Segunda-feira, Março 9, 2026
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Casual Friday | Laundry list: as pequenas vantagens da tecnologia

“A tecnologia tornou-se tão integrada na nossa vida que passou a ser uma commodity como outras dos séculos XIX e XX. (…) É como a electricidade: só damos por ela quando falha”

Sou daquelas pessoas, razoavelmente contraditórias, que gostam de criticar o peso excessivo da tecnologia nas nossas vidas, mas que na verdade não pode passar sem ela. Reclamo do tempo passado em frente a ecrãs, da dependência dos dispositivos, da sensação de estarmos sempre “ligados”. Mas depois acontecem episódios muito simples que me obrigam a reconhecer o óbvio: a tecnologia, na maior parte dos dias, resolve muitos problemas (já saber se resolve mais do que cria é toda outra história…).

Recentemente aconteceu-me um daqueles episódios que não só me fizeram ficar maravilhada com a bondade do ser humano, como, lá está, com as vantagens da tecnologia. Para não entrar em detalhes mais ou menos íntimos e que provam a distracção da autora, detenho-me apenas nesta última parte.

Há dias perdi o telemóvel num transporte público. Nada de épico, nada de cinematográfico — apenas aquele momento de pânico que advém de perceber tinha a minha vida inteira no bolso (eu e todos, ou quase, certo?): contactos, fotografias, documentos, notas, agenda, trabalho, memórias…

Usando uma funcionalidade básica de localização de dispositivos, segui-lhe o trajecto e recuperei-o. E com grande felicidade, como sabem todos os que já passaram por isto (e não têm todas as salvaguardas devidas). E com um sentimento de enorme gratidão ao desconhecido que o guardou. E com um ponto inequívoco para a tecnologia!

Vai daí, dei por mim a fazer uma lista mental das pequenas/grandes vantagens que nos aproveitam no dia a dia. Das pequenas soluções quotidianas que simplificam, organizam e descomplicam a vida dos comuns mortais.

Cá vai ela, sem qualquer preocupação exaustiva e menos ainda de destacar as imensas vantagens que a tecnologia tem, desde logo estar a escrever este texto no meu PC , só mesmo as comezinhas. Sublinho que este é um momento de júbilo, muito positivo, pelo que, propositadamente, não vou colocar os “contras”, mas só os “pros” destas aplicações e ferramentas. Não que os ignore, claro (os contra). Aliás rigorosamente todos os que figuram na lista que se segue têm contras….

Eis uma laundry list — imperfeita, incompleta e pessoal — das pequenas vantagens tecnológicas móveis que nos acompanham todos os dias. 

  1. Lembretes (que nos salvam de esquecimentos inoportunos).
  2. Mapas (que evitam discussões sobre direcções erradas).
  3. Tradutores instantâneos (que nos permitem desenrascar em qualquer língua).
  4. Calendários (que se actualizam sozinhos e ex aequo em vários dispositivos).
  5. Listas de compras partilhadas.
  6. Alarmes, temporizadores e cronómetros.
  7. Pagamentos sem dinheiro vivo nem trocos perdidos.
  8. Bilhetes, reservas e cartões de embarque no mesmo sítio.
  9. Fotografias organizadas por datas, locais e rostos.
  10. Comparadores de preços em segundos.
  11. Consultas médicas marcadas (sem telefonemas intermináveis).
  12. Videochamadas (que encurtam distâncias e sempre ajudam a enganar as saudades).
  13. Pesquisa imediata (quando surge uma dúvida, normalmente banal). 
  14. Backups automáticos (que salvam anos de memórias).
  15. Apps que acompanham a actividade física, o sono ou a hidratação.

Nada disto é, nos dias que correm, extraordinário. E talvez seja precisamente esse o ponto. A tecnologia tornou-se tão integrada na nossa vida que passou a ser uma commodity como outras dos séculos XIX e XX. Banalizou-se. É como a electricidade: só damos por ela quando falha.

Por isso, a tecnologia é simultaneamente um conjunto de ferramentas, um meio e um apoio à organização do dia-a-dia.

Podia ficar-me por aqui, é verdade. Mas este texto ficava demasiado cor-de-rosa, desculpem-me os leitores da Casual Friday, mas vou ser precisa: esta é uma coluna que mesmo quando se quer de leitura light, não será cor-de-rosa.

É que a tecnologia tem donos. E os donos querem sempre mais. E os consumidores vão atrás. Por isso, estão sempre a surgir vantagens novas, upgrades, actualizações, mais e mais virtudes, que satisfazem necessidades que nem sabíamos que tínhamos!

E a tecnologia torna-se exigente, reclama mais e mais atenção obriga-nos a aprender continuamente a lidar com ela. Aprender a configurar, a proteger dados, a perceber o que usamos e porquê. Aprender a distinguir utilidade de excesso. Aprender a estabelecer limites. Aprender a desligar.

Porque, por um lado, sem aprendizagem contínua ficamos mesmo para trás. E, por outro, sem espírito crítico ficamos vulneráveis.

Tenho plena convicção que entre a exclusão digital e a absorção acrítica existe um espaço que precisa de ser ocupado por educação, consciência e, sim, por regulação.

Os sinais de que a Europa está a repensar seriamente o papel e os limites das grandes plataformas digitais não surgem por acaso. Surgem porque começa a ser evidente que nem tudo pode ficar entregue apenas à autorregulação do mercado — e que, em certas circunstâncias, vedar o acesso, desde logo no caso das crianças, não é censura: é protecção.

A tecnologia continuará a avançar. Isso é inevitável. O que não é inevitável é avançarmos sem critério.

E talvez o verdadeiro desafio dos próximos anos seja este: usar melhor, escolher melhor e educar melhor…para que as pequenas vantagens da minha laundry list continuem a pesar mais do que os grandes riscos.

Hoje ficamos por aqui. Embora muito mais haja a dizer, bem entendido.

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