O grupo Água Hotels pretende quase duplicar a capacidade de alojamento nos próximos dez anos, num plano de expansão que prevê investimentos entre 30 e 40 milhões de euros e inclui novos projetos no Algarve, Norte de Portugal e Cabo Verde. Em entrevista ao TNews, Adriano Martins, administrador do grupo, revela que a estratégia passa por um crescimento “consolidado e com o menor risco possível”, assente sobretudo no turismo de natureza, saúde e lazer.
A entrevista acontece numa fase de crescimento para o grupo, depois da recente abertura do Água Hotels Terra Fria, em Bragança, a 1 de abril, e numa altura em que a empresa prepara o arranque da construção da futura unidade de 4 estrelas em Vila Real.
No caso de Vila Real, o futuro hotel nascerá da reabilitação do antigo seminário da cidade. Adriano Martins considera que os projetos de reabilitação fazem sobretudo sentido em contexto urbano e centros históricos, onde a construção nova é mais limitada. “É um edifício muito bonito e com uma estrutura organizacional interna que torna muito fácil a transformação em hotel”, afirma.
Segundo Adriano Martins, a prioridade passa agora por consolidar a operação existente enquanto avança com novos projetos “de forma sustentada”.
Nesse contexto, o grupo definiu um plano de expansão a 10 anos que prevê novas unidades, nomeadamente “em Cabo Verde, em Santa Maria, no Sal, e outra no Algarve, em Lagoa”, afirma Adriano Martins.
No caso de Cabo Verde, o grupo prepara a abertura do Água Puro Sal, empreendimento turístico de quatro estrelas cuja inauguração está prevista para 2027.
Atualmente, o grupo conta com cerca de 450 unidades de alojamento e prevê acrescentar mais 380 quartos na próxima década. “A nossa meta a 10 anos será quase dobrar”, sublinha o responsável.
Segundo Adriano Martins, a estratégia de crescimento continuará focada em unidades de quatro e quatro estrelas superior, privilegiando destinos onde o grupo identifica potencial de valorização futura, nomeadamente no interior do país.
“A nossa meta a 10 anos será quase dobrar [o número de quartos].”
“Nós achamos que o turismo do interior de Portugal tem uma forte componente de crescimento”, afirma. O administrador considera que o conceito de “turismo de interior” deverá evoluir nos próximos anos, defendendo que a localização e as acessibilidades continuam a ser os fatores mais importantes para o sucesso de um projeto turístico. “Madrid está mais no interior do que muitas cidades portuguesas e ninguém diz que Madrid é interior”, exemplifica.
Questionado sobre uma eventual aposta em unidades boutique, como é o caso do Água Hotels Lagos Bay, inaugurado em 2025, Adriano Martins admite que estes projetos só fazem sentido quando existem sinergias operacionais com outras unidades próximas. “Uma unidade pequena sozinha é muito difícil de rentabilizar quando é gerida de forma profissional”, afirma.
O administrador acredita também no crescimento sustentado de Cabo Verde, impulsionado pelo aumento das ligações aéreas low cost. “Baixando os custos da passagem aérea, o destino torna-se mais apetecível”, refere.
Adriano Martins considera Cabo Verde um dos mercados africanos mais acessíveis para grupos portugueses de média dimensão. “É provavelmente o país africano mais fácil para começar uma internacionalização”, afirma, destacando a estabilidade democrática e as semelhanças legais com Portugal.
O responsável recorda ainda que o grupo está ligado ao destino há cerca de 14 anos, através do investimento desenvolvido no Vila Verde Resort, na ilha do Sal, experiência que classifica como “muito positiva” e que abriu caminho aos novos projetos previstos para Cabo Verde.
Grupo prepara hotel de congressos no Algarve
Entre os projetos em pipeline está uma nova unidade no Parchal, concelho de Lagoa, pensada para responder à falta de oferta hoteleira associada ao segmento de congressos no Barlavento algarvio. “O Lagoa tem um problema de falta de hotelaria para congresso. Ou temos Albufeira ou Vilamoura, mas aqui no Barlavento é complicado”, explica Adriano Martins.
A futura unidade deverá beneficiar da proximidade ao Centro de Congressos do Arade, numa lógica de complementaridade com a infraestrutura municipal. Segundo o responsável, o objetivo passa por captar mercado corporate durante o inverno e turismo de lazer durante o verão. “Acabamos por conseguir ter de inverno o corporate e de verão o turismo normal”, afirma.
Além do Algarve, o grupo mantém em estudo um novo projeto em São Vicente, Cabo Verde, que deverá avançar futuramente.
Apesar da ambição de crescimento, Adriano Martins garante que o grupo pretende manter uma expansão controlada e sustentável. “Crescer por si só pode ser muito perigoso”, afirma, acrescentando que a estrutura da empresa terá sempre de acompanhar o ritmo de crescimento.
O administrador admite ainda que o facto de a Água Hotels continuar a ser um grupo familiar traz vantagens e limitações. “Tem a parte positiva e negativa. Crescemos mais lentamente, mas de forma mais sustentada”, afirma. Segundo Adriano Martins, a proximidade à operação e às equipas permite ao grupo tomar decisões mais rapidamente e manter maior controlo sobre o crescimento.
Questionado sobre uma eventual entrada em Lisboa e Porto, Adriano Martins admite que ambas as cidades fazem sentido para qualquer grupo hoteleiro, mas considera que exigem uma estrutura operacional e financeira mais robusta. “Temos de perceber quando e em função da nossa dimensão”, afirma, alertando para os elevados custos de operação e para o risco de crescer “sem a estrutura preparada”.
“Publicita-se muito o crescimento do turismo, mas o problema é que os custos crescem ainda mais”
2025 marcado por incêndios no Norte e pressão competitiva no Algarve
O grupo registou desempenhos distintos nas diferentes geografias em 2025. No Norte, os incêndios e as condições meteorológicas adversas afetaram fortemente a procura. “Até aos incêndios tínhamos crescimentos da ordem dos 12% a 15%, mas acabámos o ano praticamente na linha de 2024”, explica Adriano Martins.
Segundo o administrador, o turismo de natureza foi particularmente penalizado, primeiro pelos incêndios e depois por um inverno “muito prolongado”, marcado por chuva persistente. “De outubro a fevereiro choveu praticamente todos os dias no Norte”, refere.
Já no Algarve, o grupo registou crescimentos entre 6% e 7%, embora Adriano Martins admita que a elevada concorrência continue a pressionar os preços médios. “Todos os anos abrem muitos hotéis no Algarve e isso condiciona o preço de toda a concorrência”, afirma.
O responsável destaca ainda a mudança nos padrões de reserva, sobretudo no turismo do interior, onde o last minute se tornou dominante. “O turismo já não marca como marcava nos outros anos”, admite.
Quanto aos principais mercados emissores, Adriano Martins explica que o Algarve continua muito dependente dos mercados tradicionais europeus, nomeadamente Reino Unido, Irlanda e Alemanha, além do mercado português. O grupo tem vindo também a registar crescimento do mercado canadiano e, mais recentemente, do francês. Já no Norte, a procura continua bastante dependente do mercado nacional, embora a Água Hotels esteja a tentar captar mais clientes de Espanha, Benelux e França. “São mercados que começam a descobrir o Norte de Portugal”, afirma.
A escassez de mão de obra continua a ser um dos principais desafios do grupo, sobretudo no Algarve. Para mitigar a falta de recursos humanos, a Água Hotels recorre à mobilidade de colaboradores entre Cabo Verde e Portugal, aproveitando a complementaridade das épocas altas nos dois destinos.
“Temos de investir cada vez mais em processos informáticos porque o grande desafio dos próximos anos será precisamente a escassez de recursos humanos”
“Já é impossível operar sem alojamento para trabalhadores”, admite Adriano Martins, considerando que esta será uma necessidade crescente para todo o setor turístico.
O administrador alerta também para a crescente pressão dos custos operacionais sobre a rentabilidade das empresas turísticas. “Publicita-se muito o crescimento do turismo, mas o problema é que os custos crescem ainda mais”, afirma. “O lucro operacional desce, não sobe.”
Segundo Adriano Martins, o aumento dos salários, energia, combustíveis e matérias-primas está a pressionar as margens operacionais do setor. “No fim do ano fazemos contas e afinal a coisa não é aquilo que se pinta”, resume.
O administrador acredita que os próximos anos obrigarão o setor a acelerar a profissionalização da gestão e o investimento tecnológico, reduzindo a dependência operacional da mão de obra. “Temos de investir cada vez mais em processos informáticos porque o grande desafio dos próximos anos será precisamente a escassez de recursos humanos”, conclui.








