Casual Friday | A guerra mexe com toda a gente, com todos os nervos, com todos os sectores

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“Quando o petróleo sobe, no Turismo isso multiplica-se várias vezes, espalha-se pela hotelaria, rent-a-car, restauração, congressos, eventos, city breaks, cruzeiros, seguros de viagem”

Não me apetecia falar sobre a guerra. Mas é incontornável. Porque desde Fevereiro, e já parece uma eternidade, que Estados Unidos, Israel e o Irão estão envolvidos num conflito que ultrapassou a escala regional e contamina o Mundo. Entre as ondas de choque que provoca, com implicações sistémicas, o Turismo, que tem, todos o reconhecem, natureza transversal, está naturalmente exposto.

Primeiro que tudo, o Turismo vive da mobilidade. E no mesmo plano de importância, de confiança e previsibilidade. Ora, são estas 3 dimensões que estão em tensão neste contexto de guerra.

É certo que o disse no último artigo, e reafirmo, que o Turismo organizado, tal como o conhecemos hoje, é estruturalmente irreversível. Pode mudar de forma, de geografias, tornar-se mais contido, mais sustentável ou mais sofisticado. Pode abrandar em certos momentos e acelerar noutros. Mas dificilmente desaparecerá. Tudo porque operadores e viajantes se adaptam para sobreviver. E, também o disse, aprende-se, olhando para o passado e medindo o pulso à realidade.

Assim, que impactos estamos ou vamos sentir no curto prazo? E o que será mais duradouro?

1. Impacto directo: a disrupção imediata

O impacto directo é evidente. Espaços aéreos encerrados ou restringidos, rotas desviadas, voos cancelados, tempos de viagem mais longos, maior pressão operacional.

O Médio Oriente é um eixo crítico da conectividade mundial. Com o espaço russo e ucraniano já limitado pela guerra, iniciada naquela célebre madrugada também em Fevereiro de 2022 (1), que as rotas entre Europa e Ásia dependem ainda mais daquela geografia. Quando estas conexões falham os desvios tornam-se mais longos, mais caros e mais complexos. A IATA tem vindo a alertar para isso e para vários efeitos em cadeia. Primeiro, mais custo e menor previsibilidade operacional para as companhias. Segundo, pressão sobre tarifas e sobresobretaxas. Terceiro, erosão da competitividade dos destinos mais dependentes de conectividade de longo curso. Quarto, reforço da atractividade relativa dos destinos percebidos como estáveis, próximos ou “fáceis”.

Não é por acaso que a EASA (European Union Safety Agency) mantém activo um boletim de risco elevado para o espaço aéreo do Médio Oriente e do Golfo. Nem que a IATA sublinhe que a gestão operacional em contexto de conflito assenta hoje em avaliação (muito) dinâmica de risco, coordenação entre Estados e operadores e permanente adaptação de rotas.

2. Impacto indirecto: o que se alastra pela cadeia de valor

Mas o efeito mais penoso, a meu ver, costuma ser o indirecto.

O Turismo, repito, vive de mobilidade acessível. Se o combustível sobe, as tarifas sobem. Se os voos ficam mais longos e imprevisíveis, a guerra não atinge apenas quem está no epicentro (2). Atinge também destinos e mercados que dependem de ligações, de hubs e de confiança. O impacto indirecto, para lá dos preços do combustível e da energia e da acrescida complexidade logística, bate fortemente no sentimento económico geral. Quando o petróleo sobe, no Turismo isso multiplica-se várias vezes, espalha-se pela hotelaria, rent-a-car, restauração, congressos, eventos, city breaks, cruzeiros, seguros de viagem. E é claro, no rendimento disponível dos consumidores. Viajar continua a ser o maior desejo, mas o preço condiciona. E se o bilhete aéreo é mais caro, há que compensar… que mais não seja na duração das férias.

E ainda, não esquecer, um efeito indirecto pesado: cresce a percepção de risco. E no Turismo a percepção pesa tanto como a realidade. O resultado é conhecido: procura que se desloca para destinos considerados mais seguros, mais próximos e mais previsíveis. Ça va sans dire… num primeiro momento surgem oportunidades para a velha Europa (3), particularmente a do Sul.

3. Impacto induzido: o que acontece ao rendimento e ao consumo

Há depois uma terceira dimensão, absolutamente imperativa para quem olha a economia do Turismo como eixo central da economia geral: o impacto induzido. A WTTC define-o como o PIB e o emprego sustentados pela despesa dos trabalhadores do Turismo e dos trabalhadores das cadeias de fornecimento que o servem. Ou seja: quando cai a actividade turística, não cai apenas a receita do hotel ou da companhia aérea. Cai também a despesa das famílias que vivem desses rendimentos. 

É aqui que uma crise inicialmente aérea ou geopolítica se transforma em problema territorial e social. Menos turistas podem significar menos horas de trabalho, menos consumo local, menos serviços adquiridos a fornecedores, menos investimento, menor dinamismo do comércio e restauração. E, claro, menos impostos recolhidos. Tudo junto, especialmente em destinos fortemente dependentes do Turismo, pode ser especialmente doloroso.

Dito isto…

… mesmo que queiramos circunscrever esta guerra ao Médio Oriente (mas não é assim), o que nos diz a evidência? 

Diz-nos que este choque atinge um sector que vinha de um ciclo de forte crescimento. Segundo a WTTC, o Turismo recordo, representa cerca de 10% da economia mundial e deverá continuar a crescer. É precisamente essa dimensão que o torna simultaneamente resiliente, e particularmente exposto a choques sistémicos.

Também aqui a posição da WTTC merece atenção. Até ao momento, a organização tem optado por uma abordagem prudente: não existe ainda uma avaliação consolidada do impacto global do conflito, apenas estimativas pontuais que apontam para perdas significativas na região (ver nota 2). E que a velocidade da recuperação depende do tempo do conflito. 

Mais uma vez, a ausência de números definitivos diz tanto quanto os números: estamos perante um choque em evolução.

E o que nos diz o histórico mais recente?

O relatório “Crisis Readiness”, publicado pela WTTC em 2019, e que já citei várias vezes em vários artigos, continua, a meu ver, a oferecer um enquadramento particularmente útil. Ao analisar crises anteriores, concluiu que as situações de “political turmoil” são as mais penalizadoras para o Turismo. A escolha das palavras importa. “Turbulência política” pode soar a ruído passageiro. Mas o que a WTTC ali agrupa são golpes de Estado, protestos massivos, confrontos entre facções, incerteza prolongada, deterioração da percepção de segurança. E isso explica o principal dado do estudo: esta categoria teve o mais longo período médio de recuperação turística, 22,2 meses! Acima das crises sanitárias, dos desastres naturais e do terrorismo. O estudo analisou 90 crises entre 2001 e 2018 e registou impacto mensurável em 92% dos casos. 

Ora se assim é, sejamos realistas. Uma guerra desta natureza, nesta região, com estes beligerantes, não é um choque pontual em território circunscrito. Antes provoca ondas de choque mundiais e um ambiente prolongado de incerteza que, infelizmente, irá trazer impactos duradouros.

Portanto, não me apetecia falar sobre a guerra. Mas a guerra já está, de forma directa, indirecta e induzida, a falar sobre o Turismo.

Por Cristina Siza Vieira

É vice-presidente executiva da Associação da Hotelaria de Portugal e uma das vozes mais influentes no setor turístico nacional. Na sua coluna mensal Casual Friday, publicada sempre na primeira sexta-feira de cada mês, escreve sobre tudo o que merece reflexão: desde o turismo e a hotelaria até às questões que nos tocam no dia a dia e aos temas que agitam o mundo.

(1) Curiosamente também havia sido em Fevereiro, nos idos de 2014, que a Crimeia tinha sido anexada pela Rússia, e vivia-se desde então já em conflito continuo e permanente na região. Já agora, sabem quando foi a revolução que derrubou o Czar em 1917? Pois. Para César, os idos de Março, para os russos, Fevereiro.

(2) Todavia, no epicentro, o peso é impressionante. A WTTC – única estimativa que para já conheço desta entidade sobre o preço desta guerra- estima que o conflito em torno do Irão já esteja a custar ao turismo do Médio Oriente pelo menos 600 milhões de dólares por dia em receitas perdidas. A mesma nota lembra que a região representa 5% das chegadas internacionais globais e 14% do tráfego internacional de trânsito.

(3) De resto, a braços também com acrescida despesa com a assistência à Ucrânia e com o seu próprio rearmamento. 

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