Quinta-feira, Dezembro 11, 2025
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A arte filosófica do turismo: Uma viagem de conhecimento

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“O ato de viajar é sem dúvida uma das atividades humanas mais antigas. Este movimento de pessoas transcende a simples necessidade de circulação entre cidades, países ou continentes”

Estas últimas férias em família obrigaram-me a ver o mundo e a indústria de outro prisma. O turismo é por si nesta era contemporânea um elemento que acarreta uma enorme relevância que vai muito além da economia ou cultura. Este setor é, em muitos aspetos, uma extensão da procura filosófica pelo conhecimento, pela compreensão dos outros ou também pela descoberta de novas formas de visualizarmos o mundo ao nosso redor.

Assim, este simples ato de viajar é uma metáfora da nossa própria vida, uma jornada que, a cada passo, revela mais sobre o desconhecido e sobre nós próprios como seres humanos e emotivos.

A essência do turismo, sendo analisada de um prisma filosófico, é uma busca incessante pelo significado. Este movimento quase espiritual, onde saímos do nosso ambiente de pertença e começamos a explorar o mundo, faz-nos questionar o que realmente procuramos para preencher a nossa alma. A resposta a este posicionamento filosófico sobre o turismo não fica limitado a belas paisagens ou elementos históricos, mas transcende algo muito mais profundo, o desejo de superar a nossa própria experiência limitada e iniciar uma viagem onde nós como atores iremos vislumbrar uma realidade maior e imersiva. Este sentimento é compartilhado pela humanidade em diferentes tempos e espaços.

Nesta dimensão um dos temas que emergem do turismo é a alteridade, onde a nossa experiência baseia-se em vivermos o papel do OUTRO e compreender as suas visões e emoções. Ao viajarmos por países estrangeiros, encontramos formas de vida, crenças e costumes que muitas vezes desafiam a nossa visão do mundo. Relembrando um famoso filósofo como Emmanuel Lévinas, o encontro com o OUTRO era fundamental para o nosso conhecimento do mundo ético, pois é na face do OUTRO que reconhecemos a nossa própria responsabilidade e, consequentemente, a nossa humanidade.

Desta forma, o simples ato de viajar contemporâneo, não é apenas sobre descobrir novos lugares, mas sim a dualidade de confrontos sobre as novas e diferentes realidades. É precisamente neste “clash” que o turismo encontra o seu significado filosófico. Quando encontramos o desconhecido, somos desafiados a reavaliar as nossas convicções e a sermos plurais nas diferentes perspetivas.  Assim, na minha ótica, esta é a base fundamental do crescimento individual de cada um de nós. Cada viagem torna-se uma revolução interna e um processo de desconstrução de preconceitos, bem como a abertura para um caminho mais iluminado e uma nova visão do nosso redor físico e abstrato.

O turismo e o ato de viajar também suportam a temporalidade, desde que iniciamos o processo de visitar um novo destino, rasgamos com o quotidiano linear e entramos num espaço temporal novo, onde exerce uma carga na natureza e na relação que temos com o tempo e o espaço.

Este pragmatismo assume um carácter único, ao mesmo tempo que nos convida a sair das rotinas e a encontrar um significado mais profundo sobre o que realmente importa nas nossas vidas enquanto meros humanos de passagem pela terra. Esta temporalidade permite visualizar múltiplas realidades temporais, desde geológicas, históricas e culturais, e cada viagem não é apensas um caminhar no espaço, mas sim um viajar no tempo, onde a experiência se conecta ao eterno e, em simultâneo, ao efémero.

Uma das maiores dimensões contemporâneas do turismo é o exacerbar o único e exclusivo, como forma de posicionamento. O único é, sem dúvida, parte integrante do turismo e da filosofia. Desde Kant no século XVIII que a distinção entre o belo e o sublime foi descrito como uma experiência que coloca frente a frente a imensidão da natureza com algo único e grandioso que exceda a nossa própria capacidade de compreensão.

Para Kant, o Sublime seria sempre algo grandioso e enorme, já o belo poderia ter uma dimensão inferior. Nesta perspetiva, os destinos turísticos devem enquadrar-se no Sublime ou no Belo? Este posicionamento obriga-nos a questionar a nossa visão sobre os destinos turísticos e as experiências. O turismo é um caminho ou poderei dizer uma “ferramenta” para acedermos ao sublime, permitindo que cada turista vislumbre uma magnitude do mundo, em contraste com a sua própria realidade quotidiana.

O mundo do turismo ou os profissionais do turismo e os próprios turistas, na minha opinião, podiam e deviam filosofar sobre o setor e as viagens que fazem, porque este movimento quando regressamos ao quotidiano é um regresso ao próprio ‘EU’. Paradoxalmente, ao explorarmos o desconhecido, conectamos com o que é mais íntimo para nós ou as nossas famílias, isto porque estas viagens não são somente físicas, mas também internas, cada novo destino que exploramos obriga-nos a superar o inesperado e estes processos podem refletir a nossa caminhada de autoconhecimento.

O turismo é assim uma oportunidade de afastarmo-nos das pressões e stress do dia-a-dia e das expetativas da sociedade, e permite a cada um de nós alinhar os mais profundos sentimentos. Neste sentido, o turismo, visto de um prisma filosófico, é uma prática que convida à reflexão sobre o que significa estar e viver neste mundo em busca dos nossos ideais, porque cada nova paisagem é um momento de reflexão. Porventura, devíamos ponderar e refletir que tipo de turismo queremos para os próximos 20 anos e como alterar mentalidades neste processo.  

Atualmente, debatemos imenso sobre se temos turismo a mais. A meu ver, temos planeamento e um “mindset” que está a mudar, mas lentamente, não é só a distribuição turística que evoluiu, o mundo mudou nas últimas décadas.

Em suma, a importância do turismo em Portugal e no mundo transcende o óbvio, sendo um elemento crucial na maioria das economias mundiais. Além disso, é uma maior compreensão sobre o que somos e onde queremos posicionar o nosso país no mundo, ou seja, no final de contas turismo é filosofia em movimento.

Por André Oliveira

Exerceu diversos cargos na área de vendas de grupos internacionais e nacionais, criação de projetos empreendorismo, fundador do VOIGHT, e atualmente é diretor de vendas da Ontravel Solutions S.A, representante em Portugal do maior Tour Operador do UK: Jet2Holidays & Jet2.com. É licenciado em Marketing Turístico pela Universidade do Algarve, Pós-Graduação em Direcção Hoteleira (EHTA) e especializações em Harvard, London Business School e Wharton em gestão estratégica e “corporate finance”.

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