Quarta-feira, Agosto 10, 2022
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Câmara do Turismo de Cabo Verde alerta para “razia” da emigração de quadros para Portugal

A Câmara do Turismo de Cabo Verde antevê problemas de falta de quadros nos hotéis face ao anunciado recrutamento de milhares de trabalhadores para Portugal, salientando que a formação profissional no arquipélago não está preparada para “essa razia”.

Em entrevista à agência Lusa, Jorge Spencer Lima, presidente da Câmara do Turismo de Cabo Verde, não escondeu a preocupação com o cenário que se antevê, depois de em julho último uma missão da Região de Turismo do Algarve já ter estado no arquipélago à procura de trabalhadores, anunciando que tem cerca de 5.000 vagas por preencher.

“Vejo com preocupação porque o que poderia ser um ato normal deixa de ser porque não foi preparado, por ser um processo que vai esvaziar os hotéis de quadros, sem alternativas. Porque o sistema de ensino que forma quadros em Cabo Verde ainda não está preparado para essa razia”, afirmou Jorge Spencer Lima.

Para o empresário e dirigente do setor, a perspetiva é de “haver problemas de quadros” a breve prazo, num setor que garante 25% do Produto Interno Bruto (PIB) e do emprego em Cabo Verde, sobretudo em áreas da cozinha ou restauração, sem que o país tenha “base para substituição” dos que partem.

“Pode criar problemas no funcionamento dos hotéis e na qualidade do serviço que é prestado. As pessoas são livres para emigrarem quando entenderem e para onde entenderem. O que não faz sentido é o próprio Governo de Cabo Verde estar a apoiar esse tipo de recrutamento sem preparar o país para essa eventualidade”, disse ainda Spencer Lima.

A prioridade, acrescentou, deve passar por reforçar o sistema de formação profissional: “A emigração vai ser uma fatalidade, já começou e não é a primeira vez. A questão é que o nosso sistema não está preparado para formar mais quadros, que possam substituir aqueles que vão emigrar, tem que ser essa a via, porque nós não vamos poder impedir as pessoas de emigrarem. As pessoas são livres. Mas o sistema tem de funcionar, sai um, tem que ter dois preparados, que não é o caso neste momento. Esse é que é o verdadeiro problema”.

O número de trabalhadores ao serviço nos estabelecimentos hoteleiros de Cabo Verde cresceu cinco vezes em 2021, para 8.400, indicam dados divulgados em junho pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) cabo-verdiano.

Segundo o Inventário Anual de Estabelecimento Hoteleiros divulgado, esses estabelecimentos empregavam diretamente 1.577 trabalhadores no final de 2020 (após um máximo de 9.417 em 2018), registo que assim subiu fortemente (432,7%) no final do ano passado, devido à reabertura progressiva das unidades de alojamento, após as restrições impostas pela pandemia de covid-19.

No final de 2021, segundo o mesmo inventário, Cabo Verde contava com 292 estabelecimentos de alojamento hoteleiro, número que compara com os 124 no ano anterior e os 284 em 2019.

O número de camas disponíveis também voltou a crescer, para 24.156, quando em 2020 eram 4.094 e em 2019 um total 21.059.

Cabo Verde enfrenta uma profunda crise económica e financeira, decorrente da forte quebra na procura turística desde março de 2020, devido às restrições impostas para controlar a pandemia de covid-19.

O país registou em 2020 uma recessão económica histórica, equivalente a 14,8% do PIB, e um crescimento económico de 7% em 2021, impulsionado pela retoma da procura turística no quarto trimestre.

De acordo com o anterior relatório da Movimentação de Hóspedes no país em 2021, a hotelaria cabo-verdiana contabilizou em todo o ano passado 169.068 hóspedes, contra os 207.125 em 2020, em ambos os casos longe do recorde de mais de 819 mil turistas em 2019.

O presidente da Região de Turismo do Algarve disse em 13 de julho, na Praia, que há cerca de 5.000 empregos por preencher naquele setor e está à procura de trabalhadores em Cabo Verde.

“Nós temos cerca de 5.000 ofertas de emprego com necessidade de serem preenchidas, podem ser por cabo-verdianos ou por outras nacionalidades”, disse à imprensa o presidente da Região de Turismo do Algarve, João Fernandes, durante uma missão na capital cabo-verdiana.

Realizada no âmbito do projeto “Promoção de uma Boa Gestão da Migração Laboral para Portugal”, a missão pretendia explorar mecanismos que facilitem a mobilidade de trabalhadores entre os dois países no setor do Turismo.

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