“A tecnologia tornou-se tão integrada na nossa vida que passou a ser uma commodity como outras dos séculos XIX e XX. (…) É como a electricidade: só damos por ela quando falha”
Sou daquelas pessoas, razoavelmente contraditórias, que gostam de criticar o peso excessivo da tecnologia nas nossas vidas, mas que na verdade não pode passar sem ela. Reclamo do tempo passado em frente a ecrãs, da dependência dos dispositivos, da sensação de estarmos sempre “ligados”. Mas depois acontecem episódios muito simples que me obrigam a reconhecer o óbvio: a tecnologia, na maior parte dos dias, resolve muitos problemas (já saber se resolve mais do que cria é toda outra história…).
Recentemente aconteceu-me um daqueles episódios que não só me fizeram ficar maravilhada com a bondade do ser humano, como, lá está, com as vantagens da tecnologia. Para não entrar em detalhes mais ou menos íntimos e que provam a distracção da autora, detenho-me apenas nesta última parte.
Há dias perdi o telemóvel num transporte público. Nada de épico, nada de cinematográfico — apenas aquele momento de pânico que advém de perceber tinha a minha vida inteira no bolso (eu e todos, ou quase, certo?): contactos, fotografias, documentos, notas, agenda, trabalho, memórias…
Usando uma funcionalidade básica de localização de dispositivos, segui-lhe o trajecto e recuperei-o. E com grande felicidade, como sabem todos os que já passaram por isto (e não têm todas as salvaguardas devidas). E com um sentimento de enorme gratidão ao desconhecido que o guardou. E com um ponto inequívoco para a tecnologia!
Vai daí, dei por mim a fazer uma lista mental das pequenas/grandes vantagens que nos aproveitam no dia a dia. Das pequenas soluções quotidianas que simplificam, organizam e descomplicam a vida dos comuns mortais.
Cá vai ela, sem qualquer preocupação exaustiva e menos ainda de destacar as imensas vantagens que a tecnologia tem, desde logo estar a escrever este texto no meu PC , só mesmo as comezinhas. Sublinho que este é um momento de júbilo, muito positivo, pelo que, propositadamente, não vou colocar os “contras”, mas só os “pros” destas aplicações e ferramentas. Não que os ignore, claro (os contra). Aliás rigorosamente todos os que figuram na lista que se segue têm contras….
Eis uma laundry list — imperfeita, incompleta e pessoal — das pequenas vantagens tecnológicas móveis que nos acompanham todos os dias.
- Lembretes (que nos salvam de esquecimentos inoportunos).
- Mapas (que evitam discussões sobre direcções erradas).
- Tradutores instantâneos (que nos permitem desenrascar em qualquer língua).
- Calendários (que se actualizam sozinhos e ex aequo em vários dispositivos).
- Listas de compras partilhadas.
- Alarmes, temporizadores e cronómetros.
- Pagamentos sem dinheiro vivo nem trocos perdidos.
- Bilhetes, reservas e cartões de embarque no mesmo sítio.
- Fotografias organizadas por datas, locais e rostos.
- Comparadores de preços em segundos.
- Consultas médicas marcadas (sem telefonemas intermináveis).
- Videochamadas (que encurtam distâncias e sempre ajudam a enganar as saudades).
- Pesquisa imediata (quando surge uma dúvida, normalmente banal).
- Backups automáticos (que salvam anos de memórias).
- Apps que acompanham a actividade física, o sono ou a hidratação.
Nada disto é, nos dias que correm, extraordinário. E talvez seja precisamente esse o ponto. A tecnologia tornou-se tão integrada na nossa vida que passou a ser uma commodity como outras dos séculos XIX e XX. Banalizou-se. É como a electricidade: só damos por ela quando falha.
Por isso, a tecnologia é simultaneamente um conjunto de ferramentas, um meio e um apoio à organização do dia-a-dia.
Podia ficar-me por aqui, é verdade. Mas este texto ficava demasiado cor-de-rosa, desculpem-me os leitores da Casual Friday, mas vou ser precisa: esta é uma coluna que mesmo quando se quer de leitura light, não será cor-de-rosa.
É que a tecnologia tem donos. E os donos querem sempre mais. E os consumidores vão atrás. Por isso, estão sempre a surgir vantagens novas, upgrades, actualizações, mais e mais virtudes, que satisfazem necessidades que nem sabíamos que tínhamos!
E a tecnologia torna-se exigente, reclama mais e mais atenção obriga-nos a aprender continuamente a lidar com ela. Aprender a configurar, a proteger dados, a perceber o que usamos e porquê. Aprender a distinguir utilidade de excesso. Aprender a estabelecer limites. Aprender a desligar.
Porque, por um lado, sem aprendizagem contínua ficamos mesmo para trás. E, por outro, sem espírito crítico ficamos vulneráveis.
Tenho plena convicção que entre a exclusão digital e a absorção acrítica existe um espaço que precisa de ser ocupado por educação, consciência e, sim, por regulação.
Os sinais de que a Europa está a repensar seriamente o papel e os limites das grandes plataformas digitais não surgem por acaso. Surgem porque começa a ser evidente que nem tudo pode ficar entregue apenas à autorregulação do mercado — e que, em certas circunstâncias, vedar o acesso, desde logo no caso das crianças, não é censura: é protecção.
A tecnologia continuará a avançar. Isso é inevitável. O que não é inevitável é avançarmos sem critério.
E talvez o verdadeiro desafio dos próximos anos seja este: usar melhor, escolher melhor e educar melhor…para que as pequenas vantagens da minha laundry list continuem a pesar mais do que os grandes riscos.
Hoje ficamos por aqui. Embora muito mais haja a dizer, bem entendido.



