“Gosto mesmo de pensar que há avanços que se aceleraram depois da Covid. No Turismo, cresceu a vontade e a consciência para práticas mais sustentáveis e para a diversificação de destinos, com procura por experiências de menor pegada ambiental. Não é romantismo: são factos”
Como prometido, este é o 3º e último álbum desta “minha banda”. Interrompi o ciclo mensal (o 1º foi publicado em julho, sobre as mudanças no dia-a-dia e no mundo do trabalho; o 2º foi publicado em agosto, sobre as 5 feridas políticas e sociais que a pandemia deixou) porque, entretanto, caiu sobre Lisboa a tragédia do elevador da Glória, e havia mesmo que honrar e reflectir sobre este episódio mau da nossa história colectiva.
Neste, por ser o último do ciclo, permito-me, portanto, alguma liberdade poética: A.C. (antes da COVID) havia Paris, COPs, ODS, Pacto Verde, Greta. Durante, ouvimos promessas de reconstrução verde e empresas comprometidas com ESG. D.C. (depois da COVID): se algumas metas ambientais sobrevivem, concorrem com guerras, rearmamento e crises sociais e políticas que não estavam nada, mesmo nada, no guião. Porém entre perdas e recuos, houve avanços vitais na ciência, cultura, ambiente, agricultura e turismo. O futuro continua, por isso, agora e como sempre, em aberto!
A.C.
O mundo vivia uma década em que o clima tinha uma agenda. O Acordo de Paris prometia limitar o aquecimento global; as COPs anuais multiplicavam compromissos e comunicados; a Agenda 2030 era a Bíblia a seguir para se atingirem os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) para todos, todos, todos; e o Pacto Ecológico Europeu (PEE) prometia que Europa viria a ser o primeiro continente a atingir a neutralidade carbónica até 2050.
Greta Thunberg era um fenómeno que eletrizava multidões, sobretudo muito jovens, aborrecia líderes (mas que jamais o confessariam) e dava protagonismo a uma geração que reclamava acção. E já!
No plano cultural, vivíamos um ambiente de expansão e de circulação, exposições, festivais, programas internacionais, com total “liberdade de expressão”.
PARÊNTESIS: Durante a COVID
Quando o vírus parou o mundo, António Guterres chamou-lhe um “alerta sem precedentes” e pediu que a recuperação- sim, porque a haveria- fosse verde e justa. Não gastar fundos públicos para salvar indústrias poluentes, acelerar energias renováveis, proteger a biodiversidade. Quanto à recuperação do Turismo, o SG das NU impôs o mesmo discurso: ser obrigatório “reconstruir este setor, de uma forma segura, equitativa e favorável ao clima, uma recuperação com a experiência de viagem sustentável e responsável que seja segura para as comunidades anfitriãs, para os trabalhadores e para os viajantes”. Palavras bonitas e fortes, sem dúvida, mas os governos estavam mais ocupados a garantir máscaras e ventiladores, e a UE a braços com a aquisição das vacinas (e nas controvérsias “a quem” e “por quanto”, lembram-se?).
A pandemia expôs a fragilidade dos ODS. Afinal a luta contra a pobreza e a desigualdade, e pela educação e clima, deram prova de quão inconsequentes vinham sendo!
O termo ESG, sinónimo de integração de critérios ambientais, sociais e de governação nos investimentos, torna-se sexy e é incorporado nos relatórios e compromissos de grandes grupos, que juravam ser por um futuro responsável. Com alguma hipocrisia à mistura.
Na cultura, o fecho de portas acelerou a transição digital e abriram-se novos canais. Mas também novos campos de batalha: de um lado, discursos inflamados sobre inclusão e revisão histórica (woke); do outro, uma reacção feroz (anti-woke). A “liberdade de expressão” sem dúvida de inegável valor civilizacional e político foi abusada e passou a ser, vezes de mais, salvo-conduto para o insulto.
D.C.
Saímos do confinamento para um mundo diferente. O PEE mantém-se formalmente, mas a sua implementação disputa espaço com o (insaciável?) apetite por investir percentagens crescentes do PIB na Defesa; com a inflação à espreita; com cadeias de abastecimento profundamente alteradas e com o fim da globalização.
Claramente, o mundo entra em tensão. E, vá, indústrias de defesa “verdes”?!
Os ODS continuam nos discursos da ONU, mas, na verdade, o relógio está a correr e não parece que estes objectivos sejam alcançáveis, seguramente não no tempo previsto.
O quadro ESG, como sendo decisivo para as empresas responsáveis e sustentáveis, resiste ainda, mas, além de enfrentar acusações de greenwashing e contra-ataques políticos – sobretudo nos EUA (e já muito escrevi sobre isso)- parece-me estar em banho-maria.
A cultura regressou ao espaço público (ainda que os écrans, longe disso, não tenham perdido terreno), mas num quadro mais extremado. Isto porque a guerra cultural ganhou, inacreditavelmente, dimensão política; as universidades nos EUA enfrentam cortes e ingerência ideológica e os jornais perdem leitores e independência.
Entretanto, também os EUA encerram as suas agências, vitais para a promoção da saúde, da cultura e da paz nos países mais pobres, e retiram-se das agências internacionais, essenciais para a concretização dos ODS. Que assim ou correm sérios riscos de existência, por falta de oxigénio financeiro, ou vêem a sua missão esvaziada.
Deste lado, na Europa, reabrem-se discussões que até há relativamente pouco tempo seriam bizantinas: rearmamento, autonomia estratégica, reforço das fronteiras. Isto a par do relatório Draghi, que expôs o défice de competitividade; do pacote OMNIBUS que tenta simplificar regras, mas dizendo não querer abdicar da transição verde e digital. Porém, a energia é cara, e a pressão militar e as guerras em curso condicionam qualquer plano a longo prazo.
Em suma: a ambição de “reconstruir melhor” deu lugar a uma gestão que se diz pragmática e à busca de equilíbrios: manter objectivos ambientais e culturais enquanto se responde a crises. Diferentes, muitas e em muitas frentes. Tentamos a quadratura do círculo?
E ainda assim…
Gosto mesmo de pensar que há avanços que se aceleraram: a ciência e a medicina deram um salto na capacidade de desenvolver vacinas em tempo recorde (malgré os anti-vax); na cultura, as ferramentas digitais abriram portas a novas audiências e formatos; no ambiente, a energia solar e eólica bateram recordes de produção (e mesmo nos EUA, onde coexistem com o “drill baby drill”, são cada vez mais negócio!); na agricultura, a inovação tecnológica trouxe métodos de cultivo de baixo impacto e sistemas de monitorização mais precisos. E no Turismo? Cresceu a vontade e a consciência para práticas mais sustentáveis e para a diversificação de destinos, com procura por experiências de menor pegada ambiental. Não é romantismo: são factos. E há mais.
Em suma: mesmo num cenário adverso, há progressos a registar!
Fecho aqui este ciclo de três reflexões, que espero sirvam pelo menos para um aide-mémoire daquele tempo, que foi há pouco mais de cinco anos. Quão depressa o Mundo muda.
E a vida continua!
Por Cristina Siza Vieira
É Vice-Presidente Executiva da Associação da Hotelaria de Portugal e uma das vozes mais influentes no setor turístico nacional. Todas as primeiras sextas-feiras de cada mês, Cristina Siza Vieira assina a coluna de opinião ‘Casual Friday’, trazendo a sua visão sobre os principais temas do setor do turismo e da hotelaria.



