“Parece um amigo. É exactamente igual a um amigo” (“…o coração de Joana deu um pulo na garganta”)
in A Noite de Natal, Sophia de Mello Breyner Andresen
Num último jantar de amigos, dei por mim a perguntar-me: somos amigos de quem se parece connosco ou de quem é o nosso avesso? Andei por aí a navegar e aprendi que a chamada psicologia social diz que procuramos nos outros versões de nós mesmos. Sofremos de similarity-attraction effect. O nome diz tudo: parece que, por defeito, tendemos a aproximar-nos de quem partilha valores, interesses, hábitos, idade, educação ou até tiques de linguagem. É compreensível posto que, na verdade, para lá do sentido de pertença e segurança, há até leveza em estar com quem ri das mesmas coisas, ou conforta-nos encontrar quem se preocupa com os mesmos dilemas.
Só que… não me convence, pelo menos totalmente. É que, ao longo da nossa vida e das várias idades e fases porque passamos, há muitos tipos e entendimentos do que é a amizade. Sendo muito jovens, sim, a amizade nasce das semelhanças, daquela descoberta recíproca e encantada “parece que nos conhecemos desde sempre!”. Mais tarde, sentimos atração pelo oposto (a procura de um parceiro amoroso, tantas vezes…) e muitas amizades nascem da diferença. E da curiosidade, do desafio, do fascínio pelo outro. E no processo de crescimento e de descentramento, creio que nasce um outro sentir, simultaneamente mais leve e mais profundo, que nos leva primeiro a apreciar a companhia do amigo, depois a acarinhá-lo, e mais tarde a querer preservar a todo o custo os amigos que temos. A respeitar e apreciar até as diferenças, os debates, mesmo os encalorados, porque, acima de tudo dizemos, “é meu amigo”. Apesar de diferentes, e tantas vezes opostos, somos amigos.
Há um sem número de exemplos de pares de amigos de ficção que me saltam logo à memória, muito diferentes, mesmo opostos, e cuja amizade é o sal da aventura. Por isso são pares imortais: Dom Quixote e Sancho Pança; Holmes e Watson; Carlos da Maia e João da Ega; Poirot e Hastings; Tintim e Capitão Haddock; Obelix e Astérix; Blake e Mortimer; Calvin e Hobbes; Frodo e Sam (já agora, J. R. R. Tolkien era grande amigo de outro escritor de ficção famoso, C.S. Lewis, apesar das enormes diferenças).
É fluído e amplo o conteúdo e sentido do nome “amigo”. Voltando à minha pergunta inicial, não creio que haja uma resposta fechada, antes várias, todas verdadeiras e legítimas. Penso mesmo que a resposta varia conforme a nossa idade, as circunstâncias, o estado de espírito ou a mesmo pessoa de quem falamos. Leva a que consideremos amigos quer aqueles com quem partilhamos tudo, quer outros a quem, à superfície, nada nos liga- e ainda assim cabem dentro do conceito. E depois há amizades que resistem à distância e ao tempo, e outras não.
Porquê?
Porque a essência da amizade não creio que seja nem a semelhança nem o contraste entre os amigos. Há amizades baseadas na semelhança, vinda de interesses partilhados ou de rotinas comuns, que se evaporam. Quando a rotina muda. Ou quando se atravessam maus momentos. O dito similarity-attraction effect não resiste, só porque sim, à distância e ao tempo. Na essência, a amizade exige disponibilidade, energia e investimento emocional ou, dito de outro modo, precisa de recursos específicos, como sejam o tempo, a disposição e a vontade, para investir, estar, escutar, aceitar, querer envelhecer juntos. E para tanto o que importa não é a origem, o temperamento ou os gostos.
Ora, aqueles são recursos específicos limitados. Por isso, e apesar das redes sociais nos quererem fazer acreditar no contrário, só conseguimos manter verdadeiramente próximas as pessoas em quem investimos e que investem em nós. E quantas são? Soube há pouco que até há um número, com um conceito misto de antropologia e psicologia por detrás, o “número de Dunbar” que dita que o ser humano só consegue manter relações sociais estáveis no máximo com cerca de 150 pessoas. Isso é imenso, certo? (A mim parece-me imenso). Porém, o segundo círculo, o mais íntimo é, esse sim, francamente limitado: em média temos connosco cinco pessoas, entre melhores amigos e familiares.
Não sei se esses cinco se parecem entre si ou não. Mas talvez seja essa a graça: o que nos une não é uma fórmula exata, uma parecença ou uma dissemelhança. É sim um conjunto de pequenas cumplicidades, diferenças bem geridas, histórias partilhadas. Esse círculo que nos acompanha e dá sabor à vida. E a um nível mais profundo, o grande amigo que nos conhece e aceita sem nos pedir justificações, que nos fala verdade, mesmo quando é incómoda, e que permanece e consola nos nossos dias mais cinzentos.
Feliz Natal a todos os Amigos!
Por Cristina Siza Vieira
É Vice-Presidente Executiva da Associação da Hotelaria de Portugal e uma das vozes mais influentes no setor turístico nacional. Na sua coluna mensal Casual Friday, publicada sempre na primeira sexta-feira de cada mês, escreve sobre tudo o que merece reflexão: desde o turismo e a hotelaria até às questões que nos tocam no dia a dia e aos temas que agitam o mundo.




