvel antigo repousa na esquina e as sombras desenham-se suaves no chão. É um instante suspenso no ano de 1941, no auge da Segunda Guerra Mundial, quando Lisboa viveu um dos períodos mais invulgares e fascinantes da sua história. Enquanto grande parte da Europa se encontrava sob o terror dos bombardeamentos e da ocupação nazi, Lisboa erguia-se como um enclave de paz aparente e uma verdadeira “capital da sombra”.
Este lugar ficou eternizado no olhar e no traço da lente de Eduardo Portugal.
Naquele local e noutro século, nasceria um hotel: Wine & Books Lisboa.
O endereço parece ter sido escrito antes do edifício: Memória. E talvez seja essa a primeira chave para compreender a história deste hotel. A marca nasceu em 2019, no universo do Grupo PBH — Portugal Best Holiday, com a ambição de devolver autenticidade à hotelaria portuguesa através de hotéis de cinco estrelas instalados em lugares com uma ligação forte à cultura, à história e ao espírito do país. Fundado em 2012, o Grupo PBH desenvolveu atividade nos setores da hotelaria, dos resorts, da restauração, do lazer e do turismo. Entre as suas figuras de referência encontram-se Carlos Saraiva, investidor, e Joana Saraiva, arquiteta, sua filha e administradora do grupo, ambos associados ao desenvolvimento de projetos, à renovação de espaços e à construção da identidade de hotéis.
A ideia era mais ambiciosa do que abrir um hotel. Tratava-se de criar uma marca capaz de transformar aquilo que tantas vezes constitui apenas o pano de fundo de uma estada hoteleira numa parte essencial da experiência. Literatura, vinho, gastronomia, fado e hospitalidade seriam os fios condutores de uma proposta em que a arquitetura, a arte e a memória estabeleceriam uma ligação entre a Lisboa de ontem e a Lisboa de amanhã. O Wine & Books Lisboa seria o primeiro capítulo dessa história.
Segundo a arquiteta Joana Saraiva, em resposta à nossa pergunta:
“O investimento na Ajuda foi uma decisão que refletiu, desde o início, a visão do grupo PBH para o desenvolvimento da marca. Mais do que procurar uma localização turística consolidada, interessava-nos identificar um lugar com identidade própria, riqueza patrimonial e potencial para receber um projeto hoteleiro diferenciador. A Ajuda reunia todas essas condições. É um bairro com uma forte ligação à história de Lisboa, próximo de Belém e de alguns dos monumentos mais emblemáticos de Lisboa, mas que conserva uma autenticidade muito própria, com uma vivência de bairro que consideramos especialmente interessante.
Essa combinação entre património, tranquilidade bairrista e proximidade à vida cultural da cidade representava uma oportunidade para desenvolver este nosso projeto. Procurávamos esta relação entre o hotel e a sua envolvente, criando uma continuidade entre aquilo que o hóspede descobre na cidade e a experiência que encontra dentro do hotel.
O conceito dos Wine & Books nasceu precisamente dessa vontade de proporcionar uma experiência intimista, onde a arquitetura, a literatura, a gastronomia e os vinhos portugueses contam, cada um à sua maneira, um pouco da nossa história. Esta é, aliás, uma das características da nossa forma de investir: procuramos que cada projeto tenha uma identidade própria e uma ligação verdadeira ao lugar onde nasce. Não pretendemos replicar um modelo hoteleiro, mas interpretar cada localização, respeitando a sua história e valorizando aquilo que a torna singular.
O Wine & Books Lisboa representa bem esta filosofia. É um projeto de pequena dimensão, onde foi possível trabalhar a arquitetura, o design, a gastronomia e a experiência de hospitalidade de uma forma muito cuidada, criando um hotel que, apesar de contemporâneo, pertence naturalmente àquele bairro.”
Assim sendo, nas encostas luminosas e ancestrais da colina da Ajuda, começou a traçar-se a metamorfose poética de um espaço urbano. O que antes trazia as marcas do tempo e do abandono transformou-se no refúgio de requinte que hoje ganha vida como Hotel Wine & Books Lisboa. O percurso germinou no mês de maio de 2008, inicialmente concebido como um discreto projeto residencial na confluência da Travessa e da Calçada da Memória. A evolução ganhou impulso firme a partir de novembro de 2014, quando foram emitidos os alvarás fundamentais para a renovação do lugar. Foi em fevereiro de 2015, sob a visão da promotora Restelo Azul – Exploração Turística, S.A. e o traço atento dos projetistas do atelier de arquitetura do Grupo PBH, que se formalizou o pedido de alteração e averbamento, desenhando a transição definitiva para um hotel de cinco estrelas num lote de 620 metros quadrados com três frentes de rua. O edifício, que anteriormente apenas tocava o vizinho no piso térreo, passou a encostar-se plenamente em todos os pisos, unindo-se à malha urbana e harmonizando a volumetria tradicional com um dinamismo contemporâneo através de dois corpos interligados.
Nas margens onde o desenho se faz habitação e a traça se enche de alma, a arquiteta Mafalda Batalha esculpiu em projeto o espaço com a precisão de quem escuta o passado para moldar o futuro. À frente do atelier AMB Arquitectos, com morada nas Terras de Sant’Ana em Lisboa, o seu percurso é uma cartografia sensível da reabilitação urbana e da hotelaria de excelência, onde cada volume arquitetónico deixa de ser apenas betão ou pedra para se transformar numa narrativa viva. A Ajuda viu nascer a metamorfose do Hotel Wine & Books, um projeto onde a engenharia dos materiais — do lioz texturado ao cobre envelhecido — dialoga diretamente com a história da cidade e a monumentalidade da vizinha Igreja da Memória. Distinguida pelo rigor formal e por uma Menção Honrosa do Prémio Valmor e Municipal de Arquitetura que consagrou a sua sensibilidade no Restelo, impõe-se em cada traço uma harmonia rara entre a volumetria contemporânea e o respeito pela escala humana, transformando a prática da arquitetura num ato profundo de poesia habitada.
Joana Saraiva falou-nos dos desafios e dificuldades sentidos neste investimento:
“Como em todas as obras, também tivemos os nossos desafios e dificuldades. Começaria por dizer que uma das primeiras dificuldades surgiu logo na escavação, porque estamos numa zona de solo bastante rochoso, o que tornou os trabalhos mais demorados do que o habitual. Depois, a própria localização do hotel, que foi uma das razões que nos levou a investir ali, também trouxe alguns desafios. Estamos no meio de um bairro residencial e, naturalmente, tivemos de ter um cuidado especial com os moradores, respeitando as limitações de ruído, os horários e os dias de trabalho. São condicionantes que acabam por influenciar o ritmo de uma obra. E depois tivemos a pandemia, que marcou sobretudo a fase final do projeto. Lembro-me perfeitamente de estarmos a terminar os interiores, uma fase em que precisamos de estar muito próximos das equipas, dos fornecedores e de acompanhar todos os detalhes, e de termos de fazer tudo isso de máscara e com várias restrições. Mas são situações que fazem parte de qualquer projeto desta dimensão. Vamos encontrando soluções, adaptando-nos às circunstâncias e, no final, é muito gratificante ver tudo aquilo que conseguimos concretizar.”
O projeto de Mafalda Batalha foi modificado, porque, segundo a própria, “a fachada traseira está de acordo com o projeto original, mas as outras duas foram bastante alteradas”. Segundo informações da empresa, apesar de o projeto inicial das fachadas ser da arquiteta Mafalda Batalha, houve alterações significativas e todos os revestimentos exteriores foram desenvolvidos pelo gabinete de arquitetura do grupo PBH juntamente com a arquiteta Joana Saraiva.
A abertura, em dezembro de 2021, apresentou ao público um hotel de cinco estrelas com 24 quartos, incluindo uma suite, cuja dimensão relativamente reduzida contribuía para definir o carácter intimista do projeto. A unidade mantém essa capacidade, distribuída por quatro tipologias, com vistas para o bairro da Ajuda, para o horizonte da cidade ou para a Igreja da Memória. Desde o início, a arquitetura e a decoração procuraram não competir com a paisagem histórica, mas estabelecer um diálogo com ela, através de materiais nobres, referências literárias, luz natural e uma estética contemporânea que privilegia a intimidade e o conforto.
As primeiras fotografias e notícias de inauguração tiveram um papel importante na apresentação desta identidade. Não se tratava apenas de divulgar um novo hotel de luxo em Lisboa, mas de dar a conhecer uma maneira particular de pensar a hospitalidade, na qual os interiores, os ambientes de acolhimento e a relação com o património envolvente participavam numa mesma narrativa. A imagem tornou-se, desde logo, um instrumento essencial para comunicar o conceito da marca: mostrar os espaços, revelar os materiais, sugerir uma atmosfera e transmitir a ideia de que a estadia poderia ser uma experiência cultural, para além do alojamento.
O próprio hotel atribui à luz um papel central na definição dos seus espaços. É a luz lisboeta, que entra pelas janelas e se transforma ao longo do dia, que modifica a perceção dos materiais, das paredes e das salas, conferindo-lhes uma dimensão que dificilmente se esgota numa descrição arquitetónica ou numa fotografia. Essa atenção à luz é também uma maneira de estabelecer uma relação com a cidade, cuja identidade visual depende tanto da arquitetura como da intensidade e da qualidade da iluminação natural.
À chegada, Bruno, chefe de receção, tratou dos procedimentos de entrada e acompanhou-me até ao quarto. Com ele, estabeleci uma conversa breve. “É tudo muito tecnológico no quarto”, informou ao subirmos ao Piso 3. Este quarto é de categoria Superior (303), com vista para a Igreja da Memória. O quarto dispõe de uma cabina de duche com vista panorâmica, embora haja quartos sem essa especificidade, e os produtos de higiene e cortesia são da Lavanda.
Há no ato de escrever à mão um gesto antigo de verdadeira hospitalidade. Antes da chegada do hóspede, a direção do hotel detém-se por um instante para transformar uma simples receção num encontro íntimo e pessoal. Com a caligrafia fluida desenhada sobre o papel branco, a caneta traça uma saudação calorosa dirigida ao viajante — “Caro Sr. Jorge Mangorrinha, Bem-vindo ao Wine & Books Lisboa Hotel! Toda a equipa está à Sua disposição!”. Ao lado das palavras manuscritas, repousa um delicado ramo de flores secas, como um pequeno pedaço de natureza guardado no tempo, selando o acolhimento com atenção ao detalhe, sensibilidade e afeto. É o momento em que a casa abre as suas portas não apenas com uma chave, mas com a calidez de um acolhimento pensado especialmente para quem chega.
Como se não bastasse, havia ainda ofertas sobre as mesas, como um delicioso Porto Kopke Fine Ruby. Poucos minutos depois, Mariana, da receção, telefonou-me para anunciar que Solange me iria entregar um presente. Eis que um sorriso simpático chegou com uma tábua de pastéis de nata, com morangos e pau de canela.
Depois, olhar através da janela do quarto é como fitar um quadro emoldurado pela luz intensa de Lisboa. No vidro, a assinatura discreta de um “W&B” suspende-se no ar, misturando o reflexo do interior com a imensidão límpida do céu azul. Lá fora, sob o sol tépido da tarde, a majestosa cúpula da Igreja da Memória ergue-se imaculada sobre a praça, guardando a serenidade do verde e a geometria elegante da arquitetura. Os telhados vermelhos e as ruas ondulam suavemente ao longe, enquanto cá em baixo a cidade respira num silêncio pictórico, pronta a ser descoberta a cada olhar.
Caminhar pelos corredores curtos deste hotel é pisar as próprias páginas de um livro em silêncio. Sob os nossos passos, a alcatifa não é mero tecido, porque se estende como um pergaminho macio onde letras cursivas e fluidas desenham memórias de Lisboa. Cada passada pisa versos e interrogações — “E tu, sabias? Alguém disseste: ‘Lisboa, sabes…’” —, fundindo a poesia da cidade com a cadência íntima de quem viaja. Entre ventos súbitos e a respiração morna da solidão, os sapatos avançam sobre palavras impressas no chão, transformando o simples ato de caminhar num devaneio literário, onde cada corredor sussurra um segredo por decifrar.
Neste corredor de ecos dourados e paredes que parecem ondas de cobre, cruzei-me com Stefanie, e fotografei-a. Ela traz nos olhos a vivacidade de quem atravessou o oceano, no sorriso a amplitude de uma morna acolhedora e, no cabelo, a liberdade do vento que sopra livre em Cabo Verde. Entre um quarto e outro, entre o silêncio de onde nascem as palavras e o repouso dos nossos dias, é ela também quem purifica os espaços, cuidando do teto sob o qual escrevemos, sonhamos e habitamos.
No piso da entrada e em frente ao elevador onde o tempo suspende o fôlego entre um andar e outro, habita um diálogo silencioso esculpido em relevos de madeira, metal e luz da autoria de GEZO (2019). À esquerda, a figura estende-se como um eco do oceano: uma sereia de olhos abertos para o mistério do mundo, com a cauda feita de escamas e pequenos peixes que nadam num mar de memórias e formas cubistas. É o sussurro das profundezas, a lembrança de águas ancestrais que correm por baixo das estruturas de pedra e vidro. À direita, o contorno urbano e melancólico apoia o rosto numa mão pensativa. O seu corpo funde-se com a geometria da cidade, feita de janelas fechadas e fachadas que guardam segredos por revelar. Entre o reflexo dourado da parede e o fulgor suave dos focos de luz, as duas figuras contemplam-se — a imensidão líquida do mar e a rigidez poética da terra firme —, unidas naquele limiar de passagem, à espera de quem chega ou de quem parte.
Cruzando a soleira invisível que o caixilho escuro desenha no chão, transita-se de um mundo acolhedor para a clareza diáfana do exterior do pátio. No interior, o pavimento ergue-se em painéis de madeira cinzenta e envelhecida, dispostos num padrão geométrico sofisticado que evoca a tradição do parquete clássico, onde os veios marcados e os nós profundos conferem à carpintaria uma textura rica, quente e de inspiração artesanal. Este tapete de madeira rústica, mas polida pelo design, convida à intimidade e resguarda o espaço com uma aura de aconchego sofisticado. Do outro lado da grande janela de correr, a paisagem altera-se de imediato: o piso cede lugar a uma esplanada revestida por lajes claras de pedra de superfícies discretamente texturadas, onde a luz do dia se reflete suavemente entre mesas e cadeiras de esplanada que convidam a prolongar a refeição ao ar livre. É um diálogo silencioso entre dois materiais distintos — a madeira íntima do abrigo e a pedra luminosa da abertura —, unidos pelo mesmo traço de elegância arquitetónica.
Para compreender plenamente o Wine & Books Lisboa, porém, é preciso sair dele. Abrir a porta e olhar para a rua, porque o hotel não foi colocado num cenário histórico, mas foi instalado dentro de uma história. Logo ali, quase à entrada, ergue-se a Igreja da Memória, oficialmente Igreja de Nossa Senhora do Livramento e de São José, classificada como Monumento Nacional desde 1923. A igreja integra a paisagem da Ajuda desde o século XVIII e está ligada a um dos episódios mais extraordinários da Lisboa posterior ao terramoto de 1755: a tentativa de assassinato do rei D. José I, ocorrida em 1758.
O monarca sobreviveu ao atentado e, em ação de graças, mandou erguer uma igreja dedicada a Nossa Senhora do Livramento. A escolha do lugar não foi indiferente. Depois do terramoto de 1755, a Ajuda tornou-se uma das zonas de refúgio da corte, uma vez que escapara à destruição que atingira violentamente a Baixa de Lisboa. A antiga paisagem rural, marcada por quintas, terrenos agrícolas e caminhos que ligavam pequenas povoações, transformou-se rapidamente numa paisagem de poder. A presença da família real atraiu nobres, funcionários, militares, artesãos, criados e comerciantes. Abriram-se caminhos, construíram-se equipamentos, instalaram-se instituições e a Ajuda começou a deixar de ser periferia para assumir um lugar de destaque na Lisboa de finais do século XVIII.
É essa transformação que ainda hoje se pode quase reconstruir a pé. A partir da Travessa da Memória, a cidade organiza-se em camadas sucessivas. Primeiro, a igreja, com a sua grande presença; depois, as ruas e as fachadas de escala mais modesta, onde sobrevive uma Ajuda popular, feita de comércio local, portas estreitas, varandas, roupa estendida, pequenas lojas e habitação; por fim, a subida da Calçada da Ajuda, que conduz a uma paisagem de outra escala. O percurso acompanha a passagem de um bairro quotidiano para o território onde a corte se instalou e onde Lisboa procurou construir, depois de 1755, uma espécie de novo centro régio.
A Ajuda era, então, uma zona de transição entre a cidade e o campo, marcada por quintas, conventos, terrenos agrícolas e casas de recreio. A fixação da corte transformou esta paisagem, dando origem a novas estruturas políticas, religiosas, científicas e militares, entre as quais a Biblioteca da Ajuda, o Jardim Botânico, a Capela Real e, mais tarde, o palácio. A Calçada da Ajuda tornou-se um importante eixo de ligação deste território régio.
A construção do Palácio Nacional da Ajuda, iniciada em 1796, sucedeu à destruição, por um incêndio em 1794, da Real Barraca, residência régia de madeira erguida após o terramoto. Apesar dos projetos de Manuel Caetano de Sousa, José da Costa e Silva e Francisco Xavier Fabri, o palácio nunca foi concluído segundo o plano original. A partir de 1861, com D. Luís I e D. Maria Pia, tornou-se residência permanente da família real, função que manteve até à implantação da República, em 1910. Os seus interiores e coleções conservam a memória da vida e da representação do poder monárquico.
A paisagem que envolve o Wine & Books Lisboa testemunha essa história, visível não apenas no palácio, mas também nos jardins, nas ruas e na relação entre a Ajuda e Belém. Aqui, a monumentalidade convive com a escala quotidiana do bairro, entre fachadas históricas, cafés e habitações comuns. É nessa proximidade entre património e vida local que o hotel encontra uma ligação autêntica ao lugar.
Nas proximidades, o Jardim Botânico da Ajuda, fundado em 1768 por iniciativa do Marquês de Pombal e projetado por Domingos Vandelli, foi criado para o lazer da família real e a educação dos príncipes, assumindo também uma importante função científica no estudo e na classificação de plantas. Organizado em dois níveis, conserva jardins formais, lagos, árvores exóticas e a Estufa Real. A sua posição oferece uma vista privilegiada sobre o Tejo e Belém, revelando a importância estratégica e paisagística que a Ajuda adquiriu após o terramoto de 1755.
É precisamente essa relação com o rio que aproxima a Ajuda de Belém. O Wine & Books Lisboa situa-se numa zona de fronteira simbólica entre dois mundos: o bairro de carácter popular e residencial que sobe em direção ao palácio e a grande paisagem monumental de Belém, aberta ao Tejo e à memória dos Descobrimentos. A poucos minutos encontram-se alguns dos principais equipamentos patrimoniais e culturais da frente ribeirinha, entre os quais o Mosteiro dos Jerónimos, a Torre de Belém, o Padrão dos Descobrimentos, o Museu Nacional dos Coches e o Centro Cultural de Belém.
Uma das particularidades da localização do hotel reside precisamente em não estar implantado no centro desse cenário turístico. Está suficientemente próximo para permitir o acesso a pé ou em poucos minutos, mas suficientemente afastado para proporcionar o regresso a uma Lisboa mais quotidiana no final do dia. É como sair do palco e voltar aos bastidores, trocando a sucessão de monumentos, museus e grandes espaços públicos pela escala mais íntima das ruas de bairro.
Esta posição entre Belém e a Ajuda confere ao hotel uma relação singular com o território. De um lado, a grande narrativa nacional, associada à expansão marítima, à monarquia e à representação monumental da história portuguesa; do outro, um bairro onde essa história se foi incorporando na vida comum, entre habitações, comércio, cafés, pequenas praças e percursos quotidianos. A experiência de alojamento pode, assim, incluir duas formas complementares de conhecer Lisboa: a visita aos lugares emblemáticos e a descoberta mais lenta de uma paisagem urbana que nem sempre ocupa o primeiro plano dos roteiros turísticos.
É também neste contexto que a arquitetura do hotel ganha verdadeiro significado. O Wine & Books Lisboa não procura reproduzir um palácio, nem fingir que é uma casa aristocrática do século XIX. A sua proposta é assumidamente contemporânea. A luz, os materiais, os tecidos, os livros, os objetos e os detalhes decorativos contribuem para criar uma atmosfera de conforto e intimidade, sem transformar a história envolvente num exercício de imitação. A relação com o passado estabelece-se sobretudo através da interpretação do lugar e da atenção à experiência de quem o habita temporariamente.
A ideia de luxo defendida por Joana Saraiva nos últimos anos afasta-se da ostentação. O luxo contemporâneo surge associado ao tempo, à escuta, à atenção ao pormenor e à capacidade de proporcionar experiências com significado. Em 2025, esta filosofia foi apresentada pela própria administradora como uma mudança importante na conceção da hotelaria de luxo: menos espetáculo e mais experiência emocional. Uma perspetiva que se aproxima da identidade do Wine & Books Lisboa, onde a escala dos espaços e a relação com a envolvente permitem privilegiar uma hospitalidade menos centrada na exibição e mais atenta à permanência.
A comunicação pública do hotel foi acompanhando essa construção. Depois da apresentação inicial dos espaços, em 2021, a fotografia passou a mostrar progressivamente outras dimensões da experiência: os interiores, os ambientes de acolhimento, a gastronomia, os espaços exteriores e a programação musical. A narrativa visual deixou de se concentrar apenas na novidade do edifício e começou a sugerir uma forma de permanecer em Lisboa, associada ao prazer de ler, conversar, provar, ouvir e descobrir.
Em 2023, a Tasca da Memória assumiu maior visibilidade com a renovação da carta e a divulgação do trabalho do “chef” italiano Vittorio Colleoni, distinguido com uma estrela Michelin no restaurante familiar San Martino, em Treviglio. A sua entrada no projeto trouxe uma nova abordagem à cozinha do restaurante, assente no encontro entre a tradição gastronómica portuguesa e as técnicas da alta cozinha. Bacalhau, polvo, legumes e outros produtos característicos da mesa nacional passaram a ser interpretados com um olhar contemporâneo, preservando a informalidade e o espírito de partilha associados à ideia de tasca. Esta orientação encontrou expressão na comunicação visual do hotel, que passou a dar maior destaque à apresentação dos pratos, aos ingredientes e ao ambiente das salas, fazendo da experiência à mesa uma componente relevante da identidade da unidade.
Presentemente, o tempo desacelera à mesa e ganha a consistência de um abraço. Comemos o que a inspiração e o engenho do “chef” Miguel Santos concebem e preparam, ou seja, uma alquimia fina onde se fundem a herança de outros hotéis e a verdade crua do sabor. À minha volta, a sala move-se num compasso de dança invisível: o André, maestro discreto da hospitalidade, rege com elegância o salão, enquanto o Luciano desvenda, a cada gesto, a arte de bem receber. A noite abre-se com a memória do mar e da terra num só fôlego sob a batuta do “chef” Miguel Santos e do cozinheiro Rui Barata: nos dois dias, os rissóis de corvina e berbigão, dourados e crocantes, que trazem o salitre do largo e a doçura das águas; mais o contraste sublime que nos arrebata os sentidos, unindo a pele estaladiça e tenra da barriga de leitão, e ainda o abraço reconfortante e profundo do arroz de tamboril. Nos pequenos almoços, José Dias, o outro cozinheiro, desdobra-se em preparar os pedidos à la carte.
Comer, aqui, deixa de ser ato para se tornar poesia servida quente, um banquete onde a alma se assenta e o instante se eterniza. Ao fundo, estão pendurados 21 bacalhaus de barro, testemunhas silenciosas de uma tradição que transforma o alimento em memória e a mesa em lugar de encontro. O número 21, três vezes sete, evoca a plenitude, a perfeição e a conclusão de um ciclo, como se cada bacalhau guardasse um fragmento da identidade coletiva. Comer é, afinal, muito mais do que saciar a fome: é partilhar, celebrar e perpetuar gestos ancestrais. Entre o barro e o prato, entre o símbolo e o sabor, alimenta-se também aquilo que nos une e permanece.
Mais do que um serviço associado ao alojamento, a Tasca da Memória participa, deste modo, na definição da experiência que o Wine & Books Lisboa pretende proporcionar. A refeição prolonga a descoberta do lugar por uma via diferente da arquitetura ou do património: através dos sabores, dos produtos e da convivência em torno da mesa. Em articulação com os livros, o vinho e a programação cultural, o restaurante contribui para uma proposta de hospitalidade que convida o visitante a permanecer e a conhecer outras dimensões de Lisboa, para além do quarto e dos circuitos monumentais de Belém e da Ajuda.
Entre 2024 e 2026, a comunicação do Wine & Books Lisboa consolidou uma identidade que associa arquitetura, literatura, gastronomia e hospitalidade à cultura portuguesa. A fotografia e as campanhas promocionais valorizaram os espaços, as experiências e a ligação à cidade, integrando-se na estratégia global da marca, sem que tenha sido possível identificar uma campanha autónoma para esta unidade em 2026.
Mais do que um hotel, o projeto propõe um retrato da cultura portuguesa: o vinho, os livros, a gastronomia, o fado e a arquitetura convergem numa experiência de hospitalidade enraizada na história da Ajuda. A fotografia e a comunicação institucional dão forma a essa identidade, cuja concretização depende, naturalmente, da experiência de cada visitante.
Laura Ferreira é a coordenadora de marketing e comunicação.
Entretanto, a ideia inicial dos investimentos ultrapassou a Travessa da Memória. A marca Wine & Books cresceu para além de Lisboa, com novas unidades e projetos, mantendo a intenção de procurar lugares dotados de identidade própria. O Porto trouxe outra relação com a cidade histórica; foram anunciados novos projetos para Sintra; e a marca alargou também a sua presença ao Algarve, onde um antigo resort foi reinterpretado sob a identidade Wine & Books. O Grupo PBH apresenta atualmente um portefólio que inclui os hotéis VidaMar, na Madeira, e, no Algarve, o Wine & Books, o Montargil Monte Novo, o São Rafael Holidays e o Salgados Beach Villas, entre outras unidades e projetos.
O Wine & Books Lisboa pertence a um grupo português que quis transformar a hotelaria em narrativa e concebido por pessoas que perceberam que o luxo pode residir menos no excesso do que na relação com o lugar. Um hotel onde se dorme, se come, se bebe, se lê e se conversa, mas onde, sobretudo, se pode olhar para fora e reconhecer que a verdadeira decoração já ali estava há séculos.
Há mais hóspedes estrangeiros do que portugueses, “o que é natural numa cidade como Lisboa”, disse Joana Saraiva. Adiantando: “Mas temos tido também uma ótima aceitação por parte do mercado nacional, e isso deixa-nos particularmente orgulhosos. Somos uma marca portuguesa, com um conceito muito ligado à nossa cultura, aos nossos vinhos e à nossa gastronomia, e é muito bom perceber que os portugueses se identificam com aquilo que criámos. Para nós, esse reconhecimento tem um significado especial.”
Por este hotel, já passaram alguns hóspedes famosos, “mas gostava de contar uma história que, curiosamente, não começou com uma estadia no hotel, mas sim no nosso restaurante, a Tasca da Memória”, diz Joana Saraiva.
“O Ivan Lins tem casa perto do hotel e, por isso, quando vem a Lisboa não precisa de ficar hospedado connosco. Mas acabou por fazer da Tasca da Memória a sua ‘cantina’. O Ivan e a mulher, Valéria, muitas vezes chegam de viagem e vêm diretamente do aeroporto até à nossa Tasca para comer um preguinho. Enquanto estão em Portugal, é também ali que fazem muitos dos seus almoços com amigos e reuniões. Com tantas visitas, o Ivan acabou por criar uma relação muito próxima com a nossa diretora, Susana Lopes, que tem uma forma muito especial de receber e cuidar de quem nos visita. E foi através dela que nos acabámos por conhecer. Hoje temos uma amizade muito bonita, que, entretanto, nos trouxe outras amizades, como a da Sofia Hoffmann. Lembro-me de um almoço que se prolongou até às cinco da tarde, entre tantas conversas e ideias, e que acabou por dar origem a uma parceria muito especial: o Ivan veio celebrar os seus 80 anos com um espetáculo no nosso hotel do Algarve. A língua portuguesa é uma das maiores riquezas que partilhamos e poder celebrá-la através da música, com o talento extraordinário de Ivan Lins e, acima de tudo, com alguém de quem gostamos tanto, tornou este momento ainda mais especial para nós.”
Conheço bem essa relação com a língua portuguesa, digo eu. Ivan Lins gravou já “Fado Irmão”, com letra minha e música de Paulo de Carvalho, que interpretou com o cantor brasileiro. Uma fotografia facilitada pela empresa mostra Sofia Hoffmann, Susana Lopes (diretora do Wine & Books Lisboa), Flávio Serpa (agente do Ivan Lins), Joana Saraiva (arquiteta e administradora) e Ivan Lins.
E, pergunto, há histórias curiosas que se possam contar?
Joana Saraiva responde:
“Uma das histórias de que mais gosto tem precisamente a ver com a nossa relação com o bairro. O hotel está virado para o bairro, não só em sentido figurado, mas também fisicamente, e isso acabou por criar uma proximidade muito especial com os vizinhos.
À medida que a obra avançava, fomos criando algumas afinidades. Havia pessoas que passavam todos os dias, acompanhavam a evolução dos trabalhos e vinham dizer-nos que estavam a gostar de ver o edifício a ganhar forma e que o hotel estava a ficar bonito. Era muito engraçado sentir essa curiosidade e perceber que, de alguma forma, também estavam a viver o projeto connosco. Abrimos em dezembro e lembro-me particularmente de um menino que passava todos os dias em frente ao hotel. Nessa altura, estávamos a montar a árvore de Natal e ele ia espreitando pelos grandes vidros para acompanhar a evolução da decoração. Fazia-nos sinais do lado de fora a mostrar que estava a gostar do resultado. Quando finalmente abrimos as portas, fizemos questão de convidar esses vizinhos para conhecerem o hotel por dentro. Até então, só tinham acompanhado o crescimento do edifício do lado de fora e tinham muita curiosidade em ver como tinham ficado os quartos e os corredores. Organizámos um pequeno lanche, o menino que nos visitava trouxe toda a família e foi um momento muito bonito.
No fundo, acho que esta história traduz bem aquilo que sempre quisemos: que o hotel não fosse apenas um espaço para quem vem visitar Lisboa, mas que também fizesse parte da vida do bairro e fosse acarinhado por quem ali vive.”
Talvez seja essa a maior inteligência do projeto: integrar-se no bairro sem tentar ser mais histórico do que a própria história. Afinal, basta abrir a porta.
E, muitas vezes, é precisamente à porta que o espetáculo acontece. Há quem diga que os opostos se atraem, mas ali, à entrada do Wine & Books Lisboa Hotel, assistiu-se a um verdadeiro namoro de conveniência em pleno dia. De um lado, a serenidade letrada de um cinco estrelas, entre livros, vinho e conversas sussurradas sobre a existência. Do outro, com a lata — e o motor — de quem sabe o valor que tem, um Ferrari vermelho, tão vistoso que até o sinal de passagem de peões parecia conceder-lhe prioridade moral.
A promoção mútua era evidente: o hotel ganhava centenas de cavalos à porta; o Ferrari, por sua vez, parecia sugerir que o dono viera ler poesia, e não apenas gastar borracha pelas colinas de Lisboa. Até a calçada se convertia em tapete vermelho para este encontro improvável, provando que a sabedoria das páginas e o ronco dos cilindros podem conviver, desde que haja lugar para estacionar.
Entre o pulsar do motor e o silêncio dos livros, o presente faz-se notar. E, mesmo ali do outro lado, em silêncio, a Memória observa.
Por Jorge Mangorrinha, escritor de viagens. No TNews, presentemente, com a rubrica mensal Há História no Hotel.




