Carta Aberta ao Turismo | Por Mário Ferreira

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No âmbito da celebração do Dia Mundial do Turismo, o TNews convidou várias personalidades para escreverem cartas abertas sobre o setor.

Hoje publicamos a reflexão de Mário Ferreira, Presidente do Grupo Pluris Investments, que sublinha a força transformadora do turismo em Portugal, alerta para os riscos do crescimento sem planeamento e defende a valorização do Interior como chave para o futuro.

Portugal não descobriu apenas o turismo. Descobriu em si próprio uma força transformadora

Nas últimas duas décadas, deixámos de ser apenas um destino de passagem para nos tornarmos referência mundial. O turismo representa hoje cerca de 15% do PIB, cria emprego, gera riqueza e projeta a nossa identidade muito além das nossas fronteiras.

Mas todo o sucesso traz consigo novos desafios: algumas cidades estão hoje congestionadas; as rendas e os preços da habitação sobem nos grandes centros, limitando e dificultando o acesso de residentes locais, devido ao aumento constante dos preços; os serviços públicos estão hoje mais pressionados.

O turismo mostrou-nos o melhor de Portugal — mas também nos lembra que crescer sem estratégia bem definida e sem planeamento pode ser tão perigoso quanto não crescer.

O futuro não está em repetir os mesmos caminhos e incentivar a contínua venda desses mesmos caminhos. Está em incentivar, abrir e diversificar novas rotas e novos produtos.

Não está apenas em Lisboa, na Madeira, no Algarve, nem nos destinos que se repetem até à exaustão. O futuro está na alternativa do Interior — onde o território respira, onde aldeias inteiras aguardam uma segunda vida, onde o Douro, o Alqueva, o Gerês, a Serra da Estrela, Trás-os-Montes ou o Alentejo profundo oferecem espaço, história, grandiosas paisagens, gastronomia, cultura, identidade e autenticidade.

O Douro mostrou o caminho há mais de trinta anos, transformando um rio que transportava vinho em embarcações à vela num novo destino de sucesso, fora do então famoso Portugal de Sol e Praia. O segredo esteve em integrar: “vender” história, cultura, gastronomia e paisagem; incluir parceiros locais, a quem comprámos os seus produtos; contar as suas histórias; mostrar as suas quintas; dar a provar os seus vinhos; formar jovens da região e para a região; criar centenas de empregos e novas oportunidades de carreira; apostar em embarcações modernas e tecnologicamente desenvolvidas. Não foi filantropia. Foi visão. E resultou.

A grande questão é: como crescer sem perder a essência?

A resposta está em políticas que premiem quem gera valor onde ele mais falta. Seria importante criar uma diferenciação fiscal para quem investir no Interior.

O turismo do futuro não será medido apenas em dormidas ou receitas. Será medido pela capacidade de fixar pessoas, regenerar comunidades, manter rios e albufeiras navegáveis, limpos e bem tratados; dar vida ao património esquecido e abandonado; exportar a marca Portugal sem esvaziar o território.

O desafio é claro:
se soubermos gerir este ciclo, o turismo será muito mais do que uma indústria — será um motor de coesão territorial, de sustentabilidade e de orgulho nacional.

A título de exemplo, o Douro já nos mostrou que é possível.

Agora é tempo de levar este espírito a todo o país — antes que o Interior deixe de ser uma alternativa e passe a ser apenas memória.


24 de setembro de 2025

Mário Ferreira
Presidente do Grupo Pluris Investments

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