Açores perdem passageiros e dormidas após saída da Ryanair e AL prevê “piores resultados de sempre”

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Os Açores registaram uma quebra de pelo menos 100 mil passageiros e 70 mil dormidas desde abril, na sequência do fim da operação da Ryanair para a região, segundo os dados divulgados pelo Serviço Regional de Estatística dos Açores (SREA). Perante a redução do número de hóspedes e a subida da inflação, a Associação de Alojamento Local dos Açores prevê os “piores resultados de sempre” em termos de rendimentos em 2026 e critica o “desinvestimento em promoção na área dos eventos”.

Entre abril e agosto, segundo os dados mais recentes divulgados pelo SREA, desembarcaram nos aeroportos da região 1.206.055 passageiros, menos 103.766 (7,9%) do que no mesmo período em 2025.

A redução do movimento nos aeroportos traduziu-se numa quebra no número de dormidas em alojamentos turísticos. Os dados de agosto ainda não foram divulgados, mas, segundo os números provisórios de abril a junho e os números preliminares de julho, a hotelaria, o alojamento local e turismo no espaço rural contabilizaram 1.967.881 dormidas. Este valor representa uma quebra homóloga de cerca de 3,5%, com menos 71.627 dormidas do que em igual período em 2025.

No período entre abril e julho, os alojamentos turísticos da região registaram menos 62 mil dormidas de turistas residentes em Portugal do que em 2025.

Desde outubro de 2025 que o turismo na região dá sinais de abrandamento, com uma redução de dormidas face ao período homólogo.

Fim da operação da Ryanair

O fim da operação da Ryanair para os Açores, que voava para a região desde 2015, foi anunciado para 29 de março, mas o último voo realizou-se no dia 28. A decisão foi justificada com as taxas aeroportuárias e a tributação ambiental europeia.

Apesar de neste verão os Açores terem assegurado ligações de 16 companhias aéreas, apenas duas voaram entre as ilhas e o resto do território nacional. Desde abril que as ligações aéreas entre o arquipélago e Portugal continental são asseguradas apenas pela TAP e pela Azores Airlines, do grupo SATA.

Um estudo da EY-Parthenon, pedido pela Câmara de Comércio e Indústria de Ponta Delgada (CCIPD) e citado pela Lusa, estimou que a saída da Ryanair se traduza numa perda anual “entre 339 mil e 391 mil dormidas”, partindo de um cenário em que a companhia aérea transporta anualmente entre 102.886 e 118.561 turistas para os Açores.

Segundo o estudo, essa redução, num setor que representa cerca de 20% do Produto Interno Bruto (PIB) regional, poderá levar a uma diminuição entre 1,5 e 1,7% do PIB da região para 2026, equivalente a uma perda entre 90,1 milhões e 104,5 milhões de euros por ano.

Alojamento local prevê “piores resultados de sempre”

O presidente da Associação de Alojamento Local dos Açores (ALA), João Pinheiro, em declarações à agência Lusa, prevê que 2026 traga os “piores resultados de sempre” nos rendimentos, com a quebra de hóspedes aliada à subida da inflação.

“Chegamos ao final do verão com empresas com menos rendimentos e com um recorde de custos, porque as empresas vão vendo as suas contas a aumentar, muito devido à inflação, aos custos de energia, da mão-de-obra também. O rendimento não aumentando da mesma forma, vamos ter o ano com os piores resultados de sempre para as empresas do alojamento local”, afirmou João Pinheiro.

O presidente da ALA disse que os primeiros seis meses sem voos da Ryanair confirmaram o impacto previsto aquando do anúncio da companhia.

“O Alojamento Local é o setor mais afetado pela saída. Nós temos, mês após mês, vindo a ter quebras nas dormidas e é um resultado que já se adivinhava. São empresas que chegam ao final do verão com dificuldades”, apontou.

Os empresários já fazem as contas ao impacto do primeiro inverno sem uma companhia low-cost a voar para os Açores.

“Os proprietários do alojamento local estão muito receosos com o início do inverno, porque olhando para os calendários, para as reservas futuras, o sinal não é animador. Vai trazer aqui um problema acrescido, não só para o alojamento local, mas para a economia local, para as pequenas e médias empresas”, alertou João Pinheiro.

Em relação à garantia do executivo açoriano que de que estava a trabalhar com a TAP e a Azores Airlines para colmatar o vazio deixado pela Ryanair, o empresário afirmou que não só a solução “não teve impacto”, como os preços das viagens para os Açores dispararam.

“Nós estamos a assistir todos os meses a uma inflação imensa nos custos do transporte para os Açores, principalmente porque só existem duas companhias de bandeira a fazer a viagem entre o continente e as ilhas. Foi um resultado já antecipado. Podíamos ter feito muito melhor, se nos ouvissem, se colocassem mãos à obra”, lamentou.

O presidente da ALA salientou que muitos empresários fizeram investimentos para comprar e recuperar edifícios degradados, a contar com uma rentabilidade que não se confirmou.

Segundo João Pinheiro, há quem tenha optado por colocar o imóvel à venda e quem também esteja a despedir funcionários ou a deixar de contratar, “porque a perspetiva não é nada boa”.

“Se nos tivessem anunciado há cinco anos que a estratégia dos Açores seria ter só as companhias de bandeira a voar, retirando um player do mercado como uma low-cost, que voava já há 10 anos para a região, muitos dos investidores não tinham feito os investimentos que fizeram”, sublinhou.

Numa reação aos números das dormidas em alojamentos turísticos, que têm baixado de mês para mês, o executivo açoriano alegou, em julho, que, apesar da “ligeira diminuição”, o setor “conseguiu gerar mais receita e aumentar os seus níveis de rentabilidade”, referindo-se a um aumento de proveitos na hotelaria.

Os relatórios do SREA não incluem os números dos proveitos do alojamento local, mas o presidente da ALA contradiz a visão mais otimista do Governo Regional.

“O que nos chega dos nossos associados é que, havendo menos hóspedes a chegar, há mais concorrência e há preços que estão a baixar. Há um conjunto de alojamentos a baixar o preço para tentar pelo menos salvaguardar a taxa de ocupação. Além da taxa de ocupação, que está a baixar, também temos os rendimentos, o preço médio, o RevPAR [rendimento por quarto disponível] a baixar”, indicou.

João Pinheiro defendeu que os Açores podem voltar a ter companhias aéreas low-cost, se houver “negociação” por parte da associação Visit Azores ou até do Turismo de Portugal.

“Eu acho que há interesse dessas companhias aéreas. Vamos comparar com a Região Autónoma de Madeira que tem três companhias low-cost a voar o ano inteiro e nós neste momento não temos nenhuma”, frisou.

O presidente da ALA criticou também o “desinvestimento em promoção na área dos eventos, que era fulcral para as épocas baixas”.

“Há que desenvolver novamente os eventos para as épocas baixas, para dinamizar o mercado. A própria promoção digital está a falhar. Tem de haver mais comunicação com os setores do mercado, com áreas que estão interessadas em vir para os Açores na época baixa. Nós somos vendáveis o ano inteiro, agora é preciso que esta promoção seja bem feita”, vincou.

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